Poluição do ar: estudo associa maior exposição a partículas finas ao risco de doenças que comprometem a visão (Freepik)
Redatora
Publicado em 19 de setembro de 2026 às 09h00.
A poluição do ar pode estar associada a um risco maior de glaucoma e catarata, duas importantes causas de perda de visão. Uma ampla análise identificou que pessoas expostas aos níveis mais elevados de poluentes apresentavam probabilidade até 70% maior de desenvolver glaucoma em comparação com aquelas que viviam nas áreas menos afetadas.
A associação também foi observada para a catarata. Nesse caso, o risco aumentava à medida que crescia a exposição à poluição atmosférica. Os resultados foram apresentados no 44º Congresso da Sociedade Europeia de Cirurgiões de Catarata e Refrativa (ESCRS) e divulgados em um comunicado publicado na última segunda-feira, 14, pela própria entidade.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Hospital e Centro de Pesquisa Oftalmológica King Khaled, em Riad, na Arábia Saudita, e reuniu dados de 41 estudos, envolvendo milhões de pessoas do Leste Asiático e do Reino Unido.
Embora os efeitos da poluição sobre os pulmões e o sistema cardiovascular sejam amplamente estudados, as consequências para a saúde dos olhos ainda são menos conhecidas.
Diferentemente de órgãos internos, os olhos ficam diretamente expostos ao ambiente. A nova análise buscou reunir as evidências disponíveis para investigar possíveis relações entre a qualidade do ar e doenças oculares.
Entre os poluentes avaliados, o material particulado fino (PM2,5) apresentou uma das associações mais relevantes. A cada aumento significativo na exposição a essas partículas, o risco de glaucoma crescia cerca de 8%, enquanto o de catarata subia aproximadamente 4%, segundo Alnabihi.
Os resultados relacionados à degeneração macular associada à idade foram menos consistentes. Outros poluentes analisados, como dióxido de nitrogênio e ozônio, também apresentaram associações mais fracas.
O PM2,5 é formado por partículas minúsculas presentes, por exemplo, na fumaça, nos gases emitidos por veículos e na poluição industrial. Por seu tamanho reduzido, elas conseguem penetrar profundamente no organismo.
Segundo Alnabihi, acredita-se que a exposição ao material particulado fino possa provocar inflamação e estresse oxidativo. Ao longo dos anos, esses processos poderiam causar danos a estruturas importantes para a visão.
No caso do glaucoma, o possível efeito envolve o nervo óptico, responsável por transmitir informações visuais ao cérebro. Já na catarata, os danos poderiam atingir o cristalino, estrutura transparente localizada dentro do olho.
A análise, porém, identifica associações entre exposição à poluição e maior risco das doenças, sem demonstrar que os poluentes sejam diretamente responsáveis pelo desenvolvimento dessas condições.
Filomena Ribeiro, ex-presidente imediata da ESCRS e chefe de oftalmologia do Hospital da Luz, em Lisboa, destaca que a catarata afeta aproximadamente 94 milhões de pessoas em todo o mundo, enquanto o glaucoma atinge cerca de 7,7 milhões.
As duas doenças tornam-se mais frequentes com o avanço da idade. Os novos resultados indicam que a exposição prolongada a níveis mais elevados de poluição atmosférica também pode estar relacionada ao aumento do risco.
Segundo Filomena, os achados reforçam a saúde ocular como mais uma preocupação associada à qualidade do ar, ao lado de outros efeitos da poluição já estudados no organismo.