Ciência

Pesquisa de Cambridge muda o que se sabia sobre o funcionamento da memória

As chamadas memória episódica e memória semântica não funcionam de maneira diferente, como se acreditava anteriormente

Memória episódica: refere-se à capacidade de recordar eventos específicos do passado, como uma viagem ou uma festa de aniversário (Getty Images/Getty Images)

Memória episódica: refere-se à capacidade de recordar eventos específicos do passado, como uma viagem ou uma festa de aniversário (Getty Images/Getty Images)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 16h03.

Última atualização em 29 de janeiro de 2026 às 16h43.

Um estudo das Universidades de Nottingham e Cambridge desafia décadas de consenso científico sobre como funciona a memória humana.

A pesquisa, publicada na revista Nature nesta terça-feira, 27, encontrou evidências de que dois tipos fundamentais de memória podem não ser tão distintos quanto se acreditava.

O que são os dois tipos de memória?

A memória episódica refere-se à capacidade de recordar eventos específicos do passado, como uma viagem ou uma festa de aniversário. Ela permite reviver experiências como uma forma de "viagem mental no tempo".

Já a memória semântica diz respeito ao conhecimento geral sobre o mundo, como saber que Paris é a capital da França, independentemente de quando ou onde essa informação foi aprendida.

Essa distinção foi estabelecida através de estudos com pacientes neurológicos. Segundo os pesquisadores, estágios iniciais da doença de Alzheimer afetam principalmente a memória episódica, enquanto a memória semântica permanece intacta. Já a demência semântica causa perda de conhecimento geral, mas preserva a memória de eventos pessoais.

Como funcionou o estudo de Cambridge

Os pesquisadores testaram 36 participantes saudáveis, diferentemente dos estudos que fundaram a noção de dois tipos de memória, usando ressonância magnética funcional.

O experimento utilizou logotipos de marcas e seus nomes. Na tarefa semântica, os participantes recordavam associações reais, como o logotipo da cafeteria Starbucks com a palavra "Starbucks".

Já nos testes da memória episódica, as mesmas pessoas tinham que se lembrar de associações que haviam aprendido em uma fase anterior do estudo, em que um logotipo era apresentado junto com o nome de uma marca diferente.

Os cientistas analisaram a ativação cerebral e examinaram regiões previamente identificadas como especializadas em cada tipo de memória.

Quais mudanças essa descoberta traz para a ciência?

Os resultados foram surpreendentes. A análise mostrou forte evidência de que não há diferença significativa entre a recuperação de memória episódica e semântica nas regiões cerebrais examinadas.

Mesmo o lobo temporal anterior, tradicionalmente considerado crucial especificamente para memória semântica, não demonstrou essa especialização.

Os autores sugerem que em cérebros saudáveis, as mesmas regiões podem processar ambos os tipos de memória. As diferenças observadas em pacientes com doenças neurológicas poderiam ser resultado da reorganização cerebral que ocorre quando uma região se torna disfuncional.

Outra possibilidade apresentada pelos pesquisadores é que a distinção tradicional esteja ultrapassada. Teorias recentes veem memórias episódicas e semânticas como extremos de um espectro, variando em características como especificidade temporal e compartilhamento entre pessoas.

O estudo desafia significativamente o modelo tradicional e pode levar a uma reformulação de como entendemos e tratamos distúrbios de memória. Os autores reconhecem, contudo, a necessidade de mais pesquisas para confirmar essas descobertas.

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