Por que a mesma pessoa pode ter asma, dermatite atópica e rinossinusite

Estudos recentes apontam que é a inflamação tipo 2 está por trás das enfermidades que compõem a tríade atópica
50% dos pacientes com dermatite atópica e das pessoas que lidam com rinossinusite também têm asma grave 5, 6. (Getty Images/seksan Mongkhonkhamsao)
50% dos pacientes com dermatite atópica e das pessoas que lidam com rinossinusite também têm asma grave 5, 6. (Getty Images/seksan Mongkhonkhamsao)
Por BússolaPublicado em 16/03/2022 18:30 | Última atualização em 16/03/2022 18:04Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Por Herberto Chong*

Você está caminhando na rua de maneira distraída quando, inesperadamente, tropeça e vai ao chão. O resultado é um joelho ralado, dolorido e exposto a agentes estranhos presentes no ambiente. Seu corpo identifica o trauma, entende que o organismo pode estar desprotegido e aciona o sistema de defesa para “corrigir” o problema. Essa é uma resposta natural do corpo humano, denominada inflamação, que promove a recuperação das suas características iniciais, ação que popularmente chamamos de cura 1.

Todavia, quando o indivíduo lida com a inflamação tipo 2 — categoria específica na qual há a participação de células da imunidade inata e adaptativa no processo inflamatório —, a resposta do organismo pode perdurar e acontecer de maneira exagerada, despertando a exacerbação de sintomas incômodos como inchaço, prurido e vermelhidão. Nesse tipo de inflamação, o corpo libera citocinas tipo 2: proteínas mediadoras que causam alterações nas barreiras imunológicas (neste caso, no trato respiratório e na pele) e aumentam a produção de anticorpos tipicamente alérgenos 2, 3 e 4.

Estudos recentes apontam que é justamente a inflamação tipo 2 que está por trás das enfermidades que compõem a tríade atópica: a dermatite atópica, a rinossinusite crônica e a asma 2, 3, 4, que podem se manifestar concomitantemente. Os dados revelam que 50% dos pacientes com dermatite atópica e das pessoas que lidam com rinossinusite também têm asma grave 5, 6, por exemplo.

Na falta do controle adequado dessas doenças, ocorre o agravamento dos sintomas com mais frequência, ao menor contato com partículas alérgenas como poluição, fumaça de cigarro e pelos de animais domésticos. Consequentemente, há uma necessidade maior de hospitalizações, internações e até mesmo de cirurgias — padrão de tratamento da rinossinusite crônica com pólipos nasais na última década —, que consomem grande parte dos recursos de saúde pública.

Tudo isso gera, ainda, alto impacto negativo na qualidade de vida do paciente, levando à redução de interações sociais; à dificuldade para dormir em 90% dos pacientes com rinossinusite crônica 7; à baixa produtividade no trabalho e ao absenteísmo escolar em cerca de 26 dias ao ano por conta dos sintomas da dermatite atópicaviii; além de alterações emocionais e distúrbios psicológicos como ansiedade e depressão, que afetam aproximadamente 50% dos pacientes com asma grave 9.

Ainda não sabemos ao certo o que leva o paciente a manifestar a inflamação tipo 2, mas normalmente é constatado histórico familiar de doenças alérgicas e exposição recente a fatores ambientais alérgenos. A presença desse processo inflamatório tem sido cada vez mais registrada nas últimas décadas devido ao aumento da poluição, do tabagismo e do estresse, todos fatores desencadeantes para a ação do sistema imunológico.

Atualmente, existem tratamentos modernos que agem de maneira mais precisa na inflamação tipo 2 e possibilitam o controle adequado da condição. Estas medicações inibem a sinalização das interleucinas IL-4, IL-5 e IL-13, ou seja, as proteínas responsáveis por promoverem o deslocamento dos eosinófilos (células inflamatórias) da medula óssea para o local da inflamação.

Para que esse tipo de tratamento seja iniciado, é necessário que haja o diagnóstico correto da condição, realizado por um especialista a partir de exames de sangue com análise de marcadores biológicos no caso da asma.

O conhecimento sobre a inflamação tipo 2 nos aproxima da medicina de precisão, do entendimento sobre a relação entre comorbidades e do tratamento individualizado, além de assegurar mais empoderamento do paciente em relação à sua própria saúde e qualidade de vida.

*Herberto Chong é médico pediatra, alergista e imunologista e professor de Pediatria do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná

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