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A caixinha de música sem tela que lucra driblando o vício digital das telas

Criada pelo empresário britânico Ben Drury, a Yoto virou um dos símbolos do movimento contra telas na infância e hoje soma quase 250 funcionários

Yoto Mini com um cartão da Patrulha Canina inserido na fenda, em destaque para o pixel display e os botões de controle do aparelho (Divulgação)

Yoto Mini com um cartão da Patrulha Canina inserido na fenda, em destaque para o pixel display e os botões de controle do aparelho (Divulgação)

Gustavo Frank
Gustavo Frank

Jonalista colaborador

Publicado em 13 de julho de 2026 às 08h54.

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O empresário digital Ben Drury notou, há cerca de 12 anos, um suporte de iPad embutido na estrutura de um carrinho de bebê à venda numa loja de departamentos em Londres. O episódio, relatado por ele ao New York Times, o levou a questionar se existia alguma tecnologia capaz de estimular o desenvolvimento infantil sem depender de telas. Na mesma época, Drury observou outro problema prático. Com fitas cassete e CDs fora de uso, tocar música para os filhos passava a depender de aplicativos em celulares e tablets sensíveis ao toque, recursos pensados para adultos, não para crianças pequenas.

A resposta encontrada por Drury e pelo sócio Filip Denker foi o Yoto Player, aparelho revestido de borracha que reproduz áudio quando uma criança insere um cartão físico numa fenda, em mecanismo similar ao de consoles de videogame retrô. O projeto nasceu em 2017, como campanha de financiamento coletivo no Kickstarter, e ganhou tração comercial a partir de 2020, no início da pandemia de Covid-19.

Uma empresa lucrativa em meio ao techlash

Yoto Player

O Yoto Player exibe um rosto sorridente no pixel display enquanto lê um cartão de histórias, cercado por outros títulos do catálogo, como sons e podcast (Divulgação)

A Yoto emprega hoje quase 250 pessoas ao redor do mundo e opera no azul. Segundo o New York Times, a empresa registrou cerca de US$ 768 mil em lucro em 2024, o equivalente a R$ 3,94 milhões pela cotação atual, e afirma seguir lucrativa, ainda que não tenha divulgado números mais recentes. O aparelho é vendido em dois tamanhos, o Yoto Mini por US$ 80 (R$ 410) e o Yoto Player por US$ 110 (R$ 564), mas a maior fatia da receita vem da venda de cartões de áudio, comercializados no site da marca e em varejistas como Amazon e Target, a preços entre US$ 7 e US$ 15 (R$ 36 a R$ 77). Um concorrente direto, o Toniebox, também sem tela, tem ganhado espaço no mesmo mercado.

O sucesso comercial da Yoto aparece num momento de forte desgaste da indústria de tecnologia com o público infantil. Nos últimos anos, a preocupação com o tempo de tela e o caráter viciante das redes sociais resultou em proibições de celular em escolas de diversos países e em milhares de ações judiciais contra as grandes plataformas. Em março, um júri da Califórnia considerou Meta e Google responsáveis por projetar produtos de forma a causar dependência, e outro julgamento sobre o tema deve começar em julho. Mais recentemente, empresas de inteligência artificial como OpenAI e Anthropic passaram a ser alvo de ativistas de segurança infantil, preocupados com o efeito de chatbots sobre a educação e a saúde mental de crianças.

"Plataformas construídas sobre algoritmos e vício não são feitas para crianças, são feitas para gerar receita", disse Jim Steyer, executivo-chefe da organização Common Sense Media, ao New York Times.

Cartões que carregam catálogo musical relevante

Cada cartão da Yoto contém uma chave digital que libera o acesso a músicas ou audiolivros armazenados nos servidores da empresa, baixados no aparelho para uso offline. Pais também podem comprar cartões em branco e vincular arquivos próprios. Entre os títulos mais populares estão faixas do filme "KPop Demon Hunters", músicas do Queen e também dos Beatles, um catálogo relevante para uma empresa desse porte, já que a própria Apple levou anos para trazer as canções da banda à iTunes Store por causa de uma disputa envolvendo a marca Apple Corps, companhia fundada pelos músicos nos anos 1960. Um dos investidores da Yoto é justamente Paul McCartney, que Drury conheceu em 2019 por meio de contatos no mercado musical e que se aproximou do projeto também por ter escrito livros infantis.

Antes da Yoto, Drury trabalhou nos anos 1990 como produtor no site musical Dotmusic, mais tarde comprado pelo Yahoo, e fundou em 2004 a 7digital, onde já atuava com Denker no desenvolvimento de aplicativos de música para marcas como BlackBerry, Samsung e HTC. Essa experiência levou os dois a concentrar esforços no software do Yoto Player e manter o hardware simples, com uma fenda para cartões inspirada na observação de que bebês gostam de encaixar objetos dentro de outros objetos, além de dois botões físicos, um para escolha da faixa e outro para volume.

A empresa evita chamar de tela o pequeno display do aparelho, que mostra apenas ícones e imagens em pixel, como um bolo de aniversário associado à música "Birthday", dos Beatles. Ao New York Times, Drury chamou o recurso de "pixel display" e definiu o critério que usa para diferenciá-lo de uma tela convencional. "Poderia mostrar TikTok? Poderia mostrar YouTube? Se a resposta é não, então não é uma tela", afirmou o executivo.

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