O olho tentando se defender sozinho
Diferente de outras abordagens que tentam substituir células já destruídas, os pesquisadores finlandeses decidiram agir antes que os danos se tornem irreversíveis. A ideia é estimular as próprias células da retina a resistirem ao envelhecimento e ao estresse oxidativo.
“O funcionamento celular e os mecanismos de proteção enfraquecem com a idade”, explicou o professor Ari Koskelainen, um dos autores do estudo. “Os radicais livres danificam proteínas, fazendo com que elas se deformem e se acumulem em depósitos gordurosos chamados drusas”, afirmou.
Esses depósitos são justamente um dos principais sinais da degeneração macular seca.
Como o calor pode proteger a retina
O tratamento usa calor leve aplicado por luz infravermelha próxima. O desafio dos cientistas era enorme: aquecer o fundo do olho apenas alguns graus sem causar danos permanentes. Segundo os pesquisadores, temperaturas acima de 45 °C podem lesionar a retina. Por isso, a equipe criou um sistema capaz de aquecer e monitorar a temperatura em tempo real.
O objetivo não é destruir tecido, mas provocar uma espécie de “alerta controlado” nas células. Esse pequeno estresse faz com que o organismo ative proteínas de defesa conhecidas como heat shock proteins, responsáveis por reparar proteínas danificadas.
A limpeza celular que pode evitar a cegueira
O estudo também revelou outro efeito importante: a ativação da autofagia, mecanismo natural que funciona como um sistema interno de limpeza celular.
“Nós conseguimos mostrar que podemos ativar não apenas a produção das proteínas de choque térmico, mas também a autofagia usando calor”, disse Koskelainen. “Esse processo funciona como uma remoção de resíduos.”
Isso significa que o olho pode ganhar uma capacidade maior de eliminar proteínas defeituosas e estruturas danificadas antes que elas comprometam a visão.
Os testes já foram realizados em camundongos e porcos, com resultados considerados promissores pelos pesquisadores. Agora, a equipe prepara os primeiros testes clínicos em humanos na Finlândia. Inicialmente, o foco será avaliar a segurança do procedimento.
O estudo foi publicado na revista Nature Communications em outubro de 2025 e detalha o funcionamento do método desenvolvido pelos pesquisadores da universidade finlandesa.
Koskelainen acredita que, se os resultados forem confirmados em humanos, a tecnologia poderá chegar aos hospitais em poucos anos. “O objetivo final é que ela esteja disponível no consultório do oftalmologista local”, afirmou.
Durante décadas, a degeneração macular seca foi tratada como uma doença praticamente inevitável do envelhecimento, com poucas alternativas reais para impedir sua progressão. Agora, a ideia de usar calor controlado para ensinar o olho a se reparar sozinho sugere uma mudança radical de perspectiva: impedir que a visão desapareça.