Andrea Tirone e Roberto Conigliaro em ensaio de retratos, com peças vintage que reforçam a estética analógica da dupla (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 18 de julho de 2026 às 08h02.
Um clipe de poucos segundos bastou para colocar a dupla italiana Mind Enterprises no radar de um público que nunca tinha ouvido falar do projeto. Nas imagens, Andrea Tirone e Roberto Conigliaro aparecem em um terraço à beira-mar, copos de Campari na mão, soltando fumaça enquanto conduzem os discos. A cena circulou por meses nas redes sociais e acabou virando atalho visual para um certo tipo de vida mediterrânea, associada a despreocupação e prazer.
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Antes de virar uma dupla, os dois passaram por um caminho longo. Conheceram-se na Sicília em 2011, ainda ligados à cena post-punk. Andrea tocava violão clássico, Roberto praticava bateria, e os dois se mudaram para Londres para se especializar em técnica de som. Nessa fase, testaram formatos distintos, incluindo eletrônica caseira, e Andrea chegou a passar alguns anos concentrado na obra de Fela Kuti.
O resultado dessa mistura de referências apareceu depois, quando a dupla decidiu unir o funk dos anos 1970 ao Italo disco dos 1980 e ao eurodance dos 1990. Nascidos em 1985, ambos revisitam ali parte da própria infância e adolescência.
O terceiro disco de estúdio da dupla, Negroni Love, chegou às plataformas em 22 de maio, na sequência de Panorama, de 2019 e . O repertório inclui faixas mais óbvias dentro da proposta, como Da Sola, Tacchini e a própria faixa-título, ao lado de experimentos como Another World, com influência de trance, e uma releitura eletrônica de Bach em Aria sulla 4a Corda. Burn It! trabalha com harmonias barrocas, enquanto Tuttosport reproduz o tom de boletins esportivos antigos.
A escolha por um álbum completo contraria uma característica histórica do gênero, tradicionalmente construído em torno de singles avulsos e do trabalho isolado de produtores. Roberto atribui essa diferença à origem post-punk da dupla, cena em que o costume era justamente ouvir um disco inteiro, do início ao fim.
A repercussão do vídeo viral coincidiu com a primeira turnê americana da dupla, dezoito datas percorridas no início deste ano e encerradas em uma apresentação inédita no Coachella. Nos bastidores do festival, encontraram um aviso proibindo bebidas e cigarros durante a performance. A regra não foi seguida à risca: eles levaram a própria garrafa, fumaram no palco e mantiveram o hábito de servir drinques à plateia ao final do show, sem qualquer intervenção da produção.
Esse tipo de negociação, segundo os dois, repetiu-se em praticamente todas as cidades da turnê, com equipes locais tentando restringir o consumo de álcool e cigarro durante as apresentações.
Os dois em agasalhos italianos de time, montados a cavalo, em referência bem-humorada aos estereótipos que dizem abraçar (Divulgação)
Fora dos palcos, a dupla mantém hábitos de colecionador. Andrea garimpa sintetizadores usados e recentemente comprou um Jupiter 6 de 1983 de um vendedor na Sardenha. Roberto percorre brechós por diferentes países europeus em busca de peças da marca italiana Sergio Tacchini, enquanto Andrea leva ternos vintage da Cerruti, dos anos 1980, para ajustes com uma costureira de confiança.
Os dois relacionam esse gosto por objetos e roupas de outra época à forma como enxergam a própria identidade italiana no exterior, marcada por estereótipos que, segundo Andrea, incluem tanto aspectos negativos quanto positivos, estes últimos ligados à valorização do prazer e da atenção aos detalhes do cotidiano.
Essa atenção também aparece na escolha da bebida de palco, que não é o spritz nem o americano, e sim o Campari soda ou o Campari on the rocks, evitando o negroni, que, segundo Andrea, compromete o desempenho durante a apresentação.