Finanças em campo: gastos feitos durante a Copa podem comprometer a renda por vários meses. (Imagem gerada com IA/Exame)
Repórter de Mercados
Publicado em 20 de julho de 2026 às 12h15.
A Copa do Mundo acontece apenas de quatro em quatro anos, e muitos brasileiros veem nisso uma desculpa para gastar sem se preocupar tanto com as finanças. Um levantamento da Creditas em parceria com a Opinion Box mostra que, a um mês do torneio, oito em cada 10 pessoas com dívidas já planejavam gastar para acompanhar os jogos.
O estudo apontava ainda que 26% já chegam endividados ao mundial, 47% pretendiam aumentar os gastos durante os jogos e 14% admitiram contrair novas dívidas para viver a experiência da Copa. Dois em cada 10 dos respondentes disseram topar contrair dívidas para ver o Brasil campeão. Esse número sobre para 30% entre quem nunca viu o Brasil ganhar uma Copa (18 a 24 anos) e avança ainda mais em relação aos endividados, para 37%.
A dura realidade é que o Brasil nem chegou perto da tão sonhada sexta estrela e essa é a hora de buscar o balde chutado. "Tem um aspecto neurobiológico e psicológico para isso", afirma a planejadora financeira Paula Sauer.
"A dopamina costuma estar presente nestes momentos de expectativa, e é justamente essa substância que influencia muito na tomada de decisão financeira", complementa. O cérebro, inundado de dopamina produzida pela expectativa do hexa, vai ser menos racional e vai buscar por recompensa imediata.
No aspecto psicológico, Sauer afirma que há o efeito manada e de validação social. "Quando vejo que todo mundo está gastando, isso reduz a minha responsabilidade se alguma coisa der errado. Somos levados pelo momento, pela festa. Basta ver que muitas pessoas que nem gostavam de futebol se empolgam neste período, compram camisa, compram enfeites, vão para bares, e assim por diante", afirma.
Um dos gastos, por exemplo, é o conhecido álbum de figurinhas, que a cada quatro anos vira febre entre os torcedores. E completar o álbum pode chegar a custar R$ 9 mil.
O primeiro passo, segundo o planejador financeiro Raphael Carneiro, é entender se os gastos foram feitos à vista ou a prazo.
“É preciso analisar qual é o comprometimento da renda futura com os parcelamentos e quanto ainda resta para o dia a dia nos próximos meses”, afirma. À medida que os parcelamentos restantes da Copa vão sendo quitados, mais renda fica disponível. “É como se seu salário aumentasse. Se tenho grandes parcelamentos e eles vão acabando, sobra mais dinheiro e passo a cortar menos gastos”, explica.
Por isso, o uso do cartão de crédito pode se tornar um vilão. “Se puder, evite usar o cartão no dia a dia. Se for necessário, tente escolher menos parcelas, de uma a três, no máximo”, aconselha o planejador.
Paula Sauer concorda, embora ressalte que, usado corretamente, o cartão de crédito pode ser um aliado. “O problema é que a maioria não sabe utilizar. Além disso, o pagamento via cartão é cada vez mais invisível. No meio da festa e da correria, basta aproximar o celular da maquininha para concluir uma compra. Só vou perceber o valor gasto quando consultar a fatura”, afirma.
Ela alerta ainda: “Não confunda o limite disponível com dinheiro no bolso”.
Se você já parcelou diversas compras e tem faturas pesadas chegando, a dica é evitar ao máximo o crédito rotativo do cartão. “Chegou a data do pagamento e não tenho dinheiro para quitar a fatura. Pago apenas o valor mínimo para manter o limite ativo, e o saldo restante é transformado em parcelas pela administradora, com juros altíssimos, que podem chegar a 400% ao ano”, explica a planejadora.
A recomendação é entrar em contato com o banco e avaliar a melhor modalidade de empréstimo. O mesmo vale se você ultrapassou o limite do cheque especial, que também tem juros muito altos.
“É necessário pensar em uma reestruturação. Se foi um gasto pontual e há folga nos meses normais, posso considerar um empréstimo, pois os juros são menores. Mas é preciso entender que a folga mensal será direcionada ao pagamento dessa dívida”, complementa Raphael Carneiro.
Uma outra alternativa sempre será aumentar a receita ou então diminuir os gastos. "Agora que acabou a Copa, talvez valha a pena rever os meus débitos automáticos. Será que ainda preciso de tantos canais de esporte e streamings na televisão?", questiona Paula Sauer. "Se não consegue reduzir nenhum gasto, chega a hora de pensar em aumentar a receita, seja trabalhando mais, ou até vendendo algo que você não usa tanto".
Segundo o planejador Andres Montano, nessas horas a reserva de emergência é bem-vinda, mas desde que ela não seja utilizada integralmente. "Se você for zerar a reserva, ficando sem nenhuma proteção, aí recomendo que ajuste os gastos dentro do fluxo", explica.
Se antes as preocupações se voltavam para gastos com churrasco, cerveja, assinatura de streaming ou uma nova camisa da seleção, agora as apostas esportivas têm tomado grande parte do orçamento dos brasileiros.
"O número de apostas no período da Copa aumentou. E o mais preocupante é que muitas pessoas encaram isso como investimento, o que não é", afirma Montano.
Um mês antes da Copa do Mundo, seis em cada 10 brasileiros consideram apostar em bets durante o torneio, também segundo o levantamento da Creditas. E, para parte dos potencias apostadores, bet deixa de ser entretenimento: um em cada três acreditam que apostar durante a Copa é forma de aumentar o orçamento.