Netflix: série 'O Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford' recria a dinâmica do controverso estudo com participantes divididos entre guardas e prisioneiros (Reprodução/Netflix)
Redatora
Publicado em 3 de novembro de 2026 às 19h51.
A Netflix transformou um dos estudos mais controversos da psicologia em um reality show. Lançada em 21 de outubro, a série "O Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford" reúne 30 voluntários divididos entre guardas e prisioneiros em uma ala desativada de uma prisão real.
A produção, composta por seis episódios, recria elementos do Experimento de Aprisionamento de Stanford, realizado em 1971 pelo psicólogo americano Philip Zimbardo. O estudo original foi interrompido após seis dias, em meio a relatos de abusos e sofrimento emocional entre os participantes.
Segundo a BBC, a nova versão reacendeu discussões sobre os limites entre pesquisa científica, ética e entretenimento.
Realizado em 1971, o experimento foi conduzido por Philip Zimbardo, então professor da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. O objetivo era investigar como pessoas comuns reagiriam a situações de autoridade, poder e confinamento.
Para isso, os pesquisadores recrutaram 24 jovens, distribuídos aleatoriamente entre os papéis de guardas e prisioneiros. A simulação ocorreu em uma prisão improvisada no porão do departamento de psicologia da universidade.
Embora estivesse previsto para durar duas semanas, o estudo foi encerrado após apenas seis dias. Segundo Zimbardo, alguns participantes que atuavam como guardas passaram a apresentar comportamentos autoritários e abusivos, enquanto prisioneiros relataram sofrimento emocional intenso.
As conclusões foram amplamente divulgadas como evidência de que determinadas situações de poder poderiam levar pessoas comuns a agir de maneira cruel. Entretanto, a interpretação dos resultados passou a ser questionada por pesquisadores.
As críticas envolvem tanto a metodologia quanto as condições impostas aos participantes. Uma das principais questões é a possibilidade de que os voluntários tenham agido conforme as expectativas dos pesquisadores, em vez de apresentar comportamentos espontâneos. Esse fenômeno é conhecido na psicologia como características da demanda.
Também foram levantados questionamentos sobre a atuação de Zimbardo, que acumulou as funções de pesquisador principal e superintendente da prisão simulada. Para alguns especialistas, essa participação pode ter influenciado a conduta dos guardas.
Scott Plous, ex-aluno de Zimbardo e professor de psicologia da Universidade Wesleyan, contesta as acusações de influência indevida sobre os participantes. Apesar disso, reconhece que o experimento apresentou problemas éticos importantes.
Segundo Plous, os voluntários não receberam informações completas sobre os riscos envolvidos e foram levados a acreditar que não poderiam abandonar o estudo. A própria Universidade de Stanford reconheceu que o experimento não seria aprovado segundo os padrões atuais de pesquisa.
A produção apresenta uma versão moderna da experiência de 1971, com 30 participantes divididos entre guardas e prisioneiros. Diferentemente do estudo original, o elenco inclui homens e mulheres.
A simulação ocorre em uma ala desativada de uma prisão real, onde os participantes enfrentam situações envolvendo autoridade, regras e conflitos entre grupos.
A Netflix afirma que os voluntários passaram por avaliações psicológicas e tiveram acompanhamento de profissionais durante as filmagens. Também foi estabelecida uma palavra de segurança, "abacaxi", que permitia aos participantes abandonar a experiência a qualquer momento.
Segundo a produtora executiva Jane Lipsitz, a equipe passou mais de um ano desenvolvendo o projeto e criando medidas de proteção que não existiam no estudo de 1971.
A proposta da Netflix recebeu críticas de pesquisadores que questionam seu valor como estudo do comportamento humano. Para Noah Cohen, professor associado de estudos policiais da Western Sydney University, na Austrália, a produção utiliza o nome e algumas características do experimento original, mas foi desenvolvida principalmente para entretenimento.
Segundo o especialista, as etapas estruturadas e as mudanças nas relações de poder foram planejadas para intensificar conflitos entre os participantes. Plous também questiona a apresentação do programa como uma experiência científica.
O professor aponta que a produção inclui entrevistas durante as filmagens, equipamentos de gravação visíveis e intervenções destinadas a provocar reações emocionais. Esses elementos podem influenciar o comportamento dos voluntários, dificultando a observação de respostas espontâneas.
Além disso, a possibilidade de abandonar o programa representa uma diferença fundamental em relação ao estudo de 1971. Segundo Plous, permitir que os participantes deixem a experiência é uma exigência ética, mas impede reproduzir integralmente a condição de alguém realmente privado de liberdade.
Em 2002, os psicólogos sociais Alex Haslam e Stephen Reicher conduziram um estudo semelhante, exibido pela BBC como uma série documental. Os participantes também foram divididos entre guardas e prisioneiros, mas os resultados diferiram das conclusões associadas ao experimento de Stanford.
Os pesquisadores observaram que fatores como identidade de grupo, liderança e ação coletiva influenciavam o comportamento dos voluntários. A análise sugeriu que a tirania não surgia automaticamente da posição de poder, mas dependia de determinadas condições sociais.
Apesar das comparações, pesquisadores envolvidos nos dois projetos divulgaram uma declaração conjunta em 2018 esclarecendo que o estudo da BBC não era uma reprodução direta do experimento original.
Para Plous, a nova série da Netflix apresenta limitações semelhantes quando tenta se aproximar da pesquisa de 1971. O professor avalia que a produção funciona como reality show, mas não consegue reproduzir cientificamente as condições do experimento de Stanford.