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A brasileira que criou uma vitrine para marcas de moda em Paris e Milão

Criado por Marina Spindola, o Runway Vision estreia no Brasil após edições em Paris, Milão e Lisboa

Marina Spindola: fundadora da Runway Vision (Divulgação/Divulgação)

Marina Spindola: fundadora da Runway Vision (Divulgação/Divulgação)

Júlia Storch
Júlia Storch

Repórter de Casual

Publicado em 7 de setembro de 2026 às 11h03.

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Depois de passar por Paris, Milão e Lisboa, o Runway Vision desembarca pela primeira vez no Brasil. Nos dias 16 e 17 de setembro, a plataforma criada pela brasileira Marina Spindola realiza uma edição no Museu de Arte do Rio (MAR). Poucos dias depois, o projeto retorna à França para sua terceira edição em Paris, durante a Paris Fashion Week.

A chegada à capital fluminense marca uma nova etapa para um negócio que nasceu de um problema recorrente observado por Marina ao longo de mais de 15 anos trabalhando com internacionalização de marcas. Fundadora e CEO da RPM Brands, consultoria especializada na expansão internacional de empresas de bens de consumo, ela percebeu que pequenos designers e marcas independentes podiam ter bons produtos e criatividade, mas nem sempre tinham estrutura ou recursos para percorrer sozinhos o caminho necessário para chegar a outros mercados.

Foi dessa lacuna que surgiu o Runway Vision. Em três anos, a plataforma realizou quatro edições internacionais — duas em Paris, uma em Milão e outra em Lisboa —, colocou mais de 20 marcas na passarela e mais de 30 em showrooms e ativações. Apenas a edição parisiense de 2025 reuniu cerca de 400 convidados.

Agora, Marina quer transformar o Brasil em uma parada recorrente desse circuito. “O Brasil é lindo, e eu acredito muito no país. Nasci em São Paulo, mas moro na Europa há mais de 20 anos”, diz. “Vir para o Brasil sempre esteve no nosso radar; para mim, é o passo óbvio. Existe muito talento aqui, muita coisa boa que precisa ser mostrada para o mundo.”

Moda para além das passarelas

Apesar do nome e da proximidade com os principais calendários internacionais da moda, Marina diz que o Runway Vision não pretende ser mais uma fashion week.

A empresa se define como uma plataforma de inteligência internacional de design, organizada em torno de quatro pilares: arte, design, cultura e inovação. A programação pode envolver desfiles, exposições, painéis com especialistas, lançamentos de designers e outras formas de exposição das marcas selecionadas.

A lógica também é diferente da de um showroom convencional, cujo objetivo principal costuma ser a venda. No Runway Vision, segundo Marina, a estratégia começa pela construção de visibilidade e reconhecimento internacional.

“Para nós, a venda é consequência do trabalho que mostramos — acontece naturalmente, porque primeiro damos visibilidade, atraímos mídia e trabalhamos o brand awareness dos designers com quem trabalhamos”, afirma.

Entre os casos citados por ela estão a brasileira Nalimo e o designer Marcello Zantii. A marca participou da edição de Paris em 2025 e retorna neste ano para as etapas do Rio e de Paris. Segundo Marina, a participação na capital francesa trouxe bons resultados, como a capa de uma revista francesa.

O negócio na prática

O trabalho começa antes de o primeiro modelo pisar na passarela. No início de cada ano, o Runway Vision define o conceito e os assuntos que pretende colocar em discussão. A partir daí, começa o chamado brand scouting, processo de busca por empresas, designers e parceiros que se encaixem na proposta daquela edição.

Há duas portas de entrada. Algumas marcas são procuradas diretamente pela plataforma, especialmente aquelas que Marina e sua equipe já acompanham e enxergam potencial para desenvolver no longo prazo. Outras se inscrevem e passam por uma curadoria antes de serem aprovadas.

A participação é paga. Para designers, o investimento começa em 6 mil euros e inclui os custos da operação, como backstage, maquiagem, cabelo, fotografia e filmagem. Antes disso, porém, a empresa precisa se inscrever e ter o perfil analisado pela equipe.

“Nosso objetivo é sempre fazer a marca crescer — se a marca cresce, nós crescemos junto”, diz.
A proposta está diretamente ligada à experiência acumulada pela executiva na RPM Brands. Antes de criar sua própria consultoria, Marina trabalhou por mais de 15 anos com estratégia, implementação de projetos globais e expansão de marcas, incluindo Cartier e Montblanc. Na RPM, o trabalho pode envolver desde startups até empresas consolidadas e ser remunerado por contratos recorrentes, percentual sobre vendas ou outros formatos definidos conforme cada projeto.

A consultoria mantém escritórios em Londres, Genebra, Paris, Lisboa e São Paulo. Os contratos variam de trabalhos pontuais a projetos de 12 a 18 meses e relações de longo prazo para desenvolver franquias e lojas próprias no exterior.

Marc Andrade: estilista pernambucano é um dos nomes que participará da edição no Rio de Janeiro e em Paris (Divulgação/Divulgação)

Internacionalizar não é só exportar

A tese que sustenta os dois negócios é que vender fora do país exige mais do que encontrar um distribuidor. Antes disso, segundo Marina, é necessário analisar concorrentes, comportamento do consumidor, posicionamento, preço, logística, contratos e capacidade operacional.

Ela cita como erro recorrente a participação em feiras internacionais antes de a empresa estar preparada. O investimento no evento, diz, pode acabar desperdiçado quando branding, operação e logística ainda não estão ajustados ao novo mercado.

O mesmo vale para a escolha do país. Empresas brasileiras, segundo Marina, frequentemente enxergam Portugal como uma porta de entrada natural na Europa pela proximidade do idioma. Ela argumenta, porém, que fatores como renda, poder de compra, preço, cultura e concorrência local precisam entrar na decisão.

Há ainda uma camada regulatória. Dependendo do produto, entrar na Europa pode exigir adequação a restrições sobre substâncias, certificações e regras específicas de comercialização.

Na moda, a equação não termina quando o produto chama atenção.

“Um produto bonito vende, mas não garante permanência no mercado”, diz a executiva. Consumidores querem conhecer origem, composição e processo produtivo, enquanto lojistas precisam ter segurança de que pedidos chegarão no prazo e poderão ser repetidos. É daí que vem uma das frases usadas pela executiva para resumir sua visão sobre expansão internacional. “A estética abre a porta. A operação decide se você fica.”

O que o Brasil pode vender ao mundo

Para Marina, as marcas brasileiras possuem atributos capazes de diferenciá-las no exterior, especialmente design, materiais e características associadas à produção autoral.

“A criatividade e o design vêm da nossa essência, da vida que levamos, de como vemos o mundo — e isso não se aprende em nenhuma escola de design”, afirma. “O maior valor está justamente na nossa essência, e quando isso é transmitido ao produto, ninguém consegue copiar.”

Ela também enxerga oportunidades além da moda. Entre as áreas com maior potencial estão wellness, collabs entre marcas e lançamentos de produtos com tecnologia agregada, incluindo maquiagem, produtos capilares e bebidas.

O próximo teste dessa tese será justamente no Rio de Janeiro. Marina afirma que a estreia brasileira está entre as maiores edições já organizadas pelo Runway Vision e pretende reunir tanto novos talentos quanto designers nacionais que já conquistaram espaço fora do país.

A ambição é que a passagem pelo MAR não seja pontual. “Queremos que o Brasil passe a fazer parte do nosso calendário anual e se torne uma referência no mundo da moda internacional”, diz.

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