Oscar 2026: carta de despedida da Warner? ((Photo by Frazer Harrison/Getty Images)
Repórter de Casual
Publicado em 16 de março de 2026 às 17h04.
Última atualização em 20 de março de 2026 às 09h38.
Los Angeles (Estados Unidos)* - A 98ª edição do Oscar, encerrada no último domingo, 15, foi marcada por dois filmes: Uma Batalha Após a Outra, que levou seis estatuetas — incluindo a de Melhor Filme — e Pecadores, que saiu com quatro prêmios. Curiosamente, ambos são da Warner Bros. Studios, que está prestes mudar de casa.
Comprada pela Paramount por US$ 110 bilhões depois uma briga quase sangrenta com a Netflix, que já havia oferecido U$ 82 bilhões pelo negócio, a Warner não só produziu e distribuiu os dois filmes com maior destaque do Oscar de 2026 como também se sagrou como o estúdio mais premiado da noite. Foram 11 estatuetas em uma premiação que distribuiu 24 prêmios.
A aquisição ainda passará por processo regulamentatório, mas já preocupa a classe artística, a indústria cinematográfica e os exibidores, que temem pela qualidade dos filmes produzidos e a influência de Donald Trump na produção de novos títulos. Sobretudo porque o maior interesse da empresa de David Ellison não era exatamente os estúdios de cinema e sim o controle da CNN. E a família do CEO é uma das grandes aliadas do presidente norte-americano.
Funcionários da Warner ouvidos pela Casual EXAME em Hollywood, que preferiram não se identificar, disseram que já rumores de um grande corte no quadro de funcionários global ainda em 2026 e mudanças na divisão de cinema em Los Angeles dentro dos estúdios.
Colaboradores da Paramount ouvidos pela revista não quiseram comentar sobre a aquisição.
Grandes filmes — em especial aqueles que vencem estatuetas nas categorias mais disputadas do Oscar —, em geral, são feitos com grandes orçamentos. Uma Batalha Após a Outra custou entre US$ 130 e US$ 140 milhões, descontados os gastos de marketing. Pecadores, cerca de US$ 90 milhões.
A fusão entre Warner e Paramount Skydance pode sinalizar uma redução drástica na biodiversidade criativa de Hollywood. Historicamente, a competição entre os grandes estúdios — as chamadas Majors — eram o que garantia o oxigênio (e capital) para projetos de risco.
Com um único conglomerado de dois estúdios centenários, esse combustível fica comprometido e com menos incentivo financeiro. Apesar de já ter anunciado uma produção de 30 filmes anuais, divididos entre Warner e Paramount, Elisson já declarou que pretende economizar US$ 6 bilhões em custos operacionais quando a aquisição for aprovada.
A temática dos filmes, sob a vigia e influência de Donald Trump, também entra em xeque: ambos os filmes vencedores do Oscar, cada um a sua maneira, traçam uma crítica ferrenha à política dos Estados Unidos.
Uma Batalha Após a Outra mergulha de cabeça na agenda anti-imigração estadunidense, um dos temas mais atuais e controversos do país. Transporta para o cinema desde a ansiedade geracional com as recentes mudanças nos Estados Unidos até o cansaço das burocracias das forças revolucionárias — e suas inevitavelmente impotentes investidas no cenário contemporâneo.
Já Pecadores se apropria do horror e de arquétipos já reconhecidos do cinema para mergulhar fundo em uma crítica criativa — e corajosa — sobre a discriminação racial. E inova ao associar o racismo ao famoso mito (e tropo) dos vampiros, sob o pano de fundo real dos Estados Unidos na década de 1930 e atual.
Se o ano passado foi um aceno aos filmes independentes no Oscar, neste ano, prevaleceram os estúdios.
A A24, outrora a esperança dos independentes, viu seu Marty Supreme ser atropelado pela escala industrial. Hamnet conseguiu a tão merecida estatueta de Melhor Atriz para Jessie Buckley, mas também perdeu as demais para outras produções. O Agente Secreto, menor orçamentro da premiação desse ano, voltou para o Brasil de mãos vazias.
E enquanto a Warner celebrava um adeus simbólico, outros gigantes mostraram as armas. A Netflix, com sete prêmios, provou que domina a técnica e o hype. Frankenstein de Guillermo del Toro venceu as estatuetas de design de produção e cabelo e maquiagem e Guerreiras do K-POP levou os prêmios de melhor canção original e animação.
Diante da aquisição que promete mudar a história da indústria de cinema de Hollywood, a pergunta que fica é: quem terá a coragem de financiar a resistência? Se o interesse da Paramount na Warner é, em última análise, o poder de influência da CNN e a escala do streaming, o cinema pode se tornar um subproduto. E aí não há Oscar que retome a influência dessa indústria, que movimenta só em bilheteria cerca de US$ 35 bilhões por ano.
*A repórter viajou em parceria com a Delta Air Lines