Ciência

Novo tratamento a laser pode impedir cegueira antes dos primeiros sintomas graves

Cientistas desenvolveram um método capaz de aquecer delicadamente o fundo do olho para estimular sistemas celulares de reparo antes que a visão seja comprometida.

Olhos: Estudo da Aalto University propõe usar calor suave e luz infravermelha para ativar mecanismos naturais de proteção da retina contra degeneração macular (Freepik)

Olhos: Estudo da Aalto University propõe usar calor suave e luz infravermelha para ativar mecanismos naturais de proteção da retina contra degeneração macular (Freepik)

Publicado em 30 de maio de 2026 às 06h09.

A ciência pode estar mais perto de encontrar uma forma de impedir a cegueira antes que ela aconteça. Pesquisadores da Aalto University desenvolveram um tratamento experimental que usa luz infravermelha e calor controlado para ativar mecanismos naturais de proteção nas células do olho.

A técnica foi criada para combater a degeneração macular relacionada à idade, conhecida como AMD, uma das principais causas de perda de visão em idosos. A doença afeta especialmente a região central da retina, dificultando tarefas como ler, dirigir e reconhecer rostos.

O olho tentando se defender sozinho

Diferente de outras abordagens que tentam substituir células já destruídas, os pesquisadores finlandeses decidiram agir antes que os danos se tornem irreversíveis. A ideia é estimular as próprias células da retina a resistirem ao envelhecimento e ao estresse oxidativo.

“O funcionamento celular e os mecanismos de proteção enfraquecem com a idade”, explicou o professor Ari Koskelainen, um dos autores do estudo. “Os radicais livres danificam proteínas, fazendo com que elas se deformem e se acumulem em depósitos gordurosos chamados drusas”, afirmou.

Esses depósitos são justamente um dos principais sinais da degeneração macular seca.

Como o calor pode proteger a retina

O tratamento usa calor leve aplicado por luz infravermelha próxima. O desafio dos cientistas era enorme: aquecer o fundo do olho apenas alguns graus sem causar danos permanentes. Segundo os pesquisadores, temperaturas acima de 45 °C podem lesionar a retina. Por isso, a equipe criou um sistema capaz de aquecer e monitorar a temperatura em tempo real.

O objetivo não é destruir tecido, mas provocar uma espécie de “alerta controlado” nas células. Esse pequeno estresse faz com que o organismo ative proteínas de defesa conhecidas como heat shock proteins, responsáveis por reparar proteínas danificadas.

A limpeza celular que pode evitar a cegueira

O estudo também revelou outro efeito importante: a ativação da autofagia, mecanismo natural que funciona como um sistema interno de limpeza celular.

“Nós conseguimos mostrar que podemos ativar não apenas a produção das proteínas de choque térmico, mas também a autofagia usando calor”, disse Koskelainen. “Esse processo funciona como uma remoção de resíduos.”

Isso significa que o olho pode ganhar uma capacidade maior de eliminar proteínas defeituosas e estruturas danificadas antes que elas comprometam a visão.

Os testes já foram realizados em camundongos e porcos, com resultados considerados promissores pelos pesquisadores. Agora, a equipe prepara os primeiros testes clínicos em humanos na Finlândia. Inicialmente, o foco será avaliar a segurança do procedimento.

O estudo foi publicado na revista Nature Communications em outubro de 2025 e detalha o funcionamento do método desenvolvido pelos pesquisadores da universidade finlandesa.

Koskelainen acredita que, se os resultados forem confirmados em humanos, a tecnologia poderá chegar aos hospitais em poucos anos. “O objetivo final é que ela esteja disponível no consultório do oftalmologista local”, afirmou.

Durante décadas, a degeneração macular seca foi tratada como uma doença praticamente inevitável do envelhecimento, com poucas alternativas reais para impedir sua progressão. Agora, a ideia de usar calor controlado para ensinar o olho a se reparar sozinho sugere uma mudança radical de perspectiva: impedir que a visão desapareça.

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