Cicatrização: tratamento experimental melhorou a recuperação de feridas na pele de camundongos idosos (Freepik)
Redatora
Publicado em 26 de setembro de 2026 às 06h00.
Um medicamento experimental capaz de eliminar células envelhecidas ajudou feridas na pele de camundongos idosos a cicatrizar mais rapidamente. Após cinco dias de tratamento, os animais apresentaram menos sinais de envelhecimento celular e uma resposta mais eficiente a lesões.
De acordo o estudo publicado na revista científica Aging, no 24º dia após os ferimentos, 80% dos camundongos tratados apresentavam cicatrização completa, contra 56% entre os animais idosos que não receberam o medicamento.
Chamado ABT-263, o composto foi aplicado diretamente na pele antes das lesões. O estudo sugere que eliminar determinadas células acumuladas com a idade pode melhorar a capacidade de reparação da pele.
Uma das explicações para feridas demorarem mais para cicatrizar com o avanço da idade está relacionada às chamadas células senescentes. Essas células sofreram danos ou estresse e pararam permanentemente de se dividir, mas continuam vivas.
Com o tempo, podem se acumular nos tecidos e liberar substâncias capazes de afetar as células ao redor. Esse processo está associado à inflamação crônica e pode prejudicar a reparação normal dos tecidos.
O ABT-263 pertence a uma classe experimental de medicamentos conhecida como senolíticos. Eles são desenvolvidos para eliminar seletivamente células senescentes, preservando em grande parte as células mais saudáveis.
Os pesquisadores queriam descobrir se aplicar esse tipo de tratamento diretamente na pele envelhecida poderia melhorar sua capacidade de recuperação.
Para a análise, os cientistas aplicaram o ABT-263 na pele de camundongos idosos durante cinco dias. Depois desse período, observaram uma redução dos sinais de senescência celular. Em seguida, produziram pequenos ferimentos e acompanharam o processo de cicatrização.
A diferença apareceu ao longo das semanas. No 24º dia, oito em cada dez animais tratados estavam com as feridas completamente cicatrizadas. No grupo sem tratamento, pouco mais da metade havia alcançado o mesmo resultado.
Os dados sugerem que remover células senescentes antes de uma lesão pode deixar a pele envelhecida mais preparada para iniciar o processo de reparação.Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores. O tratamento provocou um aumento temporário da atividade inflamatória na pele. Embora uma inflamação prolongada possa prejudicar a cicatrização, uma resposta controlada faz parte das primeiras etapas naturais de reparação de uma ferida.
Nesse caso, o aumento temporário parece ter contribuído para ativar mecanismos envolvidos na recuperação do tecido. O medicamento também elevou a atividade de genes relacionados à produção de colágeno e à formação de novos vasos sanguíneos.
O colágeno ajuda a dar estrutura e sustentação à pele. Já novos vasos permitem levar oxigênio e nutrientes aos tecidos durante sua reconstrução.
O efeito sobre as células senescentes foi observado nos camundongos idosos, mas não ocorreu da mesma maneira nos animais jovens. Uma possível explicação é que tecidos envelhecidos acumulam uma quantidade maior dessas células, oferecendo mais alvos para o medicamento.
Outro aspecto estudado foi a forma de aplicação. Em vez de administrar o ABT-263 por via oral, os cientistas aplicaram o composto diretamente sobre a pele.
A aplicação local pode limitar a exposição de outras partes do organismo ao medicamento, embora os possíveis benefícios e riscos dessa estratégia ainda precisem ser investigados.
Os resultados levantam a possibilidade de que terapias senolíticas tópicas sejam estudadas futuramente para feridas de difícil cicatrização em idosos, incluindo aquelas relacionadas a cirurgias ou problemas crônicos de saúde. Isso ainda não significa, porém, que o ABT-263 possa ser utilizado para essa finalidade.
O experimento foi realizado em camundongos, e os pesquisadores afirmam que ainda precisam determinar se a aplicação tópica é segura em seres humanos e se os efeitos observados nos animais também ocorreriam em pessoas.