Rafaela Costa, que foi vice-presidente de operações de redes da Ericsson até dezembro de 2025
Redatora
Publicado em 13 de julho de 2026 às 17h44.
Última atualização em 17 de julho de 2026 às 14h49.
Depois de 26 anos de trabalho ininterrupto em multinacionais de tecnologia, a engenheira Rafaela Costa fez o que poucos executivos no auge da carreira se permitem: parou.
O intervalo, somado a uma imersão de 15 meses em governança e estratégia na Saint Paul Escola de Negócios, redesenhou sua trajetória e a levou à vice-presidência de operações de redes da Ericsson para a América Latina Sul, posto que ocupou até dezembro de 2025, com responsabilidade integral sobre o resultado financeiro do negócio na região.
A história que leva até essa cadeira passa por Lisboa, Madri, a virada cultural da Microsoft sob Satya Nadella e a construção de uma operação inteira do zero na Salesforce. Mas o capítulo decisivo, segundo a própria executiva, foi o menos óbvio de todos.
Antes de chegar à fabricante sueca, ela ocupou a vice-presidência global de Alianças e Parcerias da Pipefy, onde teve atuação estratégica na definição do go-to-market da empresa de automação de processos, com o objetivo de garantir um crescimento sustentável e escalável ao negócio.
Formada em engenharia elétrica pela PUC-Rio, Rafaela começou a carreira na canadense Nortel Networks, no momento em que o Brasil renovava todo o seu parque de telecomunicações. A exposição precoce a projetos de grande escala abriu caminho para um programa de desenvolvimento de líderes que a levou a morar seis anos fora do país.
Primeiro em Lisboa, à frente da operação de Portugal. Depois em Madri, respondendo pelo que a empresa chamava de Europa do Sul: Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Ainda jovem, ela liderava times multiculturais em quatro mercados, uma experiência que descreve como formadora e, ao mesmo tempo, desafiadora para uma mulher brasileira em ambientes pouco diversos.
Diante da ascensão das empresas de software / Cloud model, Rafaela fez um movimento deliberado: aceitou um cargo menor na Microsoft para aprender um mundo que não conhecia, o de cloud. "Eu quis me colocar numa posição de humildade, porque queria buscar coisas novas", diz.
Na companhia, ela testemunhou a troca de comando entre Steve Ballmer e Satya Nadella e a transformação cultural que veio junto, ancorada no conceito de growth mindset. "Ele entendeu que, se não mudasse a cultura, a base, não conseguiria mudar a empresa", afirma.
Rafaela Costa, que foi vice-presidente de operações de redes da Ericsson até dezembro de 2025
A executiva também absorveu ali o que chama de ambidestria: o rigor de medir indicadores a cada trimestre sem perder de vista a estratégia de longo prazo.
O background técnico e a experiência em grandes projetos levaram Rafaela à Salesforce, com a missão de construir e escalar do zero toda a área de serviços profissionais da América Latina.
Sob sua liderança, a região cresceu a uma taxa composta de 60% ao ano durante seis anos fiscais consecutivos, tornando-se a de expansão mais rápida da empresa no mundo. No período, ela foi promovida a vice-presidente de serviços profissionais, uma das primeiras brasileiras a alcançar a posição na América Latina.
"É um bebê. Você construir alguma coisa e ver crescer foi muito bacana", relembra. O projeto, porém, cobrou seu preço. Após mais de uma década intensa entre Microsoft e Salesforce, com viagens constantes, ela decidiu fazer uma pausa na carreira para se reorganizar e repensar os próximos passos.
Foi nesse período de reflexão que Rafaela ingressou no ABP-W, Advanced Boardroom Program for Women, da Saint Paul Escola de Negócios. Ao longo de 15 meses, o programa reuniu mais de 80 executivas em uma formação voltada a conselhos de administração, com módulo internacional na SDA Bocconi, em Milão.
Para ela, o ganho veio em duas frentes. A primeira, o repertório de governança e estratégia.
A segunda, a conexão com mulheres de setores e estados diferentes, fora da bolha da tecnologia em que construiu a carreira.
O novo repertório se converteu em movimento. Na sequência do programa, ela passou a atuar como advisor de startups, liderou a área global de alianças e parceiros da Pipefy e, em 2025, chegou à vice-presidência da Ericsson.
No currículo de Rafaela, a linha que mais explica a chegada ao topo talvez seja justamente a que parece um intervalo.