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Couro de pirarucu é a nova tendência na moda?

Material amazônico já circula pelas passarelas brasileiras há anos. A moda internacional começa a prestar atenção

Misci: Bolsa Moqueca de Pirarucu (Divulgação)

Misci: Bolsa Moqueca de Pirarucu (Divulgação)

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Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 11 de maio de 2026 às 11h37.

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O pirarucu é um dos maiores peixes de água doce do mundo. Por séculos, as comunidades ribeirinhas da Amazônia consumiram sua carne e descartaram a pele. Esse descarte virou couro.

A Osklen foi uma das primeiras marcas a enxergar o potencial do material. Oskar Metsavaht, fundador da grife carioca e presidente do Instituto-E, organização não governamental voltada para o desenvolvimento sustentável na Amazônia, começou a transformar a pele do pirarucu em bolsas, sapatos e jaquetas como alternativa ao couro bovino, cuja produção está diretamente ligada ao desmatamento.

A marca compra as peles exclusivamente de comunidades que trabalham com pesca manejada, em que o peixe só pode ser capturado após atingir 1,5 metro de comprimento, com limite de 20% do estoque de cada lago. O curtimento é orgânico, sem químicos nocivos.

Pirarucu Weekend Bag New, da Osklen

Pirarucu Weekend Bag New, da Osklen (Divulgação)

O resultado é um couro mais resistente que o bovino, mais fino e macio, com escamas de três a quatro centímetros que criam uma textura tridimensional difícil de replicar sinteticamente. Cada pele é única.

A Misci, comandada pelo designer mato-grossense Airon Martin, é um dos nomes mais relevantes no cenário da moda brasileira atual. A marca também utiliza o insumo em suas coleções, como na bolsa Moqueca de Pirarucu, um dos produtos mais conhecidos da marca. A peça feita com couro nacional curtido pelo processo L.I.V.E., 100% orgânico e biodegradável. Quando descartado na natureza, o material se decompõe em menos de 120 dias. No Rio Fashion Week 2026, as peças em pirarucu foram apontadas como o ponto alto da coleção verão 2027 da marca, incluindo o lançamento dos sneakers em colaboração com a VEJA.

Peças da Misci com couro de pirarucu, no desfile na Rio Fashion Week 2026, e tênis, em collab com A VEJA, com o material

Peças da Misci com couro de pirarucu, no desfile na Rio Fashion Week 2026, e tênis, em collab com A VEJA, com o material (Divulgação )

A cadeia produtiva por trás do material tem uma lógica circular. As peles que antes apodreciam às margens dos rios são compradas pelos curtidores, que pagam às comunidades pelo insumo. A Nova Kaeru, uma das principais curtidoras do país, processa cerca de 50 mil peles por ano e trabalha com uma rede de 280 comunidades, muitas delas indígenas em áreas de floresta protegida. O manejo regulado pelo Ibama permitiu que a população de pirarucu crescesse 427% nas áreas de pesca controlada.

A moda internacional já deu alguns sinais. Em 2020, a Courrèges apresentou na semana de moda de Paris uma jaqueta em couro de pirarucu, em parceria com o próprio Instituto-E, num dos primeiros momentos em que o material apareceu numa passarela europeia. Mais recentemente, a Italhide, curtidora italiana, apresentou o couro de pirarucu como uma oportunidade real para o setor em feiras especializadas, destacando a textura tridimensional e a resistência como diferenciais frente às alternativas sintéticas. Marcas como Stella McCartney e Hermès investem há anos em pesquisa de materiais alternativos ao couro convencional, de cogumelos a cactos.

O pirarucu oferece algo que esses materiais ainda não entregam com consistência: durabilidade comprovada, escala produtiva possível e rastreabilidade de origem. O segmento global de luxo sustentável deve movimentar mais de US$ 130 bilhões até 2030, segundo a Bain & Company. O Brasil já tem a matéria-prima, a cadeia produtiva e as marcas.

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