Ciência

Como no Brasil? Cápsula com Césio 137 desaparece na Argentina

As investigações buscam determinar o momento do desaparecimento e identificar quem teve acesso ao material

A principal preocupação das autoridades é a possibilidade de o objeto ser encontrado e manipulado por pessoas que desconheçam seu conteúdo (Imagem gerada por IA/EXAME)

A principal preocupação das autoridades é a possibilidade de o objeto ser encontrado e manipulado por pessoas que desconheçam seu conteúdo (Imagem gerada por IA/EXAME)

Luiz Anversa
Luiz Anversa

Repórter

Publicado em 18 de junho de 2026 às 20h28.

Autoridades argentinas estão investigando o desaparecimento de uma cápsula contendo Césio 137 de um instituto médico em Rosário, na província de Santa Fé. O caso foi identificado na terça-feira e motivou a emissão de um alerta nacional devido ao caráter radioativo do material, utilizado na calibração de equipamentos de medicina nuclear. As informações são do La Nación.

De acordo com a denúncia apresentada às forças de segurança, a fonte radioativa estava armazenada em uma instalação na rua Rioja, na região central da cidade. O material ficava dentro de um recipiente blindado com chumbo, desenvolvido para impedir a liberação de radiação no ambiente. A Autoridade Regulatória Nuclear (ARN) informou que a fonte era empregada na verificação do funcionamento de equipamentos médicos especializados.

“Embora o risco radiológico seja muito baixo, caso a encontre, não a toque nem a manipule”, informou a ARN em comunicado.

O desaparecimento foi constatado quando técnicos tentaram acessar a cápsula para realizar procedimentos de calibração em um dos aparelhos do centro médico. Ao chegarem ao local onde o material deveria estar guardado, verificaram que ele não estava mais lá. A última utilização registrada ocorreu alguns dias antes da constatação do furto.

A ARN informou que a fonte subtraída consiste em um gel com Césio 137, acondicionado em um recipiente plástico transparente e mantido dentro de blindagem de chumbo. Após ser notificada, a agência ativou o Sistema de Intervenção em Emergências Radiológicas (SIER) e comunicou a Agência Federal de Emergências (AFE), além da Divisão de Risco Radiológico e Nuclear da Polícia Federal Argentina. O alerta foi posteriormente repassado às autoridades locais de Rosário.

Mistério do Césio 137

As investigações buscam determinar o momento do desaparecimento e identificar quem teve acesso ao material. Segundo informações divulgadas pela imprensa argentina, apenas quatro pessoas estavam autorizadas a entrar na área onde a cápsula era mantida. Os investigadores analisam registros internos do instituto, movimentações no laboratório e eventuais imagens de câmeras de segurança.

Uma das hipóteses consideradas é a existência de falhas nos controles internos do estabelecimento. Também não está descartada a possibilidade de retirada do dispositivo sem autorização por alguém com acesso ao local.

O que é o Césio 137

O Césio 137 é um isótopo radioativo utilizado há décadas em aplicações científicas, industriais e médicas. Além de calibração de instrumentos de medicina nuclear, já foi empregado em tratamentos de radioterapia. A substância emite radiação beta e gama, o que exige protocolos rigorosos de armazenamento, transporte e manuseio.

Especialistas afirmam que o risco para a população é muito baixo enquanto a cápsula permanecer intacta dentro da blindagem. A principal preocupação das autoridades é a possibilidade de o objeto ser encontrado e manipulado por pessoas que desconheçam seu conteúdo.

Caso a proteção seja removida ou danificada, a exposição prolongada à radiação pode causar queimaduras, danos a órgãos internos, alterações na medula óssea e aumento do risco de câncer no longo prazo.

Relembre o acidente com césio 137 em Goiânia

O desastre teve início em 13 de setembro de 1987. Dois catadores de recicláveis foram até o Instituto Goiano de Radioterapia, que estava desativado havia dois anos. Lá eles encontraram um cabeçote de chumbo de uma máquina de tratamento de câncer. Ao tentarem abrir o cabeçote com marretas, romperam a cápsula protetora e expuseram o cloreto de césio-137.

O material foi vendido para o dono de um ferro-velho, Devair Ferreira, que se encantou com o brilho azul intenso do pó no escuro. Sem saber do perigo, ele distribuiu fragmentos para familiares e amigos. A criança Leide das Neves, sobrinha dele, chegou a ingerir partículas durante uma refeição.

O césio 137 ficou por vários dias espalhado nas casas de diversas pessoas. Após apresentar sintomas típicos da contaminação por radiação, como vômitos, tonturas e diarreia coletiva, a esposa de Devair, Maria Gabriela, suspeitou do objeto. Ela colocou a cápsula em uma sacola e a levou de ônibus até a Vigilância Sanitária. Foi a percepção deela que interrompeu a cadeia de contaminação, embora ela mesma tenha se tornado uma das vítimas fatais.

Oficialmente, quatro pessoas morreram nos dias seguintes à exposição aguda, incluindo a pequena Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, que se tornou o símbolo da tragédia. Eles foram enterrados em caixões de chumbo e as famílias foram linchadas pela população local, desinformada.

A associação de vítimas do césio 137 estima que o número total de mortes relacionadas a sequelas e cânceres ao longo dos anos chegue a 66, com mais de 1.400 pessoas contaminadas em diferentes níveis.

A operação de descontaminação foi uma das maiores do mundo. Cerca de 6 mil toneladas de rejeitos — incluindo roupas, utensílios, solo e casas inteiras demolidas — foram recolhidas.

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