Nostalgia: (10'000 Hours/Getty Images)
Redação Exame
Publicado em 4 de julho de 2026 às 12h02.
Por Taiza Krueder, CEO do Clara Resorts
Há algo de mágico em observar o tempo voltar a ter peso. Em um mundo em que tudo acontece em segundos, em que a vida se resume a cliques rápidos e incessantes notificações, os jovens começam a descobrir o valor da espera.
O chiado de um vinil, a granulação de uma fotografia revelada, o fio que se entrelaça no crochê — são pequenos gestos que parecem deslocados da pressa contemporânea, mas que carregam uma beleza silenciosa e, quem sabe, revolucionária.
É como se o futuro, cansado da velocidade, tivesse decidido olhar para trás para se reconectar com o essencial.
Eu mesma vivi isso de perto. Minha primogênita, que mora e trabalha em Nova York, comprou um toca-discos antes mesmo de ter vinis para ouvir. Fui com ela escolher o primeiro: um clássico dos Beatles, com a icônica capa de Abbey Road. Lembro da expressão de surpresa quando descobriu que o disco tocava dos dois lados e que era preciso virá-lo manualmente.
O encanto estava justamente nesse ritual, nessa imperfeição que exige tempo e atenção. O mesmo acontece com suas câmeras de filme: tirar fotos sem saber como sairão, esperar a revelação, segurar a imagem impressa nas mãos, contemplá-las por longos segundos. Para mim, parece ultrapassado; para ela, fascinante.
Mas será que essa nostalgia é moda passageira? Os números mostram que não. Em 2025, segundo o relatório da Recording Industry Association of America (RIAA), as vendas de vinis nos EUA ultrapassaram, pela primeira vez neste século, a marca de US$ 1 bilhão, representando quase 50% do valor global do formato.
No Brasil, conforme a Pro-Música, os discos responderam por 76,4% das vendas físicas em 2024 — no ano passado, as vendas físicas cresceram 25,6%, sendo o vinil o principal responsável por esse avanço. Artistas como Taylor Swift e Billie Eilish impulsionaram ainda mais essa onda ao lançar múltiplas variantes dos “discões”, transformando-os em itens de colecionador. Não é apenas nostalgia: é consumo cultural e econômico de peso.
E não são só os vinis. Reportagens recentes mostram que câmeras analógicas e até digicams dos anos 2000 voltaram a ser objeto de desejo entre jovens. O ritual de revelar fotos, de lidar com a espera e com a surpresa, tornou-se uma forma de desacelerar. Em tempos de excesso digital, o analógico oferece pausa. É como se a granulação da foto ou o chiado do vinil fossem lembranças de que a vida não é perfeita — e que justamente nessa imperfeição, estou certa disso, está a sua beleza.
Pesquisadores como Clay Routledge, do Archbridge Institute, defendem que a nostalgia não é escapismo, mas uma forma de se reconectar. Em seus estudos, ele mostra que muitos jovens desejam viver em tempos menos conectados, e que o retorno a práticas analógicas é uma resposta emocional à ansiedade digital. Eu concordo: vejo que essa busca por autenticidade e pertencimento é real.
O vinil, por exemplo, não é só música: é experiência. É abraçar um artista por inteiro, com músicas que você gosta mais e outras que gosta menos, mas que compõem uma narrativa completa, com real propósito, esse termo que não nos abandona há anos no mundo corporativo. É diferente da lógica das playlists digitais, que fragmentam e aceleram tudo, e não nos dão a ideia do todo que é o trabalho de conceber um álbum de músicas.
E o crochê? Quem diria que aulas de crochê se tornariam tendência entre jovens em Nova York, Londres ou São Paulo. Mas, se pensarmos bem, faz sentido. O ato manual, repetitivo, quase meditativo, funciona como terapia. É uma forma de se desconectar das telas e reconectar com o corpo, com o tempo, com o presente. É nostalgia, sim, mas também é autocuidado.
Então, será que estamos diante de uma moda passageira ou de uma mudança cultural mais profunda? Acredito que é mais do que moda. É um movimento estrutural, uma resposta ao excesso digital. Claro que algumas práticas podem perder força com o tempo, mas o desejo por experiências físicas, imperfeitas e autênticas veio para ficar.
É como se a Geração Z estivesse dizendo: somos antenados, mas estamos cansados, precisando de pausa, rituais e, principalmente, pertencimento.
E não são somente os jovens dessa geração. No fim, o que buscamos, todos nós, é exatamente isso: autenticidade, reconexão e pertencimento. E se o futuro estiver olhando para trás, talvez seja porque lá atrás havia algo que nunca deveríamos ter perdido, mas recuperado.