Ciência

Como o Tetris pode ser usado contra traumas

Técnica digital testada em profissionais de saúde durante a pandemia foi descrita na The Lancet Psychiatry e mira memórias intrusivas do TEPT

Tetris: estudo destaca 70% de ausência de memórias intrusivas, contra 20% no grupo com terapia convencional (Arquivo Pessoal/Divulgação)

Tetris: estudo destaca 70% de ausência de memórias intrusivas, contra 20% no grupo com terapia convencional (Arquivo Pessoal/Divulgação)

Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 11h07.

O tratamento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ganhou uma nova possibilidade de tratamento com o uso terapêutico do videogame Tetris.

Pesquisas publicadas na revista The Lancet Psychiatry apontam que uma técnica baseada em tarefas visuais pode reduzir flashbacks e memórias intrusivas, sintomas comuns em pessoas que vivenciam traumas e têm dificuldade de melhora com abordagens tradicionais.

O estudo avaliou uma intervenção digital aplicada em 99 profissionais de saúde que foram expostos a situações traumáticas durante a pandemia de Covid-19.

Os resultados indicaram que a estratégia demandou menos tempo de acompanhamento profissional do que protocolos convencionais e apresentou redução significativa de lembranças involuntárias ao longo das semanas.

A proposta faz parte de pesquisas que investigam a neuroplasticidade, termo usado para descrever a capacidade do cérebro de reorganizar conexões e padrões de resposta.

A lógica do método é utilizar estímulos visuais para competir com imagens traumáticas no processamento cerebral, reduzindo a frequência com que elas retornam de forma involuntária no dia a dia.

Como funciona a terapia com Tetris para TEPT

O protocolo testado é chamado de Intervenção de Tarefas Competitivas com Imagens (ICTI, na sigla em inglês). Ele envolve mais do que apenas jogar: os participantes primeiro eram orientados a relembrar brevemente uma memória intrusiva que vinha causando sofrimento.

Em seguida, recebiam instruções sobre a habilidade de rotação mental, isto é, visualizar e mover objetos mentalmente.

Depois dessa etapa, os participantes jogavam uma versão adaptada e mais lenta do Tetris, por cerca de 20 minutos, manipulando blocos geométricos para formar linhas.

A hipótese é que a tarefa ocupe recursos do cérebro ligados ao processamento visual e espacial, reduzindo a capacidade de manter o flashback com força e nitidez.

Resultados do estudo

O estudo comparou os resultados da intervenção baseada em Tetris com dois outros grupos: um recebeu o tratamento padrão para TEPT e o outro participou de uma terapia alternativa que envolvia ouvir uma peça de Mozart.

Após quatro semanas, os participantes do grupo do Tetris já apresentavam uma redução maior no número de memórias intrusivas em comparação aos outros grupos.

No acompanhamento de 24 semanas, 70% dos participantes que fizeram a intervenção baseada em Tetris relataram não ter mais memórias intrusivas. No grupo submetido ao tratamento padrão, o índice foi de 20%. Já entre os participantes da intervenção com música, o percentual foi de 13%.

Por que o Tetris pode reduzir flashbacks e memórias intrusivas?

Uma das teorias discutidas pelos pesquisadores é que o Tetris ativa áreas cerebrais envolvidas no processamento de imagens, que também participam dos flashbacks traumáticos.

Quando o cérebro está ocupado com uma tarefa visual e espacial, ele teria menos capacidade de sustentar a lembrança em forma de imagem intrusiva.

Com o tempo, esse mecanismo pode tornar a memória traumática mais manejável e reduzir o impacto no cotidiano, sobretudo em situações em que o paciente relata que as lembranças surgem sem controle e interferem em foco, sono e rotina.

Limitações do estudo e próximos passos da terapia digital

Apesar dos resultados, os cientistas apontam limitações importantes. Uma delas é o risco de viés, já que os participantes poderiam ter se inscrito por iniciativa própria, o que pode influenciar o perfil da amostra e a resposta ao tratamento.

O estudo também reforça que a intervenção precisa ser testada em ensaios maiores, com diferentes grupos da população, outros tipos de trauma e acompanhamento mais longo em condições próximas do “mundo real”.

Ainda assim, os pesquisadores destacam que a técnica chama atenção por ser breve, prática e de baixo custo, além de ter uma característica considerada relevante: ela não exige que o paciente verbalize o trauma em detalhes, o que pode facilitar a adesão em alguns perfis.

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