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Ouvir em silêncio virou o novo luxo dentro de casa

Em vez da sala de TV, casas de alto padrão em Nova York, Londres e Paris ganham cômodos dedicados só ao som

Sala de audição da Collector's House, em Chelsea Barracks, com coleção de vinis e painéis revestidos de tecido. A casa está à venda por £ 45 milhões, cerca de R$ 312,8 milhões (Reprodução/Financial Times)

Sala de audição da Collector's House, em Chelsea Barracks, com coleção de vinis e painéis revestidos de tecido. A casa está à venda por £ 45 milhões, cerca de R$ 312,8 milhões (Reprodução/Financial Times)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 20 de setembro de 2026 às 11h00.

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Depois de anos com projetos de casa organizados em torno de telas, cinema em casa, home office, automação, um movimento inverso vem ganhando força no design residencial de alto padrão. Cresce o número de projetos com um cômodo dedicado exclusivamente a ouvir música, sem tela, sem celular por perto, pensado para reunir um pequeno grupo de pessoas em torno de um sistema de som de altíssima qualidade. O fenômeno aparece em casas em Nova York, Londres, Paris e Viena, e também entrou no radar de incorporadoras que vendem esse tipo de ambiente como diferencial de projeto.

A lógica por trás da tendência é simples. Depois de uma década em que a casa virou extensão do escritório e do entretenimento por streaming, parte dos compradores de alto padrão passou a buscar o oposto, um espaço sem função múltipla, dedicado a uma única coisa. "Elas retomam um desejo nostálgico de voltar ao analógico, longe das telas", disse a designer de interiores Charlotte Taylor ao Financial Times.

Um cômodo pensado desde a planta

Casa no Montana assinada pelo O'Neill Rose Architects, com teto em gesso acústico no formato de uma duna de neve e paredes em madeira de freixo ranhurada (Reprodução/Matthew Millman/Financial Times)

O movimento também mudou a forma como esses ambientes são construídos. Em vez de um sistema de som instalado depois da obra pronta, a acústica passou a entrar no projeto arquitetônico desde o início. É o caso de duas casas assinadas pelo escritório O'Neill Rose Architects, uma delas em Gramercy, em Manhattan, com uma sala de audição no subsolo ao lado da adega de vinhos, equipada com os alto-falantes Ironic, da Oswalds Mill Audio, modelo escultural em ferro fundido do qual só existem dez unidades no mundo.

Na segunda casa, no Montana, o teto da área social tem o formato de uma duna de neve e foi revestido com gesso acústico, solução que evita que o som se concentre no centro do ambiente e volte distorcido. As paredes, em madeira de freixo ranhurada, dispersam as ondas sonoras em vez de rebatê-las de forma plana. Para o arquiteto Devin O'Neill, sócio do escritório, esse tipo de ambiente funciona como uma pausa da rotina digital, um lugar em que a única tarefa é ouvir um álbum do início ao fim.

Da casa para o bairro

Uma das duas salas de audição do duplex projetado pelo estúdio Angel O'Donnell, no empreendimento Powerhouse, em Chelsea Waterfront (Reprodução/Financial Times)

A tendência não fica restrita a projetos residenciais isolados, uma vez que bares de audição no estilo japonês se multiplicaram em cidades como Nova York, Paris e Londres nos últimos anos, reforçando o mesmo movimento em escala comercial. No leste londrino, o designer George Townsin, do escritório Studio George, projetou uma sala com toca-discos e amplificador, com marcenaria sob medida no estilo de caixotes de vinil suspensos sobre alto-falantes JBL de chão. Já o estúdio Angel O'Donnell foi além em um apartamento duplex no empreendimento Powerhouse, em Chelsea Waterfront, e criou não uma, mas duas salas de audição no mesmo imóvel.

Incorporadoras também passaram a usar o argumento nas vendas. A Collector's House, uma casa de cinco andares no bairro de Chelsea Barracks, está à venda por £ 45 milhões, cerca de R$ 312,8 milhões pela cotação atual, e tem entre seus atrativos uma sala de audição com coleção de vinis selecionada e painéis revestidos de tecido. O apelo comercial acompanha um mercado que já vem crescendo há duas décadas. Nos Estados Unidos, as vendas de vinil subiram 17,7% na comparação anual, somando US$ 554 milhões, cerca de R$ 2,85 bilhões, segundo a Recording Industry Association of America. Foi o vigésimo ano seguido de alta para o formato.

O que equipa essas salas

O tipo de equipamento também virou parte do projeto, não só um detalhe técnico escondido em um rack. Os alto-falantes Eternita, do fabricante Olo Audio, custam US$ 12.500, cerca de R$ 64,4 mil, e têm no topo um formato de peão giratório que dispersa os agudos. O amplificador PrimaLuna Evo 400 sai por £ 5.650, em torno de R$ 39,3 mil. A parceria entre Fritz Hansen e Technics, que transformou a toca-discos SL-40 em peça de mobiliário, chega a £ 899, cerca de R$ 6.250. Para guardar a coleção, o armário modular USM Haller, em versão desenvolvida com a Symbol Audio, parte de US$ 1.274, por volta de R$ 6.561.

Charlotte Taylor, a mesma designer que descreveu o movimento como um retorno ao analógico, está com a própria sala de audição em fase final, em um apartamento no 5º arrondissement de Paris, com alto-falantes sob medida e uma estante de livros posicionada para absorver o som. O toca-discos dela está com a agulha quebrada há dois anos, o que a fez conectar as caixas ao iPhone enquanto não conserta o aparelho.

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