Movimento abre espaço para novos modelos de redes sociais (Shutthiphong Chandaeng/Getty Images)
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Publicado em 11 de março de 2026 às 10h00.
Última atualização em 11 de março de 2026 às 10h54.
Por Rodrigo e Renato Cirne*
A sucessão de casos recentes envolvendo plataformas digitais transformou as redes sociais em um dos temas mais estratégicos do momento para governos, empresas e líderes de inovação.
Durante mais de duas décadas, as redes sociais foram tratadas como uma das maiores revoluções da economia digital. Elas redefiniram a forma como pessoas se conectam, como empresas se posicionam e como a informação circula na sociedade. Plataformas digitais passaram a influenciar decisões de consumo, reputações corporativas, debates públicos e até a dinâmica de setores inteiros da economia.
Mas, nos últimos anos — e especialmente nos últimos meses — o debate sobre essas plataformas mudou de intensidade. O que antes era visto apenas como uma questão de tecnologia ou marketing passou a ocupar o centro de discussões jurídicas, regulatórias e estratégicas em diversas partes do mundo.
Hoje, redes sociais são também um tema de governança, risco e impacto social, com implicações diretas para empresas, investidores e formuladores de políticas públicas.
Nos Estados Unidos, mais de 30 estados moveram ações contra a Meta Platforms, controladora do Facebook e do Instagram, alegando que as plataformas foram desenhadas de forma a estimular a dependência digital e contribuir para problemas de saúde mental entre jovens.
Em paralelo, a cidade de Nova York processou empresas como TikTok, Google e Snapchat, argumentando que os modelos de engajamento dessas plataformas podem agravar uma crise de saúde mental entre adolescentes.
Na Europa, o debate ganhou contornos regulatórios ainda mais robustos. O Digital Services Act, uma das legislações digitais mais relevantes da última década, passou a impor novas obrigações de transparência algorítmica, gestão de riscos e responsabilidade das plataformas sobre conteúdos nocivos.
Na prática, trata-se de uma mudança estrutural na forma como governos passam a enxergar e regular as grandes empresas de tecnologia.
Para o mundo corporativo, esse conjunto de movimentos revela algo importante: as redes sociais deixaram de ser apenas canais de comunicação ou marketing e passaram a ser também um tema central de gestão estratégica.
Hoje, empresas precisam lidar com um conjunto muito mais complexo de questões relacionadas ao ambiente digital.
O debate envolve riscos reputacionais amplificados por algoritmos, pressão regulatória crescente, responsabilidade sobre conteúdos que circulam em plataformas e até discussões sobre saúde mental e comportamento social.
As redes sociais passaram a ser analisadas também sob a ótica de gestão de risco, governança digital e impacto social da tecnologia.
E talvez o aspecto mais sensível desse debate esteja na forma como comportamentos sociais podem ganhar escala no ambiente digital. Episódios recentes mostram como conteúdos extremos, violentos ou sensíveis podem se espalhar rapidamente nas redes, gerando repercussão pública e mobilização social em questão de horas.
No Brasil, por exemplo, o caso do cão comunitário “Orelha”, agredido por adolescentes em Santa Catarina, ganhou enorme repercussão nacional após circular em redes sociais. Reportagens investigativas indicaram que, em alguns contextos, grupos online podem funcionar como ambientes de validação ou estímulo para comportamentos extremos entre jovens, ampliando dinâmicas sociais que já existem fora do ambiente digital.
É importante destacar que não se trata de afirmar que redes sociais causem esses comportamentos. A questão é mais complexa do que isso. O que diversos estudos e investigações vêm apontando é que o ambiente digital pode amplificar comportamentos, emoções e dinâmicas sociais — positivas ou negativas — com uma velocidade e escala inéditas.
Esse cenário revela uma dicotomia cada vez mais evidente no ecossistema das redes sociais contemporâneas. De um lado, essas plataformas continuam sendo ferramentas extraordinárias de conexão, mobilização e geração de oportunidades econômicas.
De outro, o modelo que sustentou o crescimento dessas plataformas — baseado na maximização de atenção, engajamento e viralização — começa a ser questionado por tribunais, governos, investidores e pela própria sociedade.
Historicamente, momentos como esse costumam marcar transições importantes no ciclo da inovação tecnológica.
Ao mesmo tempo em que cresce o debate sobre riscos e governança das redes sociais, outro movimento ganha força no mundo corporativo: a busca por ações concretas de impacto social e ambiental por parte das empresas.
Cada vez mais, organizações são pressionadas por consumidores, investidores e pela sociedade a demonstrar, de forma prática, como contribuem para soluções de problemas reais — e não apenas por meio de discursos institucionais.
Nesse contexto, iniciativas capazes de conectar empresas, organizações sociais e comunidades passam a chamar a atenção. Foi seguindo esse movimento que criamos o Plantah, uma plataforma para reunir pessoas, empresas e organizações sociais em torno de iniciativas concretas.
A rede reúne mais de 300 organizações sociais cadastradas e ultrapassa 3 mil usuários ativos. Projetos com associações e comunidades começaram a surgir em diferentes frentes, conectando organizações que precisam de apoio com empresas e pessoas dispostas a colaborar.
A proposta nasceu justamente da percepção de que o modelo tradicional das redes sociais passou a priorizar disputas por atenção. A maior parte das plataformas foi construída para maximizar engajamento e tempo de tela.
Acreditamos que o que funciona é uma lógica diferente. E nós perguntamos aos usuários o que eles querem colocar de bom no planeta. A ideia é que o conteúdo publicado gere impacto positivo na vida das pessoas.
*Rodrigo e Renato Cirne são fundadores do Plantah, rede social brasileira focada em intermediar negócios sustentáveis.