Ciência

DNA em pinturas rupestres pode revelar quem pintou as primeiras obras da humanidade

Material genético preservado nas paredes pode ajudar cientistas a identificar artistas pré-históricos e investigar os neandertais

Arte rupestre: paredes preservaram DNA humano por milhares de anos (ABAMIA ARKEOS-ALBERTO MARTÍNEZ VILLA)

Arte rupestre: paredes preservaram DNA humano por milhares de anos (ABAMIA ARKEOS-ALBERTO MARTÍNEZ VILLA)

Publicado em 29 de junho de 2026 às 19h31.

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Pesquisadores identificaram, pela primeira vez, DNA humano antigo em pinturas rupestres e nas paredes de cavernas pré-históricas, uma descoberta que pode transformar os estudos sobre a origem da arte e os povos que habitaram a Europa há milhares de anos.

Além de revelar uma nova fonte de material genético, o trabalho abre a possibilidade de, no futuro, identificar quem produziu determinadas pinturas e investigar se os neandertais também foram autores de arte rupestre.

A pesquisa faz parte do projeto First Art e foi divulgada pela revista New Scientist na última sexta-feira, 26. Os resultados mostram que as paredes das cavernas podem preservar vestígios genéticos por milhares de anos, criando uma nova fonte de informações sobre os grupos humanos que frequentaram esses ambientes.

A descoberta que surpreendeu os pesquisadores

Entre 2022 e 2025, os pesquisadores coletaram amostras em 11 cavernas da Espanha e de Portugal que preservam pinturas rupestres. O trabalho incluiu a retirada de pequenas quantidades de pigmento e de calcita, mineral que se forma naturalmente sobre as paredes.

O DNA humano antigo foi identificado em marcas vermelhas da Gruta do Escoural, em Portugal, além de áreas da caverna sem pinturas. Segundo os pesquisadores, essa segunda descoberta foi inesperada e indica que pessoas pré-históricas deixaram material genético ao tocar as paredes, ampliando o potencial de estudo desses ambientes mesmo quando não há arte rupestre.

O maior desafio da descoberta

Os cientistas destacam que o DNA encontrado na pintura não pode ser atribuído diretamente ao artista. Segundo Alba Bossoms Mesa, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, o material genético pode ter pertencido a alguém que criou a pintura, mas também pode ter sido deixado por uma pessoa que tocou a parede posteriormente ou até por alguém que espirrou próximo ao local.

Mesmo assim, a descoberta demonstra que esse tipo de material pode permanecer preservado por milhares de anos e abre uma nova possibilidade para futuras pesquisas.

Além disso, os pesquisadores também analisaram o DNA encontrado nas paredes da Gruta do Escoural. As amostras indicam que três indivíduos eram predominantemente do sexo feminino e um, do sexo masculino.

O perfil genético apresentou maior semelhança com os chamados caçadores-coletores ocidentais, população que viveu entre aproximadamente 17 mil e 5.200 anos atrás.

Como a caverna foi selada entre 4 mil e 5 mil anos atrás, os cientistas concluem que o DNA provavelmente é mais antigo do que esse período.

Descoberta pode ajudar a investigar os neandertais

A equipe já iniciou novas coletas em outras cavernas da Península Ibérica, incluindo sítios arqueológicos onde parte das pinturas foi atribuída aos neandertais, hipótese que ainda é debatida entre especialistas.

Segundo os pesquisadores, se novas amostras preservarem DNA suficiente, poderá ser possível investigar quem produziu essas pinturas e compreender melhor a origem da arte rupestre.

Apesar do potencial, o estudo também mostrou que a preservação do DNA é rara. Entre os 24 painéis analisados, apenas um continha material genético humano, indicando que essa forma de preservação parece ser uma exceção e que novas técnicas serão necessárias para ampliar a recuperação dessas evidências.

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