O descanso ativo tem a ver com abrir espaço para uma nutrição saudável do nosso cérebro (Circle Creative Studio/Getty Images)
Fundadora e Presidente do Conselho Cia de Talentos/Bettha.com
Publicado em 23 de dezembro de 2024 às 15h30.
Por Sofia Esteves, Fundadora da Cia de Talentos, Bettha.com e Instituto Ser+
Assim que vi o anúncio da palavra do ano segundo o dicionário Oxford, lembrei daquela expressão conhecida: você é o que você come. No caso, eu não estava pensando nos nossos hábitos alimentares ou no debate sobre os ultraprocessados, mas na forma que temos nutrido o nosso intelecto.
Para quem não sabe do que estou falando, vou dar um breve contexto. De acordo com uma análise de dados feita anualmente pela publicação britânica, o termo que define 2024 é "brain rot", uma expressão que diz respeito ao esgotamento mental que sentimos em função do consumo excessivo de conteúdo superficial e pouco desafiador, especialmente nas redes sociais.
Da mesma forma que uma alimentação pobre em nutrientes pode causar problemas médicos, uma rotina de consumo de informação rasa impacta negativamente a nossa saúde mental. Só que, nesse segundo caso, não dá para consultar uma pessoa especializada em nutrição ou em endocrinologia para resolver o problema.
Excluir nossas contas em redes sociais ou banir qualquer tela de nossas vidas parece não só uma medida drástica, como ineficiente. Vivemos em um mundo que demanda a nossa presença online — não é todo mundo que pode fazer como Henry David Thoreau e se refugiar em uma cabana à beira de um lago, longe da agitação da sociedade moderna. Foi em um dos livros desse escritor, aliás, que apareceu pela primeira vez o termo "brain rot".
Além disso, demonizar a tecnologia parece uma visão simplista. Sim, precisamos falar sobre o vício em tela, sobre as armadilhas dos algoritmos e tantas outras questões. Contudo, acredito que devemos conversar sobre esse assunto para desenvolvermos maior letramento digital e não para retomarmos o ludismo da época da revolução industrial.
Bem, mas se não podemos — nem devemos — fugir da era da hiper conectividade, como fazemos para estar nela e, mesmo assim, não deixarmos o nosso cérebro “apodrecer”? Porque, convenhamos, nesse fim de ano, é essa a sensação, certo? Parece que os nossos "miolos" estão derretendo...
Na minha opinião, uma nova dieta demanda, antes de tudo, tempo para apreciar “alimentos” de melhor qualidade. Por isso, diante da palavra do ano e de tudo o que temos vivido, eu acredito que será cada vez mais importante o nosso compromisso com o descanso ativo.
Isso porque, em algum grau, parte do problema está na nossa rotina agitada. Da mesma forma que os ultraprocessados se mostraram uma opção prática e rápida para o dia a dia corrido, os vídeos de poucos segundos, posts curtos e memes se tornaram conteúdos mais fáceis de serem digeridos em meio a agitação cotidiana.
De novo, não é que as redes sociais sejam vilãs e devam ser banidas, a questão é quando só nos alimentamos delas porque não temos tempo nem energia para consumir mais nada.
Foi olhando para essa realidade, que o filósofo Alex Soojung-Kim Pang, desenvolveu a tese de que precisamos de intencionalidade nas nossas pausas. Assim como agendamos compromissos de trabalho, precisamos separar um tempo na nossa rotina para simplesmente descansar. E o especialista não está se referindo às horas de sono, muito menos ao movimento do dedo passando pela tela do celular.
O descanso ativo tem a ver com abrir espaço para uma nutrição saudável do nosso cérebro. Não adianta nada ter bons alimentos à disposição, se falta tempo para degustá-los.
Quando estamos com a cabeça relaxada, temos mais disposição para aprender e absorver novos conhecimentos. Uma mente descansada e bem nutrida é não só mais saudável, bem como mais criativa, eficiente e capaz de enfrentar os desafios do mundo contemporâneo com clareza e resiliência.
Por isso, meu conselho é: aproveite o fim do ano para refletir como, em 2025, você pode incorporar as pausas à sua rotina de forma intencional. O segredo, aqui, é descobrir quais atividades realmente nutrem a sua mente, renovam as suas energias e proporcionam um equilíbrio saudável entre trabalho, lazer e aprendizado. Não existe uma dieta milagrosa, você vai precisar descobrir a sua própria receita e testá-la algumas vezes até chegar no ponto certo. Afinal, cozinhar é uma arte — e saber descansar e nutrir a nossa mente também.