CosmoCube: espaçonave do tamanho de uma mala deverá entrar em órbita da Lua (Imagem gerada por IA/EXAME)
Redatora
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 17h17.
Um satélite do tamanho de uma pequena mala poderá ajudar cientistas a investigar um período do Universo que nunca foi observado diretamente. Chamado CosmoCube, o equipamento buscará sinais emitidos há mais de 13,5 bilhões de anos, antes do surgimento das primeiras estrelas.
A missão é liderada pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e pretende colocar a espaçonave em órbita da Lua. O objetivo é aproveitar o lado oculto do satélite natural como uma barreira contra as interferências de rádio produzidas na Terra.
Os detalhes do projeto foram publicados na revista científica Nature Astronomy. A expectativa dos pesquisadores é que o lançamento possa ocorrer nos próximos cinco anos. A missão recebeu financiamento da Agência Espacial do Reino Unido e foi proposta com custo inferior a 50 milhões de euros.
O alvo é um sinal conhecido como linha de 21 centímetros, produzido por átomos de hidrogênio presentes no Universo primitivo. Ele remonta ao período entre o brilho residual do Big Bang e o chamado amanhecer cósmico, quando as primeiras estrelas começaram a surgir.
Detectar esse sinal pode fornecer informações sobre aproximadamente 150 milhões de anos de história cósmica anteriores ao nascimento das primeiras estrelas. O problema é que as frequências necessárias para observá-lo são difíceis de captar a partir da Terra.
A ionosfera impede que parte dessas ondas de rádio alcance os observatórios terrestres. Transmissões de FM, satélites e sistemas de telecomunicação também produzem interferências capazes de encobrir o sinal.
A própria Lua funcionará como um escudo natural contra o ruído de rádio terrestre. A cada órbita de aproximadamente duas horas, o CosmoCube ficará cerca de 40 minutos atrás da Lua. Nesse intervalo, o corpo lunar ficará entre a espaçonave e a Terra, reduzindo as interferências.
Durante os dois anos previstos para a missão, a equipe espera acumular aproximadamente 1.000 horas de observações. O satélite observará frequências entre 10 e 50 MHz, faixa em grande parte inacessível aos telescópios instalados na superfície terrestre.
Depois de entrar em órbita lunar, o equipamento também implantará uma antena de rádio destinada a captar o sinal do hidrogênio primordial.
As observações também poderão ajudar os pesquisadores a investigar a matéria escura e sua influência sobre a formação das primeiras estruturas do Universo.
A matéria escura não pode ser observada diretamente, mas seus efeitos gravitacionais são importantes para explicar a formação e a organização de grandes estruturas cósmicas.
Segundo Eloy de Lera Acedo, professor do Laboratório Cavendish da Universidade de Cambridge e principal autor do trabalho, estudar a emissão do hidrogênio anterior às primeiras estrelas poderá fornecer pistas sobre como a matéria escura contribuiu para reunir esse gás e formar as primeiras estrelas e galáxias.
Captar um sinal tão fraco exige que os pesquisadores controlem até as interferências produzidas pelos próprios componentes eletrônicos da espaçonave.
Para isso, o CosmoCube monitorará e ajustará continuamente seus equipamentos. O sistema alternará observações do céu com medições de fontes internas de referência para identificar ruídos que poderiam ser confundidos com o sinal cósmico.
Os dados enviados à Terra passarão ainda por técnicas estatísticas para separar a emissão procurada de outras fontes de rádio, incluindo aquelas produzidas pela própria Via Láctea. O projeto já possui protótipos funcionais de laboratório e passa por testes ambientais.
Se conseguir detectar o sinal, o CosmoCube poderá abrir uma nova janela de observação para um dos períodos menos conhecidos da história do Universo.