Repórter
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 16h02.
Remy trabalha com micropigmentação e aplica pequenos pontos de pigmento no couro cabeludo de pessoas calvas para reproduzir visualmente a presença de fios. No Japão, porém, a micropigmentação capilar é alvo de alertas das autoridades de saúde e pode resultar em ações penais quando realizada por profissionais sem licença médica.
Enquanto a "micropigmentação" é tratada como um procedimento estético em grande parte do mundo, as autoridades japonesas adotam outro entendimento. No país, a prática é enquadrada no âmbito médico, o que impõe restrições a profissionais que não possuem as credenciais exigidas.
É o caso de Remy, morador de Okinawa, de 44 anos, que atua sem licença médica. Profissionais do segmento afirmam que o procedimento tem finalidade estética e busca criar efeitos visuais, como reproduzir a aparência de cabelo, redesenhar sobrancelhas ou adicionar pigmentação aos lábios.
As medidas de higiene e segurança adotadas pelos profissionais, no entanto, não afastaram os questionamentos das autoridades japonesas. "É um completo mistério para mim por que eles continuam afirmando que constitui uma prática médica", explica Remy.
Segundo ele, a micropigmentação aplicada no couro cabeludo é um procedimento "pouco invasivo" e "tão indolor que alguns clientes chegam a dormir durante a sessão". A técnica utiliza pigmentos para reproduzir visualmente a aparência de cabelos cortados próximos ao couro cabeludo.
Entre os clientes está Koki Hatanaka, de 28 anos, que relata ter enfrentado depressão após uma alopecia repentina. "Eu não queria sair de casa", conta à AFP. Após o procedimento, sua cabeça passou a apresentar a aparência de um corte de cabelo curto.
A discussão sobre a atividade também passa pela legislação japonesa relacionada ao uso de agulhas. Em 2020, a Suprema Corte japonesa decidiu que as tatuagens tradicionais não constituem um ato médico, mas a decisão não incluiu a micropigmentação capilar.
Segundo um funcionário do Ministério da Saúde, a prática "historicamente envolve médicos". Para as autoridades, o uso de agulhas apresenta riscos suficientes para "causar danos físicos caso o procedimento seja realizado sem a devida formação médica", acrescenta.
As consequências legais podem incluir prisão para quem exercer a atividade sem licença médica, segundo Akihiro Saotome, especialista em direito da saúde. Mesmo sob esse enquadramento, profissionais de micropigmentação continuam a oferecer o serviço no país.
Em julho, uma convenção realizada em Okinawa reuniu profissionais de países como Coreia do Sul, Vietnã e Suécia. O encontro ocorreu em meio às restrições aplicadas no Japão à atividade exercida por pessoas sem formação médica.
"Não faço nada do que eu deva me envergonhar", afirma Tatsuki Miyahira, que oferece o procedimento apesar de não possuir credenciais médicas.
O Japão é o único país onde a micropigmentação feita por pessoas sem formação médica pode resultar em punição. Parte dos profissionais do setor relaciona esse enquadramento à trajetória das tatuagens no país.
No Japão, tatuagens foram utilizadas no passado para marcar criminosos e, posteriormente, passaram a ser associadas a grupos mafiosos. Esse histórico integra o debate entre profissionais de micropigmentação e autoridades sobre a regulamentação da atividade no país.