A bióloga química e conservacionista Rosa Vásquez Espinoza, fundadora da Amazon Research Internacional, é uma das cinco laureadas do Rolex Awards 2026 (Divulgação)
Jonalista colaborador
Publicado em 14 de agosto de 2026 às 15h00.
A bióloga química e conservacionista peruana Rosa Vásquez Espinoza foi anunciada como uma das cinco laureadas do Rolex Awards deste ano. Seu trabalho relaciona o desmatamento na Amazônia ao declínio das abelhas-sem-ferrão, espécie que atua como polinizadora, produz mel com propriedades medicinais reconhecidas cientificamente e sustenta a economia de comunidades indígenas locais. O prêmio vai permitir a Vásquez Espinoza ampliar um corredor de proteção de habitats de abelhas conduzido por povos indígenas.
Este ano marca os 50 anos do Rolex Awards for Enterprise, criado em 1976 para celebrar o meio século de lançamento do primeiro relógio de pulso à prova d'água da marca, o Oyster. Parte da Rolex Perpetual Planet Initiative, o programa reconhece indivíduos cujos projetos ampliam o conhecimento sobre o planeta e ajudam a preservar espécies e habitats. Para marcar a data, a iniciativa passa a se chamar apenas Rolex Awards.
Abelhas-sem-ferrão em uma colmeia na Amazônia. A espécie é polinizadora essencial da floresta e, desde 2025, tem direito legal à existência garantido pela Justiça peruana (Divulgação)
Criada entre os Andes peruanos e a floresta amazônica, Vásquez Espinoza une conhecimento ancestral e ciência de ponta. Como fundadora e diretora executiva da Amazon Research Internacional, ela trabalha na proteção da biodiversidade e no fortalecimento de comunidades em toda a bacia amazônica. Sua pesquisa levou recentemente a um caso jurídico inédito, que resultou na proteção da espécie de abelha mais antiga do planeta. "Viralizou completamente," diz Vásquez Espinoza. "Esse é o primeiro inseto do mundo a conquistar direitos legais através do nosso trabalho."
A pesquisadora começou a estudar as abelhas-sem-ferrão da Amazônia em 2020, quando comprovou cientificamente as propriedades medicinais do mel da espécie, já valorizadas havia gerações pelas comunidades indígenas. Diante das ameaças de desmatamento, degradação de habitat, uso de agrotóxicos e mudanças climáticas, a Amazon Research Internacional estabeleceu o primeiro elo científico entre a perda de floresta e a redução das populações de abelhas.
Ao investigar por que nenhuma ação havia sido tomada até então, a equipe descobriu junto a um ministro peruano que a ausência de proteção legal limitava as opções disponíveis. "Havia uma sensação de que aquilo era impossível," afirma Vásquez Espinoza. "Depois veio uma ideia ingênua e teimosa: e se pudéssemos mudar isso?"
Membros de comunidade indígena analisam uma amostra de mel de abelha-sem-ferrão durante trabalho de campo da Amazon Research Internacional na Amazônia peruana (Divulgação)
No fim de 2025, as abelhas-sem-ferrão da Amazônia peruana se tornaram os primeiros insetos do mundo a receber direitos legais, um precedente que conservacionistas esperam replicar para outras espécies. A abelha é polinizadora essencial da floresta e parte central da vida de povos indígenas como os Asháninka e os Kukama-Kukamiria.
Até agora, a equipe mapeou 40 mil hectares de floresta, identificou mais de 300 colmeias silvestres e 1,6 milhão de abelhas-sem-ferrão. O projeto atua em 11 comunidades e já treinou mais de 350 indígenas em apicultura sustentável, empreendedorismo e pesquisa ecológica, dos quais 70% são mulheres. O trabalho de campo alterna noites de localização de colmeias e dias de coleta de dados, com expedições que exigem acampar na floresta sob orientação de apicultores locais.
Com o apoio da regeneração de 17 hectares de floresta já concluída, a Amazon Research Internacional planeja lançar dez santuários de abelhas-sem-ferrão liderados por indígenas em áreas de alta biodiversidade. Ao mapear 200 mil hectares de habitat, a organização pretende criar um corredor transfronteiriço de conservação que se estenda até a Bolívia e ao longo da fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil.
O apoio do Rolex Awards, segundo Vásquez Espinoza, permite planejar em escala maior e por mais tempo do que o ciclo típico de doações e captação de recursos de um ano. Ela integra o grupo de 165 laureados que o programa já apoiou desde sua criação, em projetos distribuídos por cerca de 70 países. A Rolex Perpetual Planet Initiative, lançada em 2019, reúne hoje mais de 30 parceiros dedicados a oceanos, paisagens terrestres e ciência, saúde e tecnologia, entre eles a Mission Blue, a National Geographic Society e a Royal Geographical Society.