Lideranças corporativas enfrentam o desafio de estruturar a governança de IA sem frear a inovação ( DC Studio./Shutterstock)
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Publicado em 6 de julho de 2026 às 10h00.
Por Nicolas Nardolillo, head de marketing enterprise da Zoho Brasil.
A discussão sobre inteligência artificial dentro das empresas mudou de patamar.
Se há poucos anos a principal pergunta era como acelerar a adoção da tecnologia, agora um novo desafio começa a ganhar espaço: a governança tecnológica (ou a falta dela).
Fato é que as ferramentas de IA passaram a fazer parte da rotina de profissionais de diferentes áreas e há muito potencial nessa jornada.
No entanto, tal movimento, muitas vezes ocorre sem depender de projetos formais, aprovações ou grandes investimentos.
Em outras palavras, se o acesso facilitado à soluções generativas e agênticas ampliou a capacidade de inovação das equipes, ele também abriu espaço para uma nova categoria de riscos que nem sempre aparece nos planos de transformação digital, ou nos relatórios da organização.
Não seria incorreto dizer que a tecnologia avança mais rapidamente do que a capacidade de empresas estabelecerem regras, processos e mecanismos de controle.
O resultado é uma adoção massiva, mas desregulada.
Segundo dados da IBM, a utilização de aplicações de IA generativa por funcionários corporativos saltou de 74% para 96% entre 2023 e 2024.
Contudo, mais de um terço deles (38%) admitem compartilhar informações confidenciais de trabalho com ferramentas de IA sem autorização de seus empregadores.
Os dados escancaram o crescimento de um movimento latente na indústria tecnológica, o chamado Shadow AI.
O termo descreve o uso de ferramentas de inteligência artificial sem aprovação formal, supervisão ou conhecimento das áreas responsáveis por tecnologia, segurança da informação e governança.
Na prática, isso inclui desde o uso de contas pessoais para acessar ferramentas de IA até o compartilhamento de documentos internos em plataformas não homologadas ou a criação de automações paralelas fora dos padrões estabelecidos pela empresa.
A tendência amplia a capacidade de experimentação e acelera a inovação dentro das empresas, mas também aumenta o número de aplicações criadas fora dos processos formais de validação e governança.
O avanço do Shadow AI está diretamente relacionado à democratização do acesso à tecnologia.
Ferramentas baseadas em linguagem natural reduziram significativamente as barreiras para criação de soluções digitais.
O crescimento do chamado vibe coding é um dos exemplos mais visíveis desse movimento.
Com o apoio da IA, usuários conseguem criar softwares, integrações e automações descrevendo o que desejam em linguagem natural, sem necessariamente dominar programação.
A preocupação se torna ainda mais relevante à medida que os sistemas de IA evoluem.
A nova geração de agentes inteligentes já executa tarefas, consulta bancos de dados, interage com sistemas corporativos e participa de processos operacionais.
Quanto maior o nível de acesso, maior também o potencial impacto de erros, vazamentos de informações ou decisões tomadas sem supervisão adequada.
Existe ainda uma consequência menos evidente.
Com a rápida adoção de soluções próprias por diferentes áreas, as organizações podem acabar criando um ambiente fragmentado, composto por ferramentas desconectadas, bases de conhecimento paralelas e fluxos de trabalho que operam fora da estrutura oficial da empresa.
O resultado é uma operação mais difícil de monitorar, integrar e escalar.
A resposta para o avanço da IA, contudo, dificilmente passa pela restrição do seu uso.
O desafio das lideranças é construir um ambiente que combine inovação e responsabilidade, oferecendo caminhos seguros para que ao processo de inovação com tecnologia seja utilizada de forma alinhada aos objetivos do negócio.
Isso envolve definir políticas claras de uso, estabelecer critérios para homologação de ferramentas, criar mecanismos de monitoramento e investir na capacitação das equipes.
Também exige uma compreensão mais ampla sobre quais dados podem ser compartilhados, quais processos podem ser automatizados e quais atividades exigem supervisão humana.
A corrida pela inteligência artificial continuará seu movimento acelerado nos próximos anos.
Nesse cenário, a vantagem competitiva estará muito mais na capacidade de transformar inovação em resultado sustentável do que na velocidade de sua adoção.
Afinal, à medida que a IA se torna parte da infraestrutura das organizações, governar bem a tecnologia passa a ser tão importante quanto inovar com ela.