Sobrecarga na economia do cuidado invisibiliza mulheres e afeta representatividade (Freepik)
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Publicado em 16 de junho de 2026 às 07h00.
O Bolsa Família paga preferencialmente às mulheres por uma razão. Entender essa razão é entender por que a economia do cuidado ainda sustenta o Brasil às escondidas.
Quando o benefício do Bolsa Família cai na conta, ele vai para a mulher. Não por acaso, mas por política. Desde a criação do programa, em 2003, a titularidade preferencial feminina foi uma escolha deliberada.
Em março de 2025, 83,7% dos lares beneficiados tinham uma mulher como titular, sendo 17,16 milhões de responsáveis, de um total de 20,5 milhões de famílias atendidas.
E quando se olha para todas as pessoas dentro dessas famílias, o número é ainda mais expressivo: 58,3% dos 53,88 milhões de beneficiários são mulheres e meninas.
O programa alcança, direta ou indiretamente, mais de 31 milhões delas. Esse número conta uma história sobre cuidado, sobre quem sustenta o tecido social brasileiro e sobre quanto esse trabalho ainda é tratado como invisível.
Economia do cuidado é o conjunto de atividades que sustentam a vida cotidiana: cozinhar, cuidar de crianças e idosos, limpar, organizar, acompanhar consultas médicas, garantir que a família funcione.
Parte desse trabalho é remunerado, como o das empregadas domésticas, cuidadoras, enfermeiras. Mas a maior parte não é. E é justamente aí que o problema começa.
Segundo a PNAD Contínua 2022 (IBGE), as mulheres brasileiras dedicam em média 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e de cuidado não remunerado.
Os homens, 11,7 horas. São quase 10 horas semanais a mais, todo ano, sem remuneração, sem reconhecimento.
E não se trata de uma minoria: 91,3% das mulheres realizam essas atividades, contra 79,2% dos homens.
Pesquisadoras do FGV IBRE calcularam que, se esse trabalho fosse contabilizado, acrescentaria entre 12% e 13% ao PIB brasileiro, um valor equivalente a toda a economia do estado do Rio de Janeiro.
As mulheres respondem por mais de 65% desse montante. É um setor inteiro da economia. Sem salário, sem previdência, sem reconhecimento.
A escolha de pagar o Bolsa Família preferencialmente às mulheres não nasceu de um compromisso feminista explícito.
A origem foi pragmática: pesquisas indicavam que, quando a renda passa pelas mãos das mulheres, a tendência é que seja mais direcionada para alimentação, saúde e educação dos filhos.
Mas o que começou como uma lógica de eficiência produziu um efeito político não planejado, a autonomia.
O acesso direto à renda amplia o poder de decisão das titulares dentro de casa, fortalece sua percepção de cidadania e, em alguns casos, contribui para sair de situações de dependência, inclusive de violência doméstica.
Há, no entanto, uma tensão que não pode ser ignorada. Hoje, 52 de cada 100 lares brasileiros são chefiados por mulheres - mais de 41 milhões de domicílios, segundo pesquisa da FGV encomendada pelo Fantástico com base em dados do IBGE (2025).
Mesmo sendo a maioria na chefia dos lares, essas mulheres enfrentam maiores taxas de desemprego, ganham menos e estão mais na informalidade.
Ao concentrar o benefício na mulher como "gestora da família", o programa reforça, mesmo que involuntariamente, a divisão de papéis que associa o cuidado à mulher.
A pergunta que precisamos fazer é: o objetivo é que ela administre melhor a pobreza ou que ela tenha condições de superá-la?
Há uma conexão direta entre a sobrecarga de cuidado e a sub-representação política das mulheres.
Quando a maioria das mulheres brasileiras realizam afazeres domésticos e quando muitas delas ainda são as principais responsáveis pelo cuidado de pessoas dentro de casa, estamos falando de uma estrutura que bloqueia acesso ao mercado, à formação, à vida pública.
Política se faz com tempo, renda e presença e os três se tornam escassos para as mulheres que carregam sozinhas a economia do cuidado.
Não é coincidência que as mulheres que chegam a cargos eletivos ou posições de liderança, em sua maioria, contam com redes de suporte que as demais não têm. A desigualdade na política começa muito antes da urna.
Mulheres negras ficam na ponta mais exposta dessa equação. O IBGE aponta que mulheres pretas têm a maior taxa de realização de afazeres domésticos do país: 92,7%.
São também as que mais ocupam os postos remunerados do cuidado: domésticas, cuidadoras, técnicas de enfermagem.
E, segundo dados do FGV IBRE, as mulheres do Nordeste dedicam em média 22,3 horas semanais a esse trabalho não remunerado, a maior carga horária do país, combinando isso com os menores salários da economia. Cuida de todos, é remunerada por quase ninguém.
Reconhecer a economia do cuidado como questão política e não apenas doméstica é o primeiro passo para transformá-la.
Em outubro de 2023, o governo federal lançou o Marco Conceitual da Política Nacional de Cuidados, fruto de um Grupo de Trabalho Interministerial coordenado pelo MDS e pelo Ministério das Mulheres.
Em 2024, o tema avançou ainda mais: a Política Nacional de Cuidados foi instituída como lei, estabelecendo o cuidado como direito de todas as pessoas e responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, sociedade e setor privado.
É um avanço real, mas políticas de cuidado só funcionam se forem acompanhadas de representação: quem cuida precisa ter voz.
A Elas no Poder trabalha com essa convicção.
Preparar e impulsionar mulheres para a participação política não é apenas uma pauta de representatividade, é uma estratégia para que as decisões sobre cuidado, renda e proteção social sejam tomadas por quem vive o problema e não apenas administradas por quem nunca precisou parar para cuidar.
O dinheiro vai para as mulheres porque, historicamente, elas garantem que ele chegue onde precisa.
Mas não basta garantir que elas administrem a sobrevivência. É preciso garantir que elas decidam sobre o futuro.
Enquanto o trabalho de cuidado for invisível nas estatísticas, ausente nas políticas tributárias e ignorado nos debates eleitorais, continuaremos pedindo às mulheres que sustentem a sociedade sem o reconhecimento nem os recursos para isso. E essa conta, cedo ou tarde, chega para todo mundo.
Pétala Augusto é Especialista em Educação e Coordenadora de Gestão de Voluntárias da ONG Elas no Poder.