Bússola

Um conteúdo Bússola

Opinião: apesar da IA, a música ainda precisa do homem

Engenheiro de software analisa como a Inteligência Artificial desafia o rigor da música erudita e o papel do erro na construção da arte

Como a IA ainda não é o suficiente para a música (New Africa/Shutterstock)

Como a IA ainda não é o suficiente para a música (New Africa/Shutterstock)

Bússola
Bússola

Plataforma de conteúdo

Publicado em 27 de abril de 2026 às 17h00.

Por João Batista Neto*

Aos 8 anos de idade, eu subia em um palco pela primeira vez segurando um violão erudito. Eu já fazia conservatório há algum tempo e o desafio era enorme para uma criança: executar a BWV 565 de Bach.

Ali, buscando a precisão matemática das notas exigidas por uma peça tão complexa, entendi que a música era uma disciplina de rigor e entrega.

Quase uma década depois, no final dos anos 90, eu me via mergulhado em artigos sobre redes neurais artificiais. No Brasil da internet discada, o acesso à informação tinha um preço:

esperávamos ansiosamente passar da meia-noite para conectar-nos ao custo de um único pulso telefônico. Meu mundo digital eram as BBSs (Bulletin Board Systems), os fóruns primordiais e as salas de IRC.

Naquele silêncio da madrugada, interrompido apenas pelo ruído do modem, eu já estava fascinado por uma lógica que tentava mimetizar o cérebro humano via software, décadas antes de o termo "IA" se tornar um clichê de marketing. Hoje, aos 44 anos, essas duas trajetórias entraram em um contraponto rigoroso.

Toccata

A voz do músico, formada no rigor do conservatório e no suor do palco, olha para o cenário atual com a densidade dramática de uma abertura de Bach.

A música não acontece apenas no resultado estatístico, mas na resistência física da jornada. A BWV 565 no violão não é sobre a perfeição da nota, mas sobre o risco real de errá-la diante de uma plateia.

Na era do pulso único, a dificuldade de conexão dava valor ao que era baixado. No conservatório, a dificuldade da peça dava valor ao artista.

Hoje, a abundância gerada pela Inteligência Artificial ameaça diluir o significado da obra. O que muitos chamam de "eficiência", o músico sente como a erosão do ritual.

Ao automatizar o esforço, corremos o risco de matar a paixão que justifica a arte. Se uma máquina pode gerar uma fuga perfeita sem nunca ter sentido o frio na espinha de um palco, onde fica a glória humana?

A música que não custa nada para ser produzida corre o risco de não valer nada para quem a consome.

Fuga

Em contraponto a esse temor, surge o rigor lógico do desenvolvedor que viu o código amadurecer da escassez das BBSs para a escala global da nuvem.

Sob essa ótica, a IA é o ápice da arquitetura de software: o cravo definitivo. Se Bach vivesse hoje, ele, o mestre da iteração e das estruturas lógicas, estaria fascinado pela possibilidade de testar mil variações harmônicas em segundos.

Precisamos desmistificar a sigla: o GPT (Generative Pre-trained Transformer) faz, em escala, exatamente o que nós, pessoas, fazemos desde que nascemos:

aprendemos e treinamos, depois geramos e transformamos. Quando eu interpretava Bach aos 8 anos, eu era um "transformador generativo pré-treinado": minha interpretação era o resultado de um estudo de teoria e de prática.

A diferença entre a IA na música e o músico não é a natureza da criação, mas a escala e a latência. A tecnologia é a democratização da estrutura da genialidade:

ao aumentarmos o volume, tornamos o produto acessível. É o mercado 101 aplicado à criatividade.

O paradoxo do treinamento

O debate atinge seu ponto mais crítico quando olhamos para o futuro dos dados. Como engenheiro, sei que a Inteligência Artificial depende de vastos volumes de informação humana para aprender a "alma" da música.

Mas, ao escalarmos a criação sintética, estamos inundando o mundo com conteúdo gerado por algoritmos. O risco iminente é o colapso do modelo: um futuro onde IAs serão treinadas com dados gerados por outras IAs.

Nesse cenário, a música perde sua referência biológica e passa a ser o eco de um eco. Sem o input do suor, do erro e da vivência humana, o sistema entra em um loop de degradação, tornando-se uma média estatística estéril.

O desenvolvedor vê um erro de arquitetura; o músico vê o fim da evolução cultural. Se pararmos de alimentar a máquina com a nossa própria humanidade, a máquina não terá nada a nos dizer.

Coda

Nesse contraponto entre eu e eu mesmo, existe uma tensão permanente. Na música, a tensão, como a criada por um acorde maior com sétima menor, é o que impulsiona a obra: ela chama a resolução.

A IA na música é o nosso acorde dominante atual. É uma tensão desconfortável entre a escala matemática e a vulnerabilidade biológica.

A IA nunca errará uma nota por nervosismo, mas também nunca saberá a glória de superá-lo. Afinal, errar é exclusividade daquele que executa; para não errar nunca, basta nunca fazer nada.

A diferença fundamental é que a IA não tem medo de fazer, enquanto nós transformamos o medo e a dor em arte.

No fim, a tecnologia nos entrega o "como", mas o "porquê" ainda é uma propriedade exclusiva do erro, do suor e do tempo humano.

O leitor deve decidir se a IA é como uma "coda" em uma pauta musical ou se a tecnologia vai ser apenas uma ferramenta utilizada enquanto "coda" sua própria vida.

*João Batista Neto é engenheiro de software especialista em meios de pagamentos digitais e palestrante de design de software. Desenvolveu ou participou do desenvolvimento da interface de integração para e-commerce de grandes players de pagamentos digital, como Rede, Cielo, PayU, PayPal, Ebanx, GlobalPayments e vários outros.

Acompanhe tudo sobre:Inteligência artificialMúsica

Mais de Bússola

O que explica a preferência do brasileiro por marketing personalizado

As apostas dos setores de varejo e serviços para o Dia das Mães

Opinião: para destravar startups, é preciso atualizar as leis

Como a inteligência artificial afeta o acesso ao primeiro emprego