Exoplaneta: candidato orbita uma anã branca localizada a cerca de 270 anos-luz da Terra (Freepik)
Redatora
Publicado em 12 de outubro de 2026 às 04h30.
Um possível planeta formado a partir dos restos de uma estrela morta pode representar uma classe de mundos nunca observada anteriormente ao redor de anãs brancas. O candidato está a cerca de 270 anos-luz da Terra e pode ter surgido depois que sua estrela chegou ao fim da vida.
As evidências foram encontradas ao redor da HS 0209+0832, uma anã branca analisada com dados do Telescópio Espacial Hubble e de outros instrumentos. Segundo os pesquisadores, o possível gigante gasoso pode ter se formado com material expelido pela própria estrela durante sua transformação.
O estudo foi publicado na revista científica Nature Astronomy. Apesar dos indícios, os cientistas ressaltam que a existência do planeta ainda não foi confirmada.
Estrelas semelhantes ao Sol passam por profundas transformações quando chegam ao fim da vida. Primeiro, expandem-se e entram na fase de gigante vermelha. Depois, perdem suas camadas externas e deixam um núcleo pequeno, denso e quente conhecido como anã branca.
Planetas formados junto com a estrela podem sobreviver a esse processo quando estão em órbitas suficientemente distantes.
O caso de HS 0209+0832 pode ser diferente. Os pesquisadores encontraram indícios de um mundo que teria surgido posteriormente, a partir dos próprios detritos deixados pela estrela. Isso faria dele um planeta de "segunda geração".
Uma das principais evidências veio da composição química da anã branca. Os astrônomos identificaram quantidades incomuns de elementos pesados em sua superfície, incluindo nióbio. Segundo Jamie Williams, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade de Warwick, foi a primeira vez que esse elemento foi encontrado em uma anã branca.
Elementos pesados deveriam afundar rapidamente no interior desse tipo de estrela. Por isso, a presença do nióbio na superfície indica que o material provavelmente está chegando de algum objeto próximo.
A hipótese dos pesquisadores é que a intensa radiação ultravioleta emitida pela anã branca esteja removendo parte da atmosfera de um planeta próximo. Esse material acabaria depositado sobre a estrela.
Outra evidência surgiu em observações do Satélite de Pesquisa de Exoplanetas em Trânsito (TESS), da Nasa. Os cientistas identificaram uma pequena variação de brilho que se repete a cada 4,4 dias. O comportamento é compatível com a possível presença de um planeta gigante orbitando a anã branca.
Ainda assim, os próprios autores pedem cautela. “Não é um planeta confirmado”, afirmou Williams. Segundo o pesquisador, o objeto permanece classificado como candidato enquanto novas observações são realizadas.
A formação de um mundo depois da morte de uma estrela ainda envolve muitas incertezas. Uma das possibilidades consideradas pela equipe envolve a interação da estrela com outro objeto, como uma estrela menor ou uma anã marrom.
Durante a fase de gigante vermelha, esse segundo corpo poderia ter caído em direção à estrela e impedido que todo o gás e a poeira fossem dispersos.
Parte desse material teria permanecido em um disco ao redor da futura anã branca. Com o tempo, os detritos poderiam ter se agrupado e dado origem a um novo planeta. Os pesquisadores ainda não sabem se esse foi realmente o processo ocorrido em HS 0209+0832.
A equipe pretende realizar novas observações do sistema com o Hubble e o Observatório de Raios X Chandra. Os pesquisadores também solicitaram tempo de observação com o Telescópio Espacial James Webb.
Os novos dados poderão ajudar a determinar se o planeta realmente existe e revelar características do possível mundo. Caso seja confirmado, o objeto representaria uma nova classe planetária e mostraria que sistemas ao redor de anãs brancas podem não apenas sobreviver à morte de suas estrelas, mas também produzir novos mundos.
A descoberta teria ainda uma implicação para o futuro do nosso próprio sistema. O Sol deverá terminar sua evolução como uma anã branca. Se planetas de "segunda geração" realmente puderem surgir nessas condições, novos mundos também poderiam, em princípio, formar-se a partir dos restos deixados pelo Sol.