Ciência

DNA explica por que viúvas-negras devoram os machos durante o acasalamento

Pesquisa mostra que a famosa 'cambalhota de autossacrifício' realizada pelo macho está ligada a um cromossomo sexual e pode aumentar o sucesso reprodutivo

Viúva-negra: pesquisa relaciona comportamento extremo de acasalamento aos cromossomos sexuais (Freepik)

Viúva-negra: pesquisa relaciona comportamento extremo de acasalamento aos cromossomos sexuais (Freepik)

Publicado em 16 de agosto de 2026 às 17h19.

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Para um macho de viúva-negra, o acasalamento pode terminar de forma fatal. Durante a cópula, ele realiza uma cambalhota que o posiciona diretamente diante das presas da fêmea, facilitando que seja devorado.

Um estudo publicado na revista Biology Letters indica que esse comportamento extremo não é apenas uma estratégia reprodutiva: ele também tem origem genética, ligada aos cromossomos sexuais.

A pesquisa analisou a aranha-de-costas-vermelhas (Latrodectus hasselti), uma espécie de viúva-negra encontrada na Oceania. Os resultados mostram que a famosa "cambalhota de autossacrifício" pode ter evoluído rapidamente por meio de poucas alterações genéticas, oferecendo novas pistas sobre a evolução de comportamentos complexos.

Como funciona o ritual de acasalamento?

Na aranha-de-costas-vermelhas, os machos costumam acasalar apenas uma vez durante toda a vida. Eles são menos da metade do tamanho das fêmeas e utilizam estruturas chamadas pedipalpos para transferir esperma aos dois órgãos de armazenamento reprodutivo da parceira.

Durante esse processo, o macho executa uma cambalhota, posicionando o abdômen diante das mandíbulas da fêmea, que frequentemente o devora ainda durante a cópula. Embora pareça um comportamento desvantajoso, ele aumenta as chances de sucesso reprodutivo.

Quando a fêmea começa a consumir o macho, o acasalamento tende a durar mais tempo, permitindo a transferência de uma quantidade maior de esperma. Como as fêmeas possuem dois compartimentos para armazená-lo, inseminar ambos aumenta significativamente a probabilidade de que aquele macho seja o pai de toda a futura ninhada.

A origem genética da cambalhota

Para investigar como esse comportamento evoluiu, pesquisadores da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, compararam a aranha-de-costas-vermelhas com a katipō (Latrodectus katipo), espécie nativa da Nova Zelândia.

Apesar de serem parentes próximas, os machos de katipō não realizam a cambalhota e costumam acasalar com várias fêmeas ao longo da vida.

Os cientistas cruzaram machos de aranha-de-costas-vermelhas com fêmeas de katipō e acompanharam o comportamento de seus descendentes durante três gerações. Ao todo, foram observados 104 rituais de acasalamento com auxílio de câmeras infravermelhas.

Cerca de metade dos híbridos da terceira geração apresentou a cambalhota durante a cópula. Segundo os pesquisadores, esse padrão indica que o comportamento está associado a um cromossomo sexual.

Nem todos os comportamentos evoluíram juntos

Além da cambalhota, os pesquisadores analisaram outro comportamento típico da espécie: a contração do abdômen logo após o movimento. Essa contração dificulta que a fêmea consiga prender completamente o macho, prolongando sua sobrevivência por alguns instantes e permitindo que a transferência de esperma continue.

Ao contrário da cambalhota, porém, essa característica não apresentou uma herança genética simples. Segundo os autores, isso sugere que os dois comportamentos evoluíram de maneira independente, mesmo atuando juntos durante o acasalamento.

Evolução e conservação da espécie

Os resultados mostram que comportamentos altamente complexos podem surgir ou desaparecer em um intervalo evolutivo relativamente curto. A aranha-de-costas-vermelhas e a katipō divergiram entre 100 mil e 200 mil anos atrás, mas, nesse período, a espécie neozelandesa perdeu completamente o ritual de autossacrifício observado em sua parente australiana.

Segundo Kardelen Özgün Uludag, autora principal do estudo, em entrevista ao The Guardian, isso demonstra que mudanças comportamentais importantes podem ocorrer com poucas alterações genéticas.

Além de ampliar o conhecimento sobre a evolução do comportamento animal, a pesquisa pode ajudar na conservação da katipō, espécie que vem sofrendo declínio na Nova Zelândia.

Para Cor Vink, entomologista da Universidade de Lincoln e um dos pesquisadores envolvidos, a hibridização com a aranha-de-costas-vermelhas representa uma ameaça para a sobrevivência da espécie nativa.

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