Gatos: lamber a si e aos outros pode ter vários significados entre os bichinhos (Alexandra Jursova/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 10h26.
Última atualização em 19 de janeiro de 2026 às 10h30.
Os donos de gatinhos frequentemente se perguntam sobre o que significam diferentes comportamentos dos animais. Um deles é as lambidas que os gatos podem dar, com suas línguas ásperas, no tutor, já que os felinos não são exatamente conhecidos por seus "lambeijos", como é o caso dos cachorros.
Para alguns, o gesto soa como demonstração de afeto. Para outros, é apenas estranho. Mas a ciência tem a resposta.
Gatos se limpam por meio da lambedura. O hábito também está diretamente ligado à forma como os gatos aprendem a se relacionar desde filhotes.
“Quando uma mãe lambe seus bebês, isso cumpre duas funções importantes: mantê-los limpos e promover vínculos sociais”, explica Kristyn Vitale, especialista em comportamento animal da Maueyes Cat Science and Education, em entrevista à Popular Science.
Vitale destaca que a lambida materna é uma das primeiras interações sociais que um filhote de gato experimenta. “É essencialmente uma forma de a mãe dizer: ‘eu te amo e cuido de você’”, afirma. Além da higiene, o gesto ajuda a fortalecer a ligação emocional entre mãe e filhote.
À medida que crescem, os gatos aprendem a se limpar sozinhos geralmente a partir da quarta semana de vida. Com a nova habilidade, alguns passam a retribuir o cuidado recebido, lambendo irmãos, outros gatos da casa e, em certos casos, humanos.
Seres humanos têm hábitos semelhantes, como quando crianças penteiam o cabelo umas das outras para demonstrar afeto, pois aprenderam com seus pais que isso é uma forma de cuidar de alguém.
“Gatos que se lambem mutuamente costumam ser chamados de ‘associados preferidos’. É um comportamento social importante para reforçar laços”, diz Vitale.
Esse padrão não é exclusivo dos gatos domésticos. Felinos selvagens também apresentam comportamentos semelhantes.
“Vemos mães lambendo seus filhotes para mantê-los limpos e fortalecer a conexão”, afirma Vitale. A diferença, segundo ela, é que muitas espécies selvagens não vivem em grupos sociais tão estruturados quanto os gatos domésticos, o que reduz as oportunidades de interação desse tipo.
Mas por que, afinal, alguns gatos transferem esse comportamento de lambedura para humanos?
De acordo com Vitale, quando um gato lambe seu tutor, ele pode estar simplesmente estendendo um comportamento social aprendido para alguém que considera parte do seu círculo de confiança.
“Quando meu gato me lambe, eu vejo isso como ele se engajando em um comportamento social comigo, fortalecendo nossa relação”, relata. “Na minha cabeça, eles estão de bom humor e querem interagir.”
Isso não significa, porém, que todos os gatos façam o mesmo, ou que a ausência de lambidas seja sinal de frieza. “Lamber é apenas um dos comportamentos sociais possíveis”, ressalta Vitale. “Se o gato senta no seu colo, fica por perto, se esfrega em você ou brinca, tudo isso também demonstra vínculo.”
O comportamento pode ter motivações menos românticas.
Para o psicólogo animal David Sands, doutor em etologia pela Universidade de Liverpool, uma das hipóteses é a chamada “teoria da confiança”.
“Esse tipo de lambida é semelhante a um comportamento entre gatos conhecido como alogrooming, ou higiene mútua”, explica Sands. “Gatos adultos só lambem outros gatos em quem confiam e que não veem como competição. Esse comportamento pode ser transferido para humanos.”
Sands pondera, no entanto, que isso não deve ser interpretado como uma grande demonstração de amor. “Não é um sinal positivo de apego. É apenas um sinal de que você não é visto como uma ameaça”, diz.
Outras teorias incluem o interesse químico: gatos têm paladar extremamente sensível e podem estar investigando odores na pele humana, como sal, cosméticos ou restos de comida. “Lamber permite que eles coletem informações químicas”, afirma Sands.
Há ainda a chamada “teoria da posse”.
“Gatos são verdadeiras máquinas de cheiro”, diz o especialista. “Quando eles lambem ou se esfregam em pessoas, muitas vezes estão removendo outros odores e substituindo pelo próprio. É uma forma de marcar território.” Segundo Sands, esse comportamento está ligado à natureza territorial dos felinos. “É como se dissessem: ‘isso é meu’.”
Apesar das interpretações divergentes, pesquisas indicam que os gatos criam, sim, vínculos emocionais com humanos.
Um estudo publicado em 2019 por Kristyn Vitale mostrou que gatos desenvolvem padrões de apego semelhantes aos dos cães. Em ambientes desconhecidos, animais com “apego seguro” apresentaram menos sinais de estresse quando seus tutores estavam presentes.
“Nossos resultados indicam que, quando os gatos vivem em estado de dependência de um humano, esse comportamento de apego é flexível, e a maioria usa os humanos como fonte de conforto”, escreveu Vitale no estudo.
Em resumo: se o seu gato te lambe, pode ser carinho, confiança, curiosidade química ou até posse. Se não lambe, tudo bem também. Como lembra Vitale, “os gatos demonstram amor de muitas formas diferentes — a lambida é apenas uma delas”.