Ciência

Espécies só de fêmeas desafiam regra da reprodução

Espécies que se reproduzem por clonagem conseguem sobreviver apesar da baixa diversidade genética

Reprodução assexuada permite que algumas espécies gerem filhotes sem machos (Freepik/Bvlgari)

Reprodução assexuada permite que algumas espécies gerem filhotes sem machos (Freepik/Bvlgari)

Publicado em 26 de maio de 2026 às 06h39.

A reprodução sexual domina o reino animal, mas algumas espécies seguem um caminho totalmente diferente. Em vez de depender da mistura genética entre macho e fêmea, certos animais conseguem gerar descendentes praticamente sozinhos — formando populações compostas apenas por fêmeas.

Entre os casos mais conhecidos está a molinésia-amazona (Poecilia formosa), um peixe encontrado em rios e lagos do México e do Texas. A espécie se tornou o primeiro vertebrado conhecido a se reproduzir por clonagem, produzindo apenas fêmeas.

Um novo estudo genético publicado na revista científica Nature e destacado pelo jornal The Conversation ajudou cientistas a entender como esses animais conseguem sobreviver por tanto tempo mesmo com baixa diversidade genética.

Molinésia-amazona: peixe formado apenas por fêmeas se reproduz por clonagem - Foto: Jon McIntyre/iNaturalist

Molinésia-amazona: peixe formado apenas por fêmeas se reproduz por clonagem - Foto: Jon McIntyre/iNaturalist

Como funciona a reprodução sem machos

A maioria das espécies animais se reproduz sexualmente, combinando material genético do pai e da mãe. Esse processo aumenta a diversidade genética e melhora as chances de adaptação diante de mudanças ambientais.

espécies assexuadas produzem descendentes praticamente idênticos à mãe. Esse mecanismo é chamado de partenogênese, conhecido popularmente como “nascimento virginal”.

Segundo pesquisadores, esse tipo de reprodução costuma trazer desvantagens evolutivas importantes. Populações clonadas tendem a ser mais vulneráveis a doenças e podem acumular mutações prejudiciais ao longo do tempo.

Mesmo assim, algumas espécies conseguem sobreviver por milhares — ou até milhões — de anos.

Peixe clonado intriga cientistas há décadas

A molinésia-amazona é um dos exemplos mais estudados desse fenômeno. O peixe surgiu do cruzamento entre duas espécies aparentadas e se reproduz por um mecanismo chamado ginogênese.

Nesse caso, o esperma de um macho ainda é necessário para ativar o desenvolvimento do óvulo, mas o material genético masculino não é incorporado aos filhotes. Ou seja: os descendentes continuam sendo clones da mãe.

Pesquisadores descobriram que um processo chamado conversão gênica pode ajudar a espécie a evitar o acúmulo acelerado de mutações prejudiciais. O mecanismo substitui partes danificadas do DNA e ajuda a preservar genes considerados benéficos.

Segundo os cientistas, isso pode explicar como a espécie conseguiu sobreviver por mais de 100 mil anos.

Lagartos formados apenas por fêmeas

Outro caso conhecido envolve os lagartos-chicote do Novo México (Aspidoscelis neomexicana). Nessas populações, praticamente todos os indivíduos são fêmeas. Diferentemente da molinésia-amazona, elas não precisam de esperma para iniciar o desenvolvimento dos óvulos.

Ainda assim, os animais mantêm comportamentos semelhantes ao acasalamento, que ajudam a estimular a ovulação.

Esses lagartos chegaram a ganhar notoriedade na cultura popular e se tornaram símbolo de discussões sobre diversidade sexual entre animais. A reprodução assexuada já foi registrada em diferentes grupos de vertebrados.

Além de peixes e lagartos, cientistas observaram casos de partenogênese em tubarões-martelo, dragões de komodo, salamandras e até aves como condores-da-Califórnia.

Em algumas espécies, o fenômeno ocorre apenas ocasionalmente. Em outras, representa a principal forma de reprodução.

Cromossomos extras podem ajudar espécies clonadas

Pesquisadores também estudam como algumas dessas espécies mantêm diversidade genética suficiente para sobreviver. A cobra-cega-brahmina (Indotyphlops braminus), por exemplo, possui três cópias de cada cromossomo — em vez das duas habituais.

Segundo cientistas, esse excesso de material genético pode ajudar a reduzir os impactos da clonagem prolongada. Fenômenos semelhantes também aparecem em outros animais, como esturjões e salmões, que possuem múltiplas cópias cromossômicas.

Apesar dos avanços recentes, cientistas afirmam que a evolução dessas espécies ainda levanta muitas dúvidas.

A expectativa é que novas pesquisas genéticas ajudem a explicar como animais exclusivamente femininos conseguem sobreviver por períodos tão longos mesmo enfrentando limitações evolutivas consideradas importantes pela biologia moderna.

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