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Colaboradora
Publicado em 3 de novembro de 2026 às 18h25.
Nascido no Ceará, o brasileiro João Marinho Neto foi reconhecido pela LongeviQuest, uma das principais autoridades científicas na validação e rastreamento de supercentenário, como o homem vivo mais velho do mundo, aos 114 anos, com a idade validada com base em documentos e informações da família.
São pessoas raras como ele que despertam uma pergunta que mobiliza pesquisadores: o que permite que alguns seres humanos vivam tanto tempo, enquanto outros desenvolvem doenças associadas ao envelhecimento décadas antes?
Na Universidade de São Paulo (USP), o grupo liderado pela geneticista Mayana Zatz investiga essa questão com uma amostra de brasileiros centenários e supercentenários. O trabalho examina características do DNA, das células e do sistema imunológico que podem ajudar a explicar a longevidade extrema.
A pesquisa busca identificar os mecanismos biológicos associados à preservação da saúde em idades avançadas. As descobertas podem contribuir para novas investigações sobre o envelhecimento, mas ainda não permitem prever quem chegará aos 110 anos nem estabelecer uma relação direta entre características biológicas específicas e a longevidade.
Em janeiro deste ano, pesquisadores ligados ao Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP publicaram na revista Genomic Psychiatry o artigo “Insights from Brazilian supercentenarians”, que reúne evidências científicas e descreve estudos em andamento nacionalmente com idosos de idade avançada.
O grupo já havia coletado dados clínicos e amostras biológicas de mais de 100 centenários, entre eles cerca de 20 supercentenários, como são consideradas as pessoas com 110 anos ou mais. Os participantes vivem em diferentes regiões do país e têm trajetórias sociais e ambientais diversas.
Um dos pontos que os estudos buscam entender é como as células preservam seu funcionamento ao longo do envelhecimento. Entre os mecanismos investigados estão o proteassomo, sistema responsável por degradar proteínas defeituosas ou que já não são necessárias, e a autofagia, processo pelo qual as células eliminam componentes comprometidos e reciclam seus materiais.
Ambos fazem parte da manutenção celular e ajudam a controlar o acúmulo de resíduos que podem prejudicar o organismo com o passar dos anos.
Pesquisas anteriores com idosos em idade avançada identificaram sinais de preservação desses processos, mas ainda não demonstraram que eles sejam, isoladamente, responsáveis por uma vida mais longa.
O sistema imunológico é outra frente de investigação. Estudos com supercentenários identificaram características particulares nas células de defesa, incluindo alterações em subgrupos de linfócitos T e maior presença de células natural killer (NK).
Os linfócitos T participam da coordenação da resposta imunológica e do combate a agentes infecciosos, já as células NK ajudam a reconhecer e eliminar células infectadas ou anormais.
Portanto, investigar como essas substâncias se comportam em pessoas que ultrapassam os 110 anos pode ajudar a esclarecer como o organismo mantém suas defesas em idades avançadas, embora ainda não seja possível determinar o peso desses fatores na longevidade.
A hipótese é que o envelhecimento do sistema imune não ocorra da mesma maneira em todas as pessoas. Em indivíduos que chegam a idades extremas, algumas funções podem permanecer ativas ou se adaptar ao longo da vida, por isso, os mecanismos envolvidos ainda precisam ser esclarecidos.
O grupo de cientistas brasileiros também estudou três supercentenários que sobreviveram à Covid-19 em 2020, antes da vacinação. Os exames identificaram anticorpos contra o vírus e outros indicadores relacionados à resposta imune. O resultado foi descrito em um artigo publicado em 2022 na revista Immunity & Ageing, apesar de o número de participantes ser pequeno para estabelecer alguma relação entre longevidade e resistência à doença.
A ciência ainda não isolou um "gene da longevidade" único, mas as pesquisas do Genoma USP indicam que a superação dos 110 anos pode resultar de uma combinação complexa de variantes genéticas raras.
A influência genética também parece variar conforme a idade. Ao acompanhar centenários e seus familiares desde 1994, o New England Centenarian Study, da Universidade de Boston, constatou que a longevidade excepcional é mais frequente em determinadas famílias e que a contribuição genética parece aumentar entre as pessoas que chegam às idades mais avançadas.
Porém, isso não significa que a genética determine sozinha quanto tempo uma pessoa vive.
Alimentação, atividade física, acesso a cuidados médicos, exposição a riscos e condições socioeconômicas também influenciam a duração da vida e os anos vividos com saúde e autonomia.
Assim, esses fatores podem atuar em conjunto com a predisposição genética, mas sua contribuição varia de acordo com cada pessoa e contexto.
Os bancos de dados genéticos usados em pesquisas internacionais ainda representam de forma desigual as diferentes populações, o que pode dificultar a identificação de variantes genéticas em grupos pouco estudados. Nesse cenário, a diversidade da população brasileira oferece aos cientistas a oportunidade de investigar características genéticas que podem não aparecer em amostras de outras regiões do mundo.
A população brasileira reúne ancestralidades indígenas, africanas, europeias e asiáticas, resultado de séculos de colonização, escravização e migração.
As pesquisas da USP também citam estudos anteriores que identificaram milhões de variantes genéticas ainda não descritas na população brasileira, além de diferenças no genoma de idosos do Brasil em relação aos bancos de referência internacionais.
Além disso, o artigo menciona estudos que encontraram milhões de variantes genéticas ainda não descritas em brasileiros e diferenças entre o genoma de idosos do país e os bancos de referência internacionais. Embora não tenham investigado especificamente pessoas com mais de 110 anos, esses resultados reforçam a importância de incluir a população brasileira nas pesquisas sobre genética e envelhecimento.
Para a equipe da geneticista Mayana Zatz, da USP, o ambiente responde por cerca de 80% dos fatores relacionados ao envelhecimento saudável até os 90 anos, enquanto a genética representa os outros 20%.
Essa estimativa considera aspectos como alimentação, atividade física, excesso de peso e estresse, além das condições de vida e do acesso à saúde. Segundo Zatz, porém, a influência dos genes aumenta entre os que chegam aos 90 e, sobretudo, aos 100 anos.
A divisão entre genética e ambiente não é consenso definitivo na ciência. Um estudo publicado na revista Science em janeiro de 2026, chamado Heritability of intrinsic human life span is about 50% when confounding factors are addressed, estimou que a genética pode responder por mais de 50% das diferenças na longevidade quando os pesquisadores isolam mortes causadas por fatores externos, como acidentes e infecções.
O resultado não contradiz diretamente a estimativa da USP, pois os trabalhos analisam aspectos diferentes. Enquanto um trata do envelhecimento saudável, o outro calcula a influência genética sobre a duração da vida.
Assim, é possível entender que hábitos e condições de vida continuam importantes para a saúde, enquanto a genética pode ajudar a explicar por que algumas pessoas chegam a idades excepcionais. Entender essa relação é um dos objetivos das pesquisas com centenários e supercentenários.
Estudar pessoas que ultrapassaram os 110 anos é um desafio para a ciência, já que poucos chegam a essa idade e, por isso, as amostras disponíveis são pequenas. Além disso, encontrar características comuns entre esses indivíduos não significa que elas sejam responsáveis pela longevidade, pois é preciso investigar se esses fatores realmente contribuíram para que vivessem mais.
A comprovação da idade também é fundamental. No Brasil e em outros países, há relatos de pessoas com mais de 110 anos cuja documentação não permite confirmar a data de nascimento.
Assim, para validar esses casos, organizações como a LongeviQuest e o Gerontology Research Group analisam registros civis, documentos religiosos e informações familiares.
Outro desafio é entender por que algumas pessoas vivem mais e preservam a saúde por mais tempo.
Isso porque, chegar aos 110 anos não significa necessariamente manter a autonomia ou as funções cognitivas, por isso, a equipe da USP também considera aspectos como a lucidez e a independência para realizar atividades cotidianas, o que ajuda a investigar o envelhecimento saudável, além de somente a longevidade.
Para avançar, os pesquisadores brasileiros continuam coletando amostras e analisando o material genético e as células dos participantes.
O trabalho inclui investigações sobre a expressão dos genes, os mecanismos que regulam sua atividade e outros processos celulares ligados ao envelhecimento, com o objetivo de compreender melhor como algumas pessoas conseguem preservar determinadas funções em idades tão avançadas.
A pesquisa sobre supercentenários ainda não oferece um teste capaz de prever a longevidade individual ou uma intervenção comprovada para levar uma pessoa aos 110 anos. Seu valor está em investigar por que algumas pessoas parecem resistir por mais tempo a doenças e perdas funcionais associadas à idade.
Para quem está na meia-idade, as evidências sobre prevenção continuam mais úteis do que tentar reproduzir características genéticas de pessoas muito longevas. Atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado, acompanhamento médico e controle de fatores de risco são medidas associadas à saúde ao longo da vida. Elas não garantem longevidade extrema, mas ajudam a reduzir riscos conhecidos.
A pesquisa genética pode, no futuro, contribuir para identificar mecanismos biológicos que inspirem novas estratégias de prevenção e tratamento. Por enquanto, os achados dos pesquisadores são pistas sobre como o organismo pode manter determinadas funções por mais tempo.
O Projeto DNA Longevo, do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, está recrutando voluntários com 100 anos ou mais. A equipe também aceita pessoas a partir dos 95 anos, desde que atendam aos critérios de saúde e independência funcional definidos pela pesquisa. Interessados ou familiares que queiram indicar participantes podem entrar em contato pelo e-mail dnalongevo@usp.br ou pelo WhatsApp (11) 3091-7736, exclusivo para mensagens.