Ciência

Não consegue esquecer o ex? O algoritmo do TikTok pode ser o 'culpado'

Plataforma passa a recomendar vídeos sobre términos, ex-parceiros e reconciliação, criando um ciclo de consumo que preocupa especialistas em saúde mental

TikTok: especialistas discutem como recomendações da rede social podem afetar pessoas em momentos de vulnerabilidade emocional (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

TikTok: especialistas discutem como recomendações da rede social podem afetar pessoas em momentos de vulnerabilidade emocional (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 08h56.

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Após o término de um relacionamento, é comum recorrer às redes sociais para se distrair, mas o efeito pode ser justamente o oposto. Segundo reportagem do The New York Times, especialistas alertam que plataformas como o TikTok passam a identificar rapidamente o interesse do usuário por conteúdos relacionados ao fim do relacionamento e recomendam cada vez mais vídeos sobre o tema, o que pode prolongar o sofrimento e dificultar a recuperação emocional.

O fenômeno, conhecido informalmente como "BreakupTok", reúne conteúdos sobre luto amoroso, reconquista, contato zero, teorias de apego, leituras de tarô e conselhos de influenciadores, criando um ciclo que mantém muitas pessoas conectadas ao tema por semanas ou até meses.

Algoritmo aprende rapidamente o que o usuário está vivendo

O TikTok não é capaz de reconhecer diretamente as emoções dos usuários, mas monitora continuamente seu comportamento dentro da plataforma.

Tempo de visualização, curtidas, comentários, compartilhamentos e até a velocidade com que a pessoa desliza a tela ajudam o algoritmo a identificar quais assuntos despertam maior interesse. Assim, basta interagir com alguns vídeos sobre o fim de um relacionamento para que o sistema passe a recomendar uma sequência de publicações semelhantes.

Segundo Michael Rich, fundador do Digital Wellness Lab, do Boston Children's Hospital, esse mecanismo tende a atuar justamente em momentos de maior vulnerabilidade emocional, quando o aumento do tempo de permanência na plataforma pode ocorrer às custas do bem-estar do usuário.

Excesso de conteúdo pode prolongar o luto

Especialistas em saúde mental afirmam que a exposição constante a vídeos sobre términos pode interferir no processo natural de superação. A bioeticista Jodi Halpern, da Universidade da Califórnia em Berkeley, explica que esse tipo de recomendação favorece a ruminação — quando a pessoa revive repetidamente pensamentos e emoções ligados ao relacionamento que terminou.

Em vez de ajudar a elaborar a perda, esse ciclo pode retardar a recuperação emocional e prolongar o sofrimento.

Pesquisas anteriores, citadas pelo NYT, já mostram que o uso intenso das redes sociais após o fim de um relacionamento pode aumentar a angústia, dificultar a recuperação emocional e reduzir o crescimento pessoal.

Os estudos também indicam que tanto buscar informações sobre o ex quanto ser exposto involuntariamente a conteúdos relacionados ao relacionamento podem prolongar o sofrimento. Mesmo quando usuários deixam de seguir antigos parceiros ou tentam bloquear determinados assuntos, as plataformas frequentemente voltam a recomendar conteúdos semelhantes por meio de seus sistemas de recomendação.

Nem todo conteúdo sobre relacionamentos faz mal

Especialistas ressaltam que o problema não está nos vídeos sobre términos, mas na frequência e na forma como eles são distribuídos pelos algoritmos.

O terapeuta Jeff Guenther, que produz conteúdo sobre relacionamentos no TikTok, afirma que muitos vídeos publicados por profissionais de saúde mental ajudam usuários a compreender o luto, regular as emoções e desenvolver estratégias saudáveis para seguir em frente.

Por outro lado, ele observa que conteúdos mais sensacionalistas costumam gerar maior engajamento e, por isso, acabam sendo impulsionados pela plataforma. Muitos oferecem falsas promessas de reconciliação ou atribuem toda a responsabilidade pelo término ao ex-parceiro, o que pode dificultar o amadurecimento emocional após o fim da relação.

O que dizem as plataformas digitais

Procuradas pelo The New York Times, as empresas afirmaram que oferecem ferramentas para reduzir recomendações repetitivas e dar mais controle aos usuários.

O TikTok informou que tem recursos de bem-estar digital, como limites de tempo de uso e mecanismos para interromper sequências excessivas de vídeos semelhantes. A plataforma já havia reconhecido que determinados conteúdos podem reforçar experiências negativas para pessoas que passaram recentemente por momentos difíceis.

A Meta, responsável por Instagram e Facebook, afirmou disponibilizar ferramentas para ocultar determinados temas e ajustar os interesses utilizados pelos algoritmos na recomendação de publicações.

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