Ozempic: marca é da fabricante dinamarquesa Novo Nordisk, assim como o Wegovy (Roberto Pfeil/picture alliance/Getty Images)
Repórter
Publicado em 9 de julho de 2026 às 17h01.
A alta no uso do Ozempic e do Wegovy para emagrecimento trouxe um problema evitável: milhares de pessoas passaram a ligar para centros de intoxicação após erros no uso da semaglutida.
Um estudo publicado no Journal of Medical Toxicology analisou dados do National Poison Data System, base nacional dos centros de intoxicação dos Estados Unidos, e identificou uma virada após a aprovação da semaglutida para controle crônico de peso pela Food and Drug Administration (FDA), em 2021.
Antes da aprovação, os centros registravam de 1.000 a 1.500 casos por ano envolvendo agonistas do receptor GLP-1, classe de medicamentos que inclui a semaglutida. Depois de meados de 2021, o volume quase dobrou. Em 2023, passou de 8.000 chamadas.
A semaglutida respondeu por 64% das chamadas relacionadas a GLP-1 no período analisado, segundo o estudo.
Os pesquisadores associaram a alta principalmente a erros terapêuticos e exposições não intencionais, não ao uso deliberadamente abusivo do medicamento.
Entre as falhas citadas estão aplicar o remédio todos os dias, quando o uso previsto é semanal, e começar diretamente por doses mais altas, sem a escalada gradual recomendada.
“Você consegue imaginar algo que deveria ser aumentado aos poucos, e a pessoa começa com força total e sete vezes mais frequentemente do que deveria?”, disse Jordan Miller, autora do estudo, à UT San Antonio.
O achado ajuda a explicar por que a popularização dos medicamentos para perda de peso também ampliou um risco operacional: quanto maior o número de usuários fora do contexto original do diabetes tipo 2, maior a chance de falhas na orientação de uso.
O estudo não conclui que os casos tenham sido, em geral, graves. Mas aponta que a alta nas chamadas veio acompanhada de maior uso de serviços de saúde após a expansão da semaglutida para emagrecimento.
Para os autores, a resposta passa por informação mais clara no consultório e na farmácia, especialmente sobre a frequência semanal da aplicação e o aumento progressivo da dose.
O dado reforça um alerta já presente no debate sobre as terapias com GLP-1: a eficácia no tratamento da obesidade depende de prescrição, acompanhamento e uso correto.
A popularidade da semaglutida mudou a escala do tratamento. O estudo mostra que a segurança também passou a depender da escala da orientação.