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Copa do Mundo vai ser a cada dois anos? Proposta da FIFA gera polêmica

Modelo bienal proposto pela Fifa ganha corpo ao redor do globo, mas ainda está longe de ser unanimidade

As seleções nacionais entram em campo mais vezes do que deveriam e para partidas que interessam a pouca gente. Este é um diagnóstico da Fifa, com o qual você provavelmente concorda — ou tem alguém realmente empolgado assistindo às 18 rodadas de Eliminatórias para o Mundial do Qatar? Remediar o problema, porém, é um desafio para a entidade, que já enfrenta resistência de alguns dos principais integrantes do ecossistema da bola.

O plano consiste em remodelar o calendário de forma radical a partir de 2024, tendo como vitrine principal a realização da Copa do Mundo a cada dois anos, ao invés de quatro, como funciona desde a criação do torneio, em 1930. Também haveria disputas bianuais dos torneios continentais, como a Copa América e a Eurocopa, logicamente nos anos ímpares, e as competições de base se tornariam mais recorrentes.

Por outro lado, a entidade promete agrupar as partidas de seleções a fim de reduzir o número de viagens dos atletas e as interrupções dos campeonatos de clubes. A federação acredita ainda que permitiria aos treinadores das equipes nacionais transmitir seu modelo de jogo e entrosar melhor o time.

À frente dessa empreitada está o francês Arsène Wenger, que treinou o Arsenal por mais de duas décadas e, desde o fim de 2019, ocupa o cargo de Chefe Global de Desenvolvimento de Futebol da Fifa. Em entrevista a Martín Fernandez, colunista do GLOBO, publicada no ge, ele explicou que pretende “deixar o calendário mais simples e claro” e “focar em competições que sejam realmente significativas”, ao respeitar a proporção de “80% da temporada para competições de clubes e 20% para competições de seleções”. A meta, segundo ele, seria melhorar o futebol globalmente e tentar torná-lo mais competitivo.

Isso passa pela diversificação e ampliação de receitas, de modo que haja mais dinheiro a circular por países da periferia do jogo. Esse movimento vai ao encontro de outros promovidos pela entidade, como a ampliação do número de participantes da Copa, de 32 para 48 países, a partir da edição de 2026, na América do Norte. Não à toa, os principais entusiastas dessa nova visão sobre o Mundial são coadjuvantes do jogo: a Arábia Saudita apresentou a ideia aprofundada por Wenger, e a Ásia e a África se mostram mais simpáticas à medida.

Em lados opostos

Por outro lado, há resistência nos dois principais centros do esporte: a Europa e a América do Sul. O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, prometeu um boicote do bloco caso o presidente da Fifa, Gianni Infantino, leve adiante o projeto bienal. E afirmou que “o valor da Copa é porque acontece a cada quatro anos”.

— Isso vai contra os princípios básicos do futebol. Jogar um grande torneio a cada verão (no hemisfério norte), para os jogadores, será a morte. Se for a cada dois anos, vai bater com a Copa do Mundo feminina e o torneio olímpico de futebol — justificou o dirigente em entrevista ao jornal britânico “The Times”.

Ceferin alega que as federações da Uefa jamais se posicionariam a favor da proposta. Mas se considerarmos que boa parte das nações do bloco raramente ou nunca participa de mundiais, há brecha para que também elas enxerguem vantagem em aumentar a frequência dos eventos.

O outro argumento do cartola, relativo ao desgaste físico para os atletas, é mais difícil de refutar. A FIFPro, espécie de sindicato mundial dos jogadores, já se manifestou em oposição. O órgão clama sim por uma reforma no calendário, mas uma que reduza a carga de trabalho dos profissionais. Em nota, alegou que “sem a concordância dos jogadores, que dão vida a todas as competições em campo, essas reformas não terão a legitimidade necessária”.

Uma posição curiosa, que ajuda a rever a dimensão dessa articulação, vem justamente da Conmebol. Em nota divulgada no mês passado, a entidade expressou temor pela banalização do torneio, alegou que seria praticamente impossível administrar o novo calendário e disse que não há justificativa esportiva para afetar o tempo de preparação das seleções para os grandes eventos. Curiosamente, há cerca de três anos, o próprio presidente da confederação sul-americana, Alejandro Domínguez, defendera a realização de Copas do Mundo bianuais, quando da criação da Liga das Nações da Europa, que restringiu a disponibilidade de seleções deste continente para amistosos com sul-americanos.

A CBF e seus principais representantes, como o técnico Tite e o coordenador de futebol Juninho Paulista, ainda não opinaram publicamente sobre a proposta. Procurada pelo GLOBO, a entidade disse que não se manifestaria por ora.

Busca por atenção

A proposta da Fifa segue uma tendência global: a busca por grandes jogos, capazes de produzir grandes receitas e atrair grandes audiências. Os próprios clubes, os mesmos que se queixam do calendário sobrecarregado, articularam-se recentemente para a criação da Superliga, que adicionaria novas datas a esse bolo. Essa iniciativa foi inicialmente freada, mas a força por trás dela deve seguir.

Ricardo Fort, consultor de patrocínios especializado em grandes eventos, explica ao GLOBO que a Fifa se vê em dois papéis conflitantes.

— Um deles é o de promover eventos, como a Copa do Mundo, e lucrar com isso. Como promotora, ela compete no mercado com a Olimpíada, a Liga dos Campeões, o Brasileirão… Então, tem que criar eventos para gerar novas receitas. Do lado comercial, está certa. Mas existe a outra Fifa, o órgão regulador do futebol, que desenvolve e cuida da saúde global do esporte. Nesse lado, aumentar a frequência dos jogos é um erro grande — opina o fundador da Sport by Fort Consulting. — A Fifa tem esse conflito interno e, pelo jeito, vai privilegiar o lado comercial.

Fort trata o atual movimento da entidade como “uma campanha orquestrada de comunicação para convencer as pessoas de que essa é uma boa ideia”. E a Fifa tem lançado mão de alguns recursos. Convocou ex-jogadores, entre eles os brasileiros Ronaldo e Roberto Carlos, para debater e propagar a proposta pelo mundo. E realizou uma enquete cujo resultado foi moldado a interesse próprio: 55% dos torcedores votaram a favor de Copas mais frequentes (30% prefeririam que ela acontecesse a cada dois anos; 14%, a cada três; e 11%, anualmente). Ainda assim, o modelo quadrienal recebeu a fatia mais grossa dos votos: 45%.

Sem solução

O potencial novo calendário ainda precisa ganhar corpo — não se sabe se seu desenho seria capaz de, de fato, reduzir o número de jogos desinteressantes e distribuir melhor as janelas de convocações. Portanto, o martelo ainda está longe de ser batido. A Fifa realizou, na quinta-feira, uma reunião virtual com mais de 200 federações afiliadas para debater mudanças. São elas que votam as propostas, e não as confederações continentais. A entidade prometeu publicar um relatório detalhado no mês que vem e organizar seu próximo congresso ainda neste ano.

Também será preciso ouvir os clubes, que detêm os direitos dos jogadores e pagam as contas do futebol ao longo do ano. E eles também têm seus desafios pela frente, como o novo Mundial de Clubes da Fifa, ainda sem cara e data de início.

— Neste momento, é mais uma batalha de relações públicas do que uma questão prática. Se a Fifa encontrar uma solução que permita que os jogadores atuem menos, que as Eliminatórias sejam mais organizadas, com menos janelas para viagens, pode ser que funcione — argumenta Fort. — Não é uma ideia totalmente esdrúxula, depende muito de como será feita, porque pode beneficiar muita gente que hoje não participa desse bolo.

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