Ciência

Dentes antigos revelam que humanos já usavam drogas há 25 mil anos

Pesquisadores encontraram arecolina e desgaste dentário incomum em restos de antigos caçadores-coletores da Indonésia

Dentes: desgaste incomum e vestígios químicos ajudaram pesquisadores a identificar o antigo consumo de noz de betel (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Dentes: desgaste incomum e vestígios químicos ajudaram pesquisadores a identificar o antigo consumo de noz de betel (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 13 de setembro de 2026 às 04h30.

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O uso habitual de substâncias psicoativas pode ser muito mais antigo do que se imaginava. Dentes de caçadores-coletores que viveram na atual Indonésia indicam que humanos consumiam noz de betel há até 25 mil anos, ainda antes do surgimento da agricultura.

A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Griffith, na Austrália, em parceria com cientistas indonésios. O estudo foi publicado na última quarta-feira, 9, na revista científica Science Advances.

Nos dentes, os pesquisadores encontraram um padrão incomum de desgaste e vestígios de arecolina, principal composto neuroativo presente na noz de betel.

A combinação das evidências indica que os indivíduos provavelmente chupavam repetidamente as sementes. Segundo os autores, a descoberta pode representar a evidência mais antiga conhecida do uso habitual de uma droga vegetal neuroativa.

O que é a noz de betel?

A chamada noz de betel é a semente da palmeira Areca catechu. Seu consumo pode provocar efeitos como leve euforia e aumento do estado de alerta. Atualmente, ela costuma ser preparada com cal hidratada e outros ingredientes antes de ser mastigada. A combinação favorece a liberação dos compostos psicoativos e sua absorção pelo organismo.

Segundo os pesquisadores, a noz de betel é hoje uma das substâncias psicoativas mais consumidas no mundo, atrás de álcool, cafeína e nicotina.

Determinar quando esse hábito começou, porém, é difícil. As sementes de areca raramente permanecem preservadas por milhares de anos em sítios arqueológicos.

Dentes preservaram sinais do consumo

Para investigar a origem da prática, os pesquisadores analisaram restos de dois antigos caçadores-coletores encontrados em Sulawesi, na Indonésia. Um dos indivíduos viveu entre aproximadamente 25 mil e 16 mil anos atrás. O outro foi datado entre 7.600 e 6.300 anos atrás.

Ambos apresentavam sulcos profundos e arredondados nos dentes, um padrão de desgaste que os pesquisadores relacionaram à sucção repetida de nozes de betel inteiras.

No entanto, as análises bioquímicas forneceram outra pista. A equipe detectou arecolina nos tecidos dentários dos indivíduos, reforçando a evidência de que haviam consumido a planta.

Os cientistas também fizeram experimentos com nozes de betel mergulhadas em saliva artificial. Os resultados indicaram que apenas chupar as sementes intactas poderia liberar arecolina em quantidade suficiente para produzir efeitos fisiológicos.

Foto. Divulgação/Fakhri

Foto. Divulgação/Fakhri (Fakhri)

Hábito pode ter começado para aliviar dor

Os pesquisadores levantam ainda uma hipótese para explicar parte do consumo. A arecolina também apresenta efeito analgésico. Por isso, algumas pessoas poderiam inicialmente ter recorrido às sementes para tentar aliviar dores de dente.

A hipótese, no entanto, não foi comprovada e é apresentada pelos pesquisadores como uma possível explicação para o comportamento.

Com o uso prolongado, as sementes duras e abrasivas provocavam intenso desgaste dentário. Em alguns casos, a deterioração chegou a deixar a polpa dos dentes exposta. Esse processo poderia causar dor, dificuldades para comer e aumentar a ocorrência de infecções dentárias crônicas.

Uso de substâncias psicoativas pode ser anterior à agricultura

A descoberta também questiona a ideia de que tradições de consumo habitual de substâncias psicoativas tenham surgido principalmente após o desenvolvimento da agricultura no período Neolítico. Entre as evidências arqueológicas anteriores estão bebidas alcoólicas fermentadas produzidas há cerca de 13 mil anos na região do atual Israel.

Os dentes encontrados em Sulawesi apontam para uma prática ainda mais antiga, durante o Pleistoceno Superior. Segundo os autores, o hábito de chupar noz de betel pode remontar a 25 mil anos e representar a evidência mais antiga registrada até agora de uso habitual de uma droga vegetal neuroativa.

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