Juscelino Kubitscheck com o relógio no pulso: símbolo de poder (Reprodução)
Colunista
Publicado em 9 de junho de 2026 às 13h30.
Última atualização em 9 de junho de 2026 às 13h46.
Há um relógio numa vitrine do Memorial JK, em Brasília, que persegui por 20 anos. É um Rolex Oyster Perpetual Datejust em ouro amarelo, exposto entre os objetos pessoais de Juscelino Kubitschek, como seu Ford Galaxie, faixa presidencial, e roupas que ele vestiu. A maioria dos visitantes passa por ele sem parar; é apenas um relógio de ouro de um homem que foi presidente.
Eu parei. Parei pela primeira vez em 2005, recém-chegado à cidade, e parei de novo agora, em junho de 2026, levando minha filha pela mão. Entre uma parada e outra cabem duas décadas de contatos não respondidos, pedidos formais com base na Lei de Acesso à Informação, recursos administrativos indeferidos um a um e, no limite, a intervenção do Ministério Público. Cabe também a descoberta, mais dolorosa do que eu esperava, de que a própria instituição encarregada de guardar a memória de JK havia perdido a lembrança daquele objeto. E cabe, por fim, uma reviravolta que aconteceu por puro acaso e que me permitiu, enfim, escrever o que segue.
Quem acompanha o blog Relógios Mecânicos sabe que faço esse trabalho desde 1999, sem patrocínio, sem relógio dado, sem nunca ter ganho um centavo. É um vício caro de tempo e de paciência, e a parte que ninguém vê é a pesquisa: a correspondência que não volta, o arquivo que não existe, o curador que não responde. Já contei, em outro texto, as frustrações de um horologista amador, e a história do relógio de JK era a primeira da lista.
Em 2005 eu havia escrito ao Memorial perguntando o que sabiam sobre a peça, se era de fato o relógio usado por ele, qual o número de série, se havia fotografias do presidente usando-o. A resposta veio no dia seguinte, gentil, da senhora Cirlene Ramos, e dizia, em resumo, que se tratava de um Rolex Oyster Perpetual Datejust, doado pela família, que estava com JK no acidente que o vitimou, que havia sido furtado no local e resgatado em Alagoinhas e devolvido à família, e que era o relógio que ele usava com frequência. Não tinham o número de série. Eu, jovem e impaciente, achei a informação escassa demais para um texto decente, prometi ir fotografar a peça em macro quando conseguisse uma câmera melhor, e não fui. O assunto adormeceu por 20 anos.
O Rolex Datejust de JK: ouro amarelo referência 6605 (Reprodução)
Quando voltei a ele, em 2025, o Memorial havia mudado. As mensagens que mandei pelo Instagram não foram lidas, ou foram e não mereceram resposta. Os e-mails caíram no mesmo silêncio. Diante do impasse, protocolei, em junho de 2025, um pedido formal pela Lei de Acesso à Informação, requerendo o número de série, a indicação de se o relógio fora presente ou aquisição, os detalhes do furto e da recuperação, as fichas de inventário, os termos de doação, as fotos em alta resolução. A Secretaria de Cultura do Distrito Federal respondeu que o Memorial é gerido por fundação privada e que, por isso, não teria competência para falar sobre seu acervo.
Recorri. Argumentei, recurso após recurso, que o Memorial ocupa espaço público tombado no Eixo Monumental, abriga bens de interesse histórico nacional e recebe recursos públicos por meio de termos de fomento, e que isso, pela própria letra da lei, atrai o dever de transparência. A Pasta repetiu, em primeira, segunda e terceira instâncias, que não tinha acesso ao acervo e que eu deveria procurar a entidade gestora — a mesma que já me ignorava. Em agosto, a Controladoria-Geral do Distrito Federal selou o indeferimento.
Restou-me acionar o Ministério Público. Provavelmente instado por um colega, o Memorial finalmente se manifestou, e o resultado foi um balde de água fria. Em dezembro de 2025, informaram-me o número de série — 6605-460172, confirmando um Datejust de 1959 — e nada mais. Quando perguntei pelo restante, sobretudo pela história da recuperação, a resposta foi que não localizavam, em seu acervo, documentos que comprovassem como o objeto fora resgatado. Vinte anos depois, a instituição não apenas não tinha avançado em relação ao que a própria curadoria me dissera em 2005: havia recuado. O que um dia se soube, perdeu-se. Era um impasse perfeito e de novo enterrei o assunto, achando que dele jamais sairia um texto.
Preciso, agora, explicar por que esse relógio me importa. JK, para mim, nunca foi figura de estudo. Não li suas biografias, não me debrucei sobre os Anos Dourados, sei dele o básico que séries de televisão e a cultura difusa de um brasileiro me deram. JK, para mim, sempre foi muito mais mitológico do que histórico, e isso tem uma razão íntima.
Deixei Belo Horizonte aos 26 anos. Assumi, primeiro, uma promotoria de justiça na Bahia, e poucos meses depois vim para Brasília assumir outra, aqui me fixei, aqui me fiz profissionalmente, aqui constituí família. Minha esposa é daqui, minha filha nasceu aqui. E mais de uma vez, nos primeiros anos, me peguei chorando na Praça dos Três Poderes, ao lado do busto de Juscelino, diante da frase gravada — “Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
Eu me via na frase. Olhava aquela cidade improvável, erguida no nada do cerrado, e pensava com uma alegria quase indecente: caramba, eu venci, fiz desta cidade o meu lar. Não me interessa, para esse efeito, a controvérsia sobre o homem, suas supostas contas no exterior, suas alianças, seus defeitos. Para mim JK é o que está inscrito em seu túmulo no Memorial: o Fundador. É essa relação mitológica, e não acadêmica, que me levou a parar diante do relógio dele.
E foi minha esposa quem, sem saber, virou a chave. Neste mês, do nada, ela propôs: vamos levar a menina ao Memorial JK? Eu não ia lá havia mais de uma década. Fomos, e diante da vitrine fiz alguns stories sobre o relógio e publiquei na conta de Instagram do Relógios Mecânicos. Então, o entusiasta e colecionador Luis Glasman, da conta @entusiarteoficial, enviou-me um direct. Disse que, dois anos antes, esbarrara por acaso, nos arquivos online da Biblioteca Nacional, numa reportagem com uma história interessantíssima, que salvara para um post que nunca fez. Adivinhem qual reportagem? Era a do furto. Finalmente a notícia de época, publicada no Jornal do Brasil, que confirmava o que a antiga curadora me dissera em 2005 e que o Memorial de 2025 já não sabia confirmar. O documento que a instituição perdera, um colecionador particular tinha guardado.
A reportagem, do fim de 1976, contava o desfecho do furto. Dois caminhoneiros, Eduardo Santos Paiva e Pascoal Magalhães Leite, que trabalhavam para a empresa Catuense, viajavam de Alagoinhas a São Paulo num caminhão de terceiro, incumbidos de buscar dois ônibus. No meio da Via Dutra deram com um Opala recém-acidentado, batido de frente contra uma carreta, e pararam. O acidente acabara de acontecer; os corpos ainda estavam dentro do carro. Tiraram do pulso do morto um Rolex de ouro maciço, avaliado então em 20.000 cruzeiros, e seguiram viagem combinando vender a peça e dividir o dinheiro.
Mas, ao verem gravado na pulseira o nome do ex-presidente, tiveram medo. Pensaram em raspar o nome, não rasparam, voltaram para a Bahia sem resolver. Mais tarde, achando que o comparsa vendera o relógio e ficara com tudo, um deles denunciou o outro, e o delegado de Alagoinhas, Gron Cícero dos Santos, apreendeu a peça, que então seguiu para ser devolvida à família. Não encontrei notícia posterior sobre o destino dos dois homens; é um episódio policial de província, do tipo que não rende acompanhamento.
Mas a reportagem, por si, já dizia muito mais do que parecia. Ela é prova primária, contemporânea, de que dois civis quaisquer alcançaram o Opala minutos depois da colisão, com os corpos ainda dentro, e tiveram tempo de arrancar um relógio do pulso de JK antes que qualquer autoridade isolasse o local. A “curva do Juscelino”, naquele intervalo inicial, foi terra de ninguém. Guardem essa frase; voltaremos a ela.
Eu tinha, enfim, a história da recuperação. O que eu não tinha era a história da perda — o acidente em si, sobre o qual, confesso, eu nada sabia além do fato bruto de que JK morrera numa estrada em 1976. Resolvi, então, descortinar primeiro o acidente. E o acaso, de novo, me serviu: descobri que a investigação havia sido reaberta e que, havia pouquíssimo tempo, seus resultados tinham vindo a público. Como os documentos eram públicos, e como atuo há mais de 20 anos como promotor de justiça justamente na área de crimes de trânsito, fiz o que faço todo dia: sentei e li o laudo técnico. Desde as primeiras páginas, ele me pareceu inconsistente. Mas deixo o acidente em suspenso, porque antes preciso falar do objeto. Antes de entender como o relógio foi tirado do pulso do Fundador, é preciso entender o que aquele relógio era.
O Datejust nasceu em novembro de 1945, e James Dowling conta bem essa história. Hans Wilsdorf lançou-o como peça comemorativa dos quarenta anos da Rolex, batizou-o de início como Jubilee e logo o mundo passou a chamá-lo pelo nome que ficou. Era o primeiro relógio de pulso automático, à prova d’água e cronômetro a exibir a data numa janela do mostrador — três conquistas da casa reunidas num só objeto, na referência 4467. Nos anos que se seguiram a peça ganhou a luneta canelada e, sobretudo, a lente Cyclops sobre a data, que se tornaria assinatura visual da marca.
E foi nessa fase de maturação que surgiu exatamente o relógio de JK: a referência 6605, apelidada pelos italianos de “Ovettone”, o ovo grande, pela caixa bombê e arredondada das primeiras gerações. O 6605 é peça de transição, ponte entre os Datejust originais e a série 1600 que viria nos anos 60; foi produzido por poucos anos, entre 1956 e 1959, e trazia o calibre 1065, automático de vinte e cinco rubis e cronômetro certificado.
Quando finalmente fotografei o relógio, em junho, a peça confirmou cada uma dessas características e ainda me deu o que eu não esperava. O mostrador prateado traz, sob a coroa aplicada, o nome Rolex Oyster Perpetual Datejust, e acima das seis horas a inscrição Superlative Chronometer Officially Certified. Esse detalhe é precioso para a datação: a Rolex só passou a estampar essa fórmula por volta de 1959, substituindo a anterior. Mais: abaixo das seis horas lê-se apenas “Swiss”, sem o “T Swiss T” que a marca adotaria com o trítio na década seguinte, o que indica mostrador com luminoso de rádio, anterior a cerca de 1963. E o disco de data é do tipo roulette, com as dezenas alternando entre o vermelho e o preto — daí o “10” vermelho que vi na janela.
Junte-se a isso a referência 6605, descontinuada em 1959, e o número de série na casa dos quatrocentos e sessenta mil, igualmente compatível com aquele ano, e teremos cinco vetores independentes apontando para a mesma data. A peça de JK é de 1959. Os índices, aliás, são facetados, em ponta de flecha; os ponteiros, alfa; tudo na estética sóbria do Datejust do fim dos anos 50.
Algumas coisas no estado da peça merecem registro, porque carregam sua biografia. O cristal está coberto de riscos em todas as direções, marcado pelo manuseio. Não é um relógio de cofre; é uma peça usada e batida pelo uso diário. O mostrador é original e ainda bem que ninguém se atreveu a restaurá-lo. A pulseira, uma Oyster de elos rebitados em ouro, nas fotos completas, aparece nitidamente deformada — elos tortos, dobrados para fora do plano, a porção inferior amassada. Não é a folga natural que essas pulseiras antigas ganham; é dano mecânico.
E aqui devo aplicar a mesma disciplina que cobrarei, adiante, do perito do caso, porque a tentação de interpretar o bracelete torto como resultado da colisão é grande e seria precipitada. Há pelo menos três explicações possíveis, e nenhuma foto resolve a questão. Pode ser o próprio acidente, uma colisão frontal violenta que torceu o pulso. Pode ser a retirada: a reportagem diz que arrancaram o relógio do pulso do cadáver, e o ouro 18k, com elos finos e ocos, entorta com pouquíssima força. E pode ser manuseio descuidado. O detalhe que pesa, para mim, é que a caixa e o cristal não apresentam dano por impacto. Se o pulso tivesse recebido um golpe forte o bastante para retorcer o bracelete, seria de esperar dano correspondente nesses componentes. Isso inclina a balança, ainda que de maneira não conclusiva, para deformação por flexão e tração — um puxão, uma torção, o manuseio — e não para o impacto frontal.
Mas, qualquer que seja a hipótese vencedora, o relógio deixou de ser apenas a peça furtada e passou a ser a peça que carrega na sua estrutura a marca de violência daquele dia. Como JK adquiriu esse relógio, se o comprou ou o ganhou, eu não sei, e prefiro não inventar.
Mas o que torna esse Datejust mais do que um relógio de um homem importante é o momento exato em que ele chega ao pulso de JK. Pierre-Yves Donzé reconstruiu essa história com precisão e ela é decisiva. A partir de 1947 a Rolex contratou a J. Walter Thompson de Londres, a maior agência de publicidade do mundo, e recrutou um ex-gerente da própria JWT, René-Paul Jeanneret, para conduzir o marketing. Até meados dos anos 50, o discurso da marca era o mesmo dos concorrentes: excelência técnica, precisão, resistência, boletins de observatório, façanhas de exploradores e esportistas.
O salto, a invenção que fez história, veio quando a JWT criou um segundo tema. A Rolex deixou de ser apenas um relógio excepcional para virar a expressão do poder — o relógio usado pelos grandes do mundo, dos chefes de Estado aos militares, da realeza aos que decidem. As campanhas da segunda metade da década, produzidas pela agência, mostravam homens de poder, em geral diante da imprensa ou em reuniões de cúpula, e o mais engenhoso é que essas personalidades eram anônimas.
Um anúncio de 1956 explicava a relação nos seguintes termos, que parafraseio: onde quer que decisões históricas sejam tomadas, em conferências de alto nível, em reuniões de gabinete, em discussões estratégicas, lá estão esses homens; não seria apropriado nomeá-los — realeza, chefes de Estado, grandes comandantes —, mas, se olharmos para o pulso deles, o relógio terá sido feito pela Rolex.
É preciso entender a radicalidade do que a JWT fez ali. Pela primeira vez, um grande fabricante deixava de centrar a propaganda nas qualidades intrínsecas do relógio — o que ele faz, como funciona, o quão preciso é — para vender uma ideia. A Rolex tornou-se, nas palavras do próprio Donzé, um conceito, muito mais do que um produto. Foi o nascimento da lógica de luxo que conhecemos hoje, aquela que analisei em outro texto do blog, do observatório ao mercado secundário: o objeto como signo de pertencimento a uma casta, e não como instrumento.
E funcionou. Em 1959, a verba da Rolex na imprensa internacional já era a segunda maior de toda a relojoaria suíça, atrás apenas da Omega e à frente da Longines; a marca caminhava para o topo do mundo, onde se instalou e de onde não saiu mais.
Ora, JK é a encarnação perfeita do arquétipo que aquela campanha celebrava sem poder nomear. Um chefe de Estado, médico de origem modesta que se fez presidente, o homem do “cinquenta anos em cinco”, o fundador de uma capital erguida do nada — a figura do poder e da decisão histórica que os anúncios insinuavam. A legenda daquele anúncio de 1956 caberia, sem trocar uma vírgula, debaixo de uma fotografia de JK presidindo uma reunião ministerial ou inaugurando Brasília. E há um detalhe cronológico que conclui o paralelo: Donzé registra que o contrato da JWT no Brasil só foi assinado em 1960, o ano da inauguração da capital. O relógio de JK é de 1959. Ou seja, ele não foi fabricado pela campanha; ele a antecede. JK não é produto da propaganda — é a coisa real que a propaganda, no Brasil, ainda nem tinha começado a explorar. Era o homem que guiava os destinos de um país no pulso, exatamente como o anúncio prometia, antes mesmo de o anúncio chegar aqui.
E é justamente nesse ponto que o paralelo se torna mais do que uma curiosidade publicitária e vira, a meu ver, a chave de tudo. A campanha vendia o Rolex como símbolo da permanência, do poder, do êxito; Donzé chega a ironizar que o Oyster, naquele discurso, era o fim da história. O relógio de JK é o oposto. O homem de poder teve os direitos políticos cassados e exilou-se. O relógio sobreviveu a tudo isso no pulso dele. E então, numa morte cuja causa o próprio Estado se recusou a investigar adequadamente, o emblema máximo do sucesso foi arrancado do cadáver por dois caminhoneiros e quase vendido na Bahia.
O símbolo de status converteu-se em marca de vulnerabilidade absoluta. E o toque final, que resume tudo o que vivi nestes vinte anos, é este: a campanha cultivava o anonimato dos poderosos como forma de prestígio — não seria apropriado nomeá-los. O relógio de JK sofreu o anonimato como perda, quando o próprio Memorial esqueceu sua proveniência.
Volto, então, ao acidente, que deixei em suspenso, e o faço com a cautela que o tema exige. Não me proponho a dizer o que aconteceu na Via Dutra no fim da tarde de 22 de agosto de 1976, porque isso é, hoje, irrecuperável — trata-se de um evento de cinquenta anos atrás cuja coleta de dados não se pode repetir, e a verdade material depende do que se colheu na época, mal colhido. O que se pode fazer é avaliar a qualidade do que foi produzido. E aqui falo como promotor de trânsito, não como teórico de conspiração.
A versão oficial de 1976, construída sob a ditadura, foi a de acidente. JK voltava de São Paulo ao Rio num Opala dirigido por seu motorista e amigo Geraldo Ribeiro; o carro invadiu a contramão e bateu de frente contra uma carreta carregada, cujo motorista, Ademar Jahn, sobreviveu. Os laudos do então Instituto de Criminalística atribuíram a perda de controle a um toque do Opala num ônibus da Viação Cometa durante uma ultrapassagem, e o motorista do ônibus chegou a responder por homicídio culposo, sendo depois absolvido — ele sempre negou a colisão, dizendo que o carro cruzou à sua frente, e os passageiros do ônibus relataram não ter sentido impacto algum.
Em 1996, com a exumação, tentou-se uma perícia voltada à hipótese de atentado, frustrada porque o Opala já fora desmanchado. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade concluiu pela morte acidental e, entre outras coisas, demonstrou que um fragmento metálico encontrado no crânio do motorista, apontado por alguns como projétil, era na verdade a mesma liga usada para fixar forros de caixão.
A comissão estadual paulista, no entanto, sustentava o atentado. Entre 2013 e 2019, o Ministério Público Federal conduziu um inquérito em Resende e, para instruí-lo, encomendou um laudo ao engenheiro Sergio Ejzenberg, perito especializado em acidentes de trânsito. Uma reanálise médica de 2017 apontou inconsistências graves no laudo cadavérico de 1976 — entre elas um horário de morte incompatível com o do acidente e a ausência de exame toxicológico. E, finalmente, em 29 de maio de 2026, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos aprovou, por seis votos a um, relatório concluindo que JK foi assassinado pela ditadura, propondo-se a retificar a certidão de óbito.
Li o laudo de Ejzenberg do começo ao fim, e devo reconhecer que sua metade que desconstrói a causa do acidente é boa engenharia. Ele demonstra, de forma a meu ver convincente, que a tese da colisão com o ônibus não se sustenta. Reinterpreta a marca de atritamento que o laudo original atribuíra à frenagem do ônibus como um sinal de balanço lateral de veículo pesado em mudança brusca de faixa, e a física que invoca é legítima. Aponta um erro aritmético grosseiro na conversão de unidades feita pelo cálculo de velocidade da época. Critica, com razão, a adoção de um coeficiente de atrito alto demais para o trecho de asfalto. E expõe uma inconsistência real no próprio acervo original, que chegou a registrar três raios diferentes para a mesma curva.
Some-se a isso a constatação, óbvia mas devastadora, de que a cena nunca foi preservada — e aqui o furto do relógio é a melhor prova material que existe de que o local ficou aberto a qualquer um nos minutos iniciais. Tudo isso é sólido, e o conjunto basta para enterrar a versão de 1976. O próprio MPF resumiu: a batida do ônibus na traseira do carro, premissa de toda a tese da fatalidade, simplesmente nunca ocorreu.
O problema é a metade construtiva, e é nela que mora o furo que um analista honesto não pode ignorar. Demolir uma causa específica não é o mesmo que estabelecer outra, muito menos uma causa intencional. O próprio laudo admite, em suas conclusões, que não encontrou prova da causa, humana ou mecânica, da perda de controle; e logo em seguida o argumento retórico — a rota descrita como aparentemente intencional, a ausência de frenagem e de manobra evasiva tratada como anomalia surpreendente — conduz o leitor a uma conclusão que a física não autoriza.
É uma falácia tão antiga que tem nome em latim: o argumento da ignorância, o salto de “não se sabe o que aconteceu” para “logo, aconteceu assim”. E há detalhes que me incomodam profissionalmente. A ausência de marcas de frenagem é frequentemente superinterpretada. Um Opala de 1976 não possuía freios ABS, mas a inexistência de marcas visíveis não permite concluir que não houve tentativa de frenagem nem, muito menos, inferir suas causas. Somada à ausência de manobra evasiva, ela é igualmente compatível com incapacitação súbita — um mal súbito, um microssono, uma síncope —, com distração, com fadiga ao cabo de uma viagem, com falha mecânica de direção ou pneu, ou mesmo com o congelamento que todo perito de trânsito sabe poder acometer condutores reais diante do perigo.
Nada disso é atentado. O “básico instinto de sobrevivência” que o laudo invoca é premissa retórica, não lei física. E o desmanche do carro, que impediu a perícia de sabotagem em 1996, corta para os dois lados: tanto impede confirmar uma adulteração quanto impede excluir uma falha mecânica banal. A saída tecnicamente honesta, do próprio corpo do laudo, é “causa indeterminada”. A conclusão é que toma carona na retórica.
Por isso, sobre a pergunta que todos fazem — foi atentado ou foi um acidente que nunca conseguiremos explicar? —, minha resposta é a única que a prova permite, e é a mesma que o procurador do MPF adotou em 2019: é impossível afirmar e é impossível descartar. É inteiramente razoável suspeitar de atentado, porque o regime tinha capacidade e histórico, porque as irregularidades são reais e graves, porque a última parada de JK foi em um hotel-fazenda em Resende que pertencia ao brigadeiro Newton Villa-Forte, um dos criadores do SNI, a ponto de o lugar ser conhecido como o Hotel do SNI, e porque o motorista, segundo testemunho do filho do dono, reclamou antes de partir que alguém mexera no carro — sem que jamais se fizesse perícia mecânica.
E é igualmente razoável julgar que uma perda de controle banal porém inexplicável encaixa nos vestígios físicos pelo menos tão bem quanto o dolo. O que não é defensável é tratar a desconstrução da tese do ônibus como prova de assassinato.
Aqui faço uma distinção que, como promotor, me parece essencial e que costuma ser apagada no calor do debate: a verdade de uma comissão de reparação e a verdade de um juízo criminal são objetos distintos. A Comissão de Mortos e Desaparecidos opera sob lógica administrativa e reparatória, em que a dúvida favorece a memória da vítima; um processo penal exigiria prova além da dúvida razoável, padrão que nenhuma das peças hoje disponíveis alcança. Reconhecer oficialmente o assassinato é um ato de Estado sobre a memória, não uma condenação, e as duas coisas convivem sem contradição.
E há, no fim, um argumento mais forte e menos politiqueiro do que qualquer tese conspiratória: não é preciso afirmar que houve atentado para constatar que a investigação original foi desenhada para não investigar. Os militares que JK teria ido encontrar nunca foram ouvidos, nem para inglês ver — em parte porque a apuração de 1976 jamais quis olhar para esse lado, em parte porque nem se sabe quem estava na reunião do hotel, e em parte porque, quando alguém finalmente quis apurar, os principais suspeitos já estavam mortos. Não se fez perícia no carro. Provas se extraviaram. Essa recusa em apurar, somada ao apagamento posterior, é o que garante que a verdade factual, hoje, seja irrecuperável. É o mesmo vácuo que encontrei no relógio.
Eu poderia parar aqui, e o texto já seria, para mim, suficiente. Mas a pesquisa, fiel ao seu método de acasos encadeados, me reservava ainda uma reviravolta que nunca imaginei encontrar, e que me obriga a entrar na história em primeira pessoa de um modo que não planejara. Ao puxar o fio do contexto político de JK, deparei-me com a Frente Ampla, o movimento de 1966 em que Carlos Lacerda — o maior agitador civil contra Vargas, contra JK e contra o próprio Goulart, o homem que saudara o golpe de 1964 — reconciliou-se com seus inimigos mortais e uniu-se a JK e Jango numa frente única pela redemocratização, frente que o regime proibiria por portaria em 1968.
JK escrevia, então, do exílio. E foi ao pensar nesse exílio que me lembrei de uma coisa que jamais conectara à história que estava contando: meu avô, Osvaldo Pimenta, duas vezes prefeito de São João Evangelista, em Minas Gerais, conheceu JK, foi seu companheiro de PSD e chegou a hospedá-lo em sua fazenda. E mais: na obra que meu avô escreveu sobre a história daquela cidade, há um capítulo com cartas trocadas entre os dois.
Fui reler essas cartas com outros olhos. Há uma, de 1949, em que JK agradece a hospedagem na fazenda e elogia a combatividade dos companheiros locais — JK ainda em ascensão, um ano antes de governar Minas. E há as cartas do exílio, de 1966 e 1967, escritas de Nova York e de Lisboa, em que se sente o homem por dentro: o circuito de conferências nas universidades americanas para preencher o vazio, a cirurgia delicada da filha Márcia na coluna, em Houston, e a melancolia que ele condensou num poema datado da Fazenda do Quilombo, em abril de 1966, cujas três palavras-chave dizem tudo sem que eu precise reproduzi-las — saudade, injustiça, solidão.
Mas o que me causou um sobressalto foi o pedido contido em uma dessas cartas. JK, do exílio, pede a meu avô que apoie a candidatura de um parente, a quem trata ora como sobrinho, ora como primo: um tal Carlos Murilo, que se candidatava a deputado federal pelo MDB. Pedido que, pelo relato do meu avô, lhe custou caro, porque os antigos companheiros já tinham migrado para a Arena e não admitiam que ele ajudasse um candidato oposicionista.
Esse Carlos Murilo é Carlos Murilo Felício dos Santos, o autor de "Momentos Decisivos: JK Contra o Golpismo no Brasil", uma das obras escritas por membro da família para sustentar a tese da perseguição e do atentado, e a fonte, justamente, da informação de que JK tinha um encontro marcado com emissários de Geisel para o dia 25 de agosto de 1976 — três dias depois de sua morte —, encontro que teria sido antecipado para atraí-lo à estrada.
Quer dizer: meu avô guardou e publicou cartas em que JK lhe pedia para eleger o parente que, décadas depois, se tornaria um dos principais sustentáculos familiares da versão do assassinato. Minha família está, por um grau de separação, dentro da própria literatura do caso que eu estava dissecando como se fosse um estranho. E ainda há a questão do calendário, que não construo em tese alguma porque é só coincidência, mas que menciono porque o tempo, às vezes, parece ser cruel: uma das cartas em que JK pede o apoio ao parente é datada de 25 de agosto de 1966. Dez anos exatos antes da data marcada para o encontro que esse mesmo parente apontaria como armadilha.
Foi assim que o pesquisador que perseguia, de fora, o relógio de um presidente descobriu-se neto de quem hospedou esse presidente, e correspondente, por uma carta de família, do homem que escreveria a tese do crime. Não tenho ilusão de que isso prove coisa alguma sobre o acidente; não prova. Mas mudou o meu lugar nesta história, e me devolveu, ao fim, ao busto da Praça dos Três Poderes.
Penso no relógio na vitrine. Ele é, agora me parece, a síntese de tudo. Foi vendido pela mais genial campanha publicitária da relojoaria como o talismã dos que decidem o destino do mundo, e chegou ao pulso de um homem que decidia, de fato, o destino de um país. Sobreviveu ao golpe que tirou desse homem o poder, ao exílio, ao ostracismo. Sobreviveu à colisão na Dutra. Foi arrancado do cadáver por mãos apressadas, atravessou o Brasil dentro de um caminhão, escapou de ser raspado e vendido por causa de um nome gravado numa pulseira de ouro, foi recuperado por um delegado de província, devolvido à família, doado a um memorial.
E lá, no lugar feito para guardá-lo, foi esquecido — a ponto de a instituição perder o registro de como ele voltou, e de a história só ter sido recuperada por um colecionador particular que garimpava arquivos por hobby e por um promotor de trânsito que, por acaso, é apaixonado por relógios. O objeto que o luxo escolheu como emblema da permanência tornou-se a prova mais eloquente da impermanência: do poder, da vida, da memória, da verdade.
E penso, por fim, em mim, diante daquele busto, chorando aos 20 e tantos anos porque tinha feito de Brasília o meu lar. JK, o Fundador, o homem que ergueu a cidade do nada e foi devorado pelo país que ajudou a construir. Levei minha filha, que é desta cidade, para ver o relógio dele, sem imaginar que aquele passeio banal de um domingo destrancaria vinte anos de uma pesquisa emperrada e me jogaria, de roldão, dentro da minha própria história de família.
O relógio do Fundador parou — todos eles param, no museu. Mas a hora que ele marca, congelada atrás do vidro, continua sendo a nossa: a de um país que não sabe guardar nem a verdade sobre a morte de seus presidentes, nem a memória de um relógio de ouro, e que precisa de um neto, de um colecionador e de um recorte amarelado de jornal para reconstituir o pouco que ainda se pode reconstituir. Foi a esse pouco que dediquei este texto.