Ciência

Rã-touro: anfíbio que 'muge' é considerado espécie invasora em Florianópolis

Originária da América do Norte, a rã está na Categoria 1 de fauna exótica invasora de Santa Catarina

Rã-touro: espécie de grande porte representa risco à fauna nativa de Santa Catarina (jrubacha/Thinkstock)

Rã-touro: espécie de grande porte representa risco à fauna nativa de Santa Catarina (jrubacha/Thinkstock)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 9 de junho de 2026 às 13h42.

Uma espécie de anfíbio exótico e potencialmente devastador para a fauna local está sob vigilância em Florianópolis.

A rã-touro (Aquarana catesbeiana), originária da América do Norte, foi registrada pela primeira vez na capital catarinense em outubro de 2025, no bairro Ratones.

Desde então, a Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram) e o Laboratório de Ecologia de Anfíbios e Répteis (LEAR) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) trabalham para monitorar e conter sua dispersão.

A espécie está classificada como "Categoria 1" na lista oficial de espécies da fauna exótica invasora de Santa Catarina, a categoria de maior risco, e figura entre as piores espécies invasoras do mundo, segundo o LEAR.

Por que a rã-touro é uma ameaça?

O principal fator que torna a rã-touro tão perigosa para os ecossistemas onde se instala é seu porte. Os indivíduos adultos podem ultrapassar 20 centímetros de comprimento e pesar até 680 gramas, dimensões que lhes conferem vantagem competitiva direta sobre espécies nativas na disputa por alimento e território.

Sua dieta é ampla e inclui peixes, anfíbios, répteis e mamíferos de pequeno porte. Os próprios girinos já chegam a cerca de 17 centímetros. "É o tamanho da rã que a faz ser uma grande predadora, facilitando a competição com espécies nativas e a ocupação de seus nichos", explica o LEAR.

Além da predação direta, a espécie representa um risco sanitário para a fauna local.

A rã-touro pode ser portadora do fungo causador da quitridiomicose e do ranavírus, doenças que afetam anfíbios nativos, peixes e répteis. As infecções não representam risco à saúde humana nem a animais domésticos, segundo a Floram, mas podem ser devastadoras para populações selvagens já fragilizadas.

A rã-touro chegou ao Brasil em 1935, trazida para criação em ranários e comercialização de carne. Com o tempo, por escapes ou solturas intencionais, estabeleceu populações em ambiente natural em diversas regiões do país. O mesmo padrão se repetiu em outros países, transformando a espécie em um problema global.

Como está o monitoramento em Florianópolis

O primeiro registro oficial no município foi feito por meio de dados da Ciência Cidadã em outubro de 2025, em uma propriedade em Ratones. Relatos de moradores da região sugerem que a espécie pode estar presente há mais tempo no bairro. Até agora, a presença da rã-touro foi confirmada em três propriedades locais.

Duas operações de captura já foram realizadas por equipes especializadas: a primeira, em novembro de 2025, resultou na captura de dez espécimes (três juvenis e sete adultos); a segunda, em março de 2026, capturou mais um indivíduo. Os animais foram encaminhados ao Laboratório de Herpetologia da UFSC para análises, incluindo testes para ranavírus e quitridiomicose.

"O trabalho que estamos conduzindo em Ratones segue uma estratégia de detecção precoce e resposta rápida. Quando uma espécie exótica é identificada logo no início, é possível compreender melhor a situação, mapear sua ocorrência e tomar decisões fundamentadas, em parceria com as demais instituições e com a comunidade", afirmou Fábio Henrique Machado, presidente da Floram.

A população pode ajudar no monitoramento. Quem avistar a espécie deve fotografar o animal e gravar sua vocalização — um som grave que se assemelha ao mugido de um boi, emitido apenas pelos machos, tanto de dia quanto à noite. O material, junto com o endereço do local (preferencialmente com coordenadas), data e hora do registro, deve ser enviado à Floram pelo WhatsApp (48) 3237-5660.

Para identificar a espécie, o LEAR orienta observar: nos machos, o grande porte e os tímpanos maiores que os olhos; nas fêmeas, o grande porte e os tímpanos menores que os olhos; em ambos os sexos, a presença de membranas entre os dedos das patas traseiras. Os girinos também se destacam pelo tamanho avantajado e costumam ser encontrados em lagoas.

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