Barras de ferro: arqueólogos recuperaram pelo menos 500 peças com cerca de 2.200 anos no rio Danúbio (Divulgação/Peter Trebsche)
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Publicado em 26 de setembro de 2026 às 07h00.
Uma carga de mais de uma tonelada de ferro, suficiente para produzir cerca de 500 espadas, permaneceu escondida por aproximadamente 2,2 mil anos no rio Danúbio. Arqueólogos identificaram ao menos 500 barras do metal na região da atual Áustria, no que é apontado como o maior conjunto desse tipo já encontrado na Europa.
As peças foram descobertas por acaso durante uma extração de cascalho perto da vila de Deinham, na Alta Áustria. Elas não eram armas prontas, mas barras de ferro que poderiam ser transformadas por ferreiros em espadas, ferramentas ou pregos.
O estudo, publicado na revista científica Antiquity, indica que a carga pertence aos séculos III ou II a.C., durante a fase final da Idade do Ferro. Para os pesquisadores, o achado oferece uma rara dimensão da quantidade de ferro que já podia ser produzida, transportada e comercializada na Europa há mais de dois milênios.
A descoberta ocorreu em 2019, quando trabalhadores retiravam cascalho das margens do rio Danúbio, perto de Deinham. Durante o trabalho, uma escavadeira encontrou diversos objetos enferrujados, muitos com formato de ponta dupla.
A possibilidade de serem peças antigas levou os trabalhadores a comunicar o achado ao Escritório Federal de Monumentos da Áustria. Arqueólogos passaram então a examinar o material retirado do rio. Foram identificadas 193 barras completas e 307 fragmentadas, o que representa pelo menos 500 peças.
As barras inteiras possuem, em média, 28,5 centímetros e pesam aproximadamente dois quilos cada. Juntas, todas as peças recuperadas chegam a cerca de uma tonelada.
A preservação do material chamou a atenção dos pesquisadores porque a extração industrial poderia ter enviado as peças diretamente para a sucata.
As barras eram produtos semiacabados. Isso significa que o ferro já havia sido preparado para transporte e armazenamento, mas ainda precisava passar pelas mãos de ferreiros para assumir sua forma definitiva.
A quantidade recuperada poderia produzir aproximadamente 500 espadas. Outra possibilidade seria fabricar até 8 mil pregos de ferro.O material também poderia dar origem a ferramentas e outros objetos. Por isso, embora a dimensão da carga permita estimar quantas armas poderiam ser fabricadas, não há evidências de que todo o ferro estivesse destinado à guerra.
A comparação com as espadas ajuda, porém, a dimensionar o tamanho do carregamento. Mesmo com perdas durante a fabricação, segundo os pesquisadores, havia metal suficiente para fornecer armas a um grande grupo de guerreiros.
A principal hipótese é que as barras tenham sido perdidas durante uma viagem pelo rio. Antes das formas modernas de transporte terrestre, rios como o Danúbio funcionavam como importantes rotas para deslocar grandes volumes de mercadorias.
A concentração das barras no mesmo local levou os pesquisadores a considerar a possibilidade de que elas fossem transportadas juntas quando uma embarcação sofreu um acidente. Nenhum vestígio de barco, porém, foi encontrado. A equipe também não descarta completamente que o ferro tenha sido depositado intencionalmente no local.
Segundo o estudo, parte desse mistério pode ser difícil de resolver. A retirada industrial do cascalho destruiu uma parcela do contexto arqueológico original, eliminando pistas sobre a posição exata das peças antes da descoberta.
A origem das barras ainda não foi determinada, mas os pesquisadores apontam para uma possível ligação com a Baviera, região da atual Alemanha situada a cerca de 200 quilômetros do local.
A hipótese se baseia em outros achados semelhantes e na existência de áreas de produção de ferro próximas a grandes assentamentos fortificados conhecidos como oppida. Um desses centros era Manching, na Baviera, localizado perto de uma importante região produtora de ferro.
Agora, os pesquisadores analisam vestígios químicos presentes nas barras. A composição pode funcionar como uma espécie de assinatura do minério e ajudar a descobrir onde o metal foi extraído e produzido.