Empresas lideram a transição para a Economia Azul com foco em projetos de longo prazo (anucha sirivisansuwan/Shutterstock)
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Publicado em 10 de junho de 2026 às 10h00.
Última atualização em 10 de junho de 2026 às 15h46.
Por Sylvia Alquéres e Fernando Borensztein*
A Economia Azul vem se consolidando como um caminho promissor para conciliar desenvolvimento socioeconômico, conservação ambiental e inovação.
Enquanto a tradicional Economia do Mar é centrada em setores como energia offshore, portos, pesca e turismo, a Economia Azul amplia essa visão e olha o oceano não apenas como fonte de recursos e meio de transporte, mas também como fonte de resiliência e soluções para os grandes desafios ambientais e climáticos que enfrentamos.
Ela propõe um modelo integrado, baseado em ciência, governança, mitigação climática e uso responsável dos recursos oceânicos.
Diante da complexidade dessa transição, surge uma pergunta central: quem garante a continuidade desse processo ao longo do tempo?
Governos mudam. Prioridades políticas se alternam. Projetos são interrompidos ou redesenhados a cada ciclo eleitoral.
A sociedade civil tem papel fundamental na mobilização e na cobrança, mas nem sempre dispõe de escala e capacidade técnica para implementar soluções estruturais.
Nesse cenário, as empresas emergem como um ator singular.
Empresas que incorporam a sustentabilidade ao seu modelo de negócio tornam-se, na prática, instituições de longo prazo.
As empresas distinguem-se por ter capacidade de execução, acesso à tecnologia e recursos para operar em escala, o que vem de se nortearem pela sustentabilidade do lucro como condição de existência.
São estruturas que atravessam diferentes contextos políticos, econômicos e sociais e, quando bem conduzidas, funcionam como vetores de continuidade.
Na Economia Azul, esse papel é ainda mais evidente.
Projetos de restauração costeira, por exemplo, exigem anos de acompanhamento, monitoramento e ajustes técnicos.
Iniciativas de geração de dados ambientais — fundamentais para gestão e tomada de decisão — demandam investimentos contínuos em tecnologia e capacitação.
O desenvolvimento de cadeias produtivas ligadas ao mar, como cultivo de algas, biotecnologia e bioinsumos, depende de articulação entre ciência, governos, mercado e território ao longo do tempo.
Sem continuidade, esses esforços se perdem. Com continuidade, tornam-se ativos estratégicos.
É exatamente nesse ponto que empresas comprometidas com a agenda ambiental transcendem a mera venda de produtos ou prestação de serviço e constituem-se em reais agentes estruturantes da nova Economia Azul.
Ao investir em monitoramento ambiental, inovação tecnológica e desenvolvimento de soluções baseadas na natureza, elas não apenas respondem a demandas imediatas, mas também ajudam a dar continuidade ao processo de transformação do tecido econômico.
As empresas têm a capacidade de agilmente integrar diferentes dimensões dessa agenda.
Podem conectar ciência e operação, transformar dados em decisões, e estruturar projetos que dialoguem com investidores, governos e comunidades.
Essa posição intermediária, entre o conhecimento técnico e a execução prática, é essencial para destravar iniciativas que, de outra forma, permaneceriam no campo das intenções.
Isso não significa substituir o papel do poder público ou da sociedade civil.
Pelo contrário: a Economia Azul só se concretiza quando há alinhamento entre esses diferentes atores.
Mas, em um cenário de alta complexidade e necessidade de visão de longo prazo, são as empresas que frequentemente garantem a estabilidade necessária para que essa agenda avance.
A verdadeira transformação ocorre quando empresas entendem que sustentabilidade não é um custo, mas um eixo estratégico capaz de gerar valor, reduzir riscos e abrir novas oportunidades de negócio.
Nesse momento, deixam de reagir a pressões externas e passam a liderar movimentos.
Em um mundo cada vez mais impactado pelas mudanças climáticas e pela degradação dos ecossistemas, essa liderança deixa de ser desejável e torna-se essencial.
A Economia Azul, nesse sentido, não será definida apenas por políticas públicas ou compromissos internacionais, mas pela capacidade das empresas de assumirem um papel ativo, consistente e de longo prazo.
Nesse sentido as empresas engajadas não apenas participam dessa transformação, mas são as estruturas que a sustentam.
*Sylvia Alqueres é PhD e Especialista em Economia Azul da OceanPact
*Fernando Borensztein é Diretor de Novos Negócios e Sustentabilidade da OceanPact