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'Não pedimos desculpas pelo que ela é', diz diretor de 'Supergirl' à EXAME

Em entrevista à reportagem, a atriz Milly Alcock, o diretor Craig Gillespie e a roteirista Ana Nogueira defendem a coragem e a personalidade da heroína no novo longa da DC Studios

Supergirl: roteiro fraco ou boicote?

Supergirl: roteiro fraco ou boicote?

Luiza Vilela
Luiza Vilela

Repórter de Casual

Publicado em 2 de julho de 2026 às 06h31.

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Rio de Janeiro (RJ)* - Supergirl não é a heroína que se espera ver no cinema. O reflexo disso está nas bilheterias: o longa estreou em 25 de junho, já dando sinais de que, muito provavelmente, não vai se pagar. É mais um tropeço no faturamento da DC Studios. Mas não significa que a personagem e o filme sejam assim tão ruins

O longa, dirigido por Craig Gillespie e protagonizado por Milly Alcock, estrela da primeira temporada de A Casa do Dragão, foi desde o início uma aposta arriscada. A começar pela escolha da história que baseia o filme, o quadrinho A Mulher do Amanhãdesenhado pela brasileira Bilquis Evely.

A HQ traz uma narrativa que mostra um lado mais sombrio da personagem, mais intimista em suas "falhas" e distante do conceito de feminilidade ao qual estamos habituados a assistir nas telonas. Kara (Supergirl) é desorganizada, parece suja, não se importa muito com as coisas, vive bêbada, não tem propósito e está longe de ser uma pessoa simpática.

Somado a isso está um roteiro simples, com alguns furos, mas nada tão novo ou absurdo nesse gênero que já não tenha sido protagonizado (com sucesso) por personagens masculinos. A equipe de Supergirl teve a ousadia, entretanto, de revelar uma Kara fora do padrão, que não tenta dar lições de moral porque prefere amadurecer em seus próprios problemas — e à sua maneira.

"Ter uma personagem complexa, que está lidando com traumas e não pede desculpas por isso, poder mergulhar na mente dela e fazer isso com a Milly foi empolgante, porque esse é o tipo de coisa com que eu me identifico. Algo que eu ainda não tinha visto dessa maneira e dentro desse gênero", disse Gillespie em entrevista à EXAME durante a passagem do elenco pelo Brasil para a promoção do filme. "É alguém com quem é possível se relacionar."

Milly Alcock é Kara em 'Supergirl', da DC Studios (Divulgação)

Uma Supergirl complicada

A premissa do filme é a de que Kara (Milly Alcock) vive em uma apatia destruturada e, quando vai comemorar o aniversário de 23 anos, esbarra com Krem (Matthias Schoenaerts), um vilão intergalático que rouba sua nave e envenena seu cachorro, Krypto.

O animalzinho, no entanto, é a última relação viva que a personagem tem com seu planeta natal — Krypton, de onde ela e Clark vieram, que pereceu depois de um desastre natural. Na busca pelo antídoto para salvá-lo, ela sai em uma jornada e entrelaça a própria história com a da jovem Ruthye (Eve Ridley), uma garota que viu a família inteira ser assassinada por Krem, e agora quer vingança.

À princípio, a história parece simples. E é, de fato. Mas o roteiro, e sobretudo a direção de Gillespie, abriram espaço para que Kara ganhasse mais contornos de personalidade e tivesse uma representação bem mais factível do que a de outras heroínas já apresentadas no cinema. Foram atributos que só cresceram e se destacaram pela boa atuação de Milly Alcock. 

"Penso que Kara é alguém com quem, independentemente de gênero, muitas pessoas conseguem se identificar. Ela é imperfeita, e lida com as coisas de um jeito bem imperfeito. Vejo hoje que ter versões idealizadas de heróis pode fazer o público se sentir isolado e inferior", disse a atriz australiana à EXAME. "As pessoas realmente querem se ver nos personagens, e não querem que lhes digam quem elas devem ser."

A visão é compartilhada por Ana Nogueira, que fez sua estreia como roteirista no filme.

"Me anima o fato de poder colocar nas telas uma personagem com quem eu teria me identificado quando era adolescente. Peter (Safran), James (Gunn) e  Craig (Gillespie) não tiveram medo da personalidade dela, ninguém me pediu para deixá-la mais polida. Pensamos em torná-la mais autêntica, honesta. Foi corajoso", comentou ela.

A sina das superheroínas?

Após o sucesso de Superman nos cinemas, primeiro filme em anos da DC Studios que trouxe um bom resultado de bilheteria e que marcou o início da era de James Gunn à frente da marca da Warner Bros., havia uma certa comoção e expectativa para SupergirlO agora CEO criativo, tão elogiado no ano passado, esteve diretamente envolvido no projeto, e parte de sua filmografia — trilha sonora e cores, sobretudo — pode ser vista facilmente no longa.

O resultado, contudo, tem sido desanimador. O filme teve um robusto orçamento de US$ 180 milhões, acrescido de cerca de US$ 120 milhões investidos em marketing global. Até o fechamento dessa matéria, arrecadou apenas US$ 74 milhões na bilheteria mundial. E parece fazer parte da sina das superheroínas que, dos últimos cinco anos para cá, não encontraram nos cinemas um terreno gentil.

Depois do sucesso de Mulher Maravilha (2017) e Capitã Marvel (2019), que faturaram US$ 824 milhões e US$ 1,1 bilhão respectivamente, na era do boom dos super-heróis, o universo de heroínas anda em baixa nos cinemas. Muito pela falta de um roteiro mais corajoso nas pautas identitárias que esses dois filmes pincelaram antes da pandemia.

Capitã Marvel

Capitã Marvel no primeiro filme da personagem, de 2019 (Disney/Divulgação)

Mulher Maravilha 1984 (2020), lançado durante o isolamento social, faturou somente US$ 169 milhões. As Marvels (2023) fez US$ 206 milhões e foi considerado, naquele ano, um dos maiores fracassos da Marvel. Era o começo de uma saturação da fórmula que se repetiria em outros filmes de outros heróis. 

Supergirl, vindo de um momento um pouco mais otimista, pode ter caído na mesma sina. Mas já tinha outros sinais de que seria arriscado: Alcock foi questionada por uma porção de fãs, o projeto foi criticado e a atriz teve até a própria sexualidade contestada. O filme foi lançado no meio da Copa do Mundo. E já chegou pressionado para repetir a grandiosidade de Superman (2024).

É de se reconhecer que Supergirl tem bons efeitos especiais, uma trilha sonora interessante e que se segura, e muito, na belíssima atuação de Milly Alcock. Mas há muito a ser dito sobre o roteiro.

As intenções e propósitos dos personagens, sobretudo os masculinos, não foram bem estabelecidos. O vilão não convence do motivo pelo qual faz o que faz, nem mesmo revela o que faz. O final da jornada da Kara é confuso; Ruthye tem pouca força narrativa. O Lobo (Jason Momoa) poderia muito bem nem estar ali. E as pinceladas que a trama dá em prol do feminismo — que seriam a parte mais interessante — ficam, nesse enrosco, perdidas ou pouco desenvolvidas.

Contudo, em um momento em que as fórmulas de capas e superpoderes dão sinais claros de exaustão, a nova aposta da DC Studios, liderada por James Gunn e Peter Safran, não é todo esse horror que tem sido dito. O filme é divertido, apresenta uma personagem muito mais próxima do espectador (especialmente da espectadora), tem cenas bem coreografadas e figurinos interessantes. Uma pena que, no momento atual, tenha perecido na bilheteria.

*A repórter viajou a convite da Warner Bros. Studios

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