O modelo médio com bolsa removível sai por R$ 16.500,00 no site brasileiro da Prada (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 6 de setembro de 2026 às 10h19.
A Prada colocou de volta nas prateleiras a mochila que ajudou a criar, décadas atrás, uma nova gramática para o luxo. A versão atual, batizada de Re-Nylon, chega ao mercado brasileiro por R$ 16.500,00 no modelo médio com bolsa removível, e reproduz quase integralmente o desenho original de 1984, com uma única mudança visível, um segundo ponto de fixação para prender acessórios, resposta a um jeito mais atual de carregar objetos pequenos no dia a dia.
A diferença que não aparece à primeira vista está na composição do tecido. O nylon usado na peça de 1984 vinha de um fornecedor do setor militar. A fibra da nova coleção nasce da reciclagem de redes de pesca recolhidas no oceano e de resíduos têxteis retirados de aterros sanitários. Parte da receita da linha, o equivalente a 1% das vendas, financia o Sea Beyond, programa educacional voltado à preservação marinha, mantido em parceria com a Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco.
A escolha por reformular justamente esse modelo não é aleatória dentro do calendário da marca. A mochila carrega o histórico de ter sido, ela própria, uma ruptura material dentro do catálogo da Prada, e a repaginação em fibra reciclada segue a mesma lógica de deslocar um símbolo de status para um território até então associado a outra coisa, no caso, sustentabilidade em vez de sofisticação industrial.
A mochila Re-Nylon reproduz o desenho de 1984, com nova fibra reciclada de redes de pesca e resíduos têxteis (Divulgação)
Quando a peça original chegou às lojas, a Prada já tinha reputação consolidada como fornecedora de bolsas de couro para a elite de Milão. Miuccia Prada, à frente do negócio da família desde 1978, decidiu apostar em um material associado a barracas de acampamento e paraquedas, superfície impessoal e resistente, distante de qualquer acabamento nobre. Ela chegou a comentar publicamente o cansaço com bolsas tradicionais demais e a descoberta de um interesse maior pelo nylon do que pelos tecidos de couture.
A aceitação do público não veio de imediato, uma vez que clientes acostumados ao peso e à textura do couro precisaram de tempo para se adaptar à proposta. Do lado da imprensa de moda, a reação foi mais rápida, e o entorno dos desfiles da Prada passou a reunir editores identificados com essa nova direção estética. Por volta de meados dos anos 1990, o nylon já fazia parte do vocabulário permanente da marca, presente em coleções inteiras, com a mochila ocupando um espaço fixo entre os acessórios mais vendidos.
O formato da peça também carrega uma origem alheia ao mundo da moda. Mochilas com esse tipo de estrutura vêm do universo do alpinismo, adaptadas no início do século 20 para distribuir melhor o peso do equipamento pelas costas de quem as carregava. Essa função prática esteve presente desde a primeira versão assinada por Miuccia Prada, o que ajuda a explicar por que o relançamento soa mais como continuidade de um projeto do que como aposta em nostalgia.
O momento também favorece a decisão comercial. Depois de temporadas com acessórios mais carregados de adornos, marcas de luxo voltam a apostar em peças de linhas mais limpas e função evidente. A Prada chega a esse cenário com um produto que já testou sua permanência no mercado e que agora soma a essa vantagem um discurso ambiental construído em torno da origem do material.