(Magnific/Reprodução)
Redatora
Publicado em 20 de julho de 2026 às 16h59.
Receber uma sequência de respostas negativas ao procurar emprego pode não significar que diferentes empresas avaliaram um candidato de maneira independente. Um estudo liderado por pesquisadores ligados à Universidade Stanford identificou que organizações atendidas pelo mesmo fornecedor de inteligência artificial podem repetir critérios e resultados, fazendo com que determinados profissionais sejam rejeitados em várias seleções.
Batizado de “Algorithmic Monocultures in Hiring”, o levantamento analisou 4 milhões de candidaturas feitas por 3,4 milhões de pessoas a vagas de 156 empregadores, distribuídos por 11 setores. Todas as inscrições foram avaliadas por algoritmos desenvolvidos por um único fornecedor.
A expressão “monocultura algorítmica” é usada para descrever um mercado no qual diferentes empresas dependem dos mesmos sistemas para avaliar candidatos.
A comparação vem da agricultura. Cultivar uma única espécie em larga escala pode gerar eficiência, mas também amplia a vulnerabilidade: uma falha deixa de ser isolada e passa a atingir toda a produção.
No recrutamento, o risco aparece quando várias organizações usam modelos iguais ou muito parecidos. Uma limitação do sistema, um critério inadequado ou uma avaliação desfavorável pode se repetir em diversas vagas que, para o candidato, pareciam representar oportunidades independentes.
O estudo encontrou evidências do que os autores chamam de “rejeição sistêmica”. Entre os candidatos que se inscreveram em quatro vagas, cerca de 10% foram rejeitados em todas. Entre aqueles que disputaram dez posições, 4% receberam dez recomendações negativas consecutivas.
A frequência foi superior à que seria esperada caso cada processo tomasse uma decisão totalmente independente. Quando empresas diferentes compartilhavam o mesmo modelo, o candidato podia receber uma pontuação idêntica em mais de uma seleção.
Isso não significa que toda sequência de negativas seja causada por inteligência artificial. A pesquisa analisou um sistema específico, baseado em avaliações digitais, e os próprios autores alertam que os resultados não podem ser automaticamente estendidos a todos os tipos de triagem, como ferramentas que leem currículos.
Os pesquisadores também encontraram disparidades raciais nos resultados. Cerca de 25,87% das candidaturas de pessoas negras e 14,74% das inscrições de pessoas asiáticas foram enviadas a posições nas quais o sistema produziu impacto adverso contra esses grupos, segundo critérios utilizados na legislação trabalhista dos Estados Unidos.
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O estudo não afirma que todas as pessoas desses grupos foram rejeitadas, nem que a ferramenta utilizava diretamente a raça para tomar decisões. A conclusão é que os resultados, quando analisados vaga por vaga, mostraram diferenças relevantes nas taxas de recomendação.
O estudo coloca em discussão não apenas a qualidade de um algoritmo, mas a concentração do mercado. Quando um pequeno grupo de fornecedores atende muitas organizações, a decisão de uma única tecnologia pode afetar milhares de trajetórias profissionais.
Os pesquisadores defendem mais acesso a dados, análises independentes e avaliações capazes de identificar falhas e disparidades antes que elas se espalhem. Hoje, a falta de transparência das plataformas ainda limita esse acompanhamento.
Para as empresas, o alerta é que eficiência não deve significar dependência cega da automação. Processos seletivos precisam combinar tecnologia, supervisão humana e critérios relacionados às exigências reais do cargo.
Para os candidatos, uma sequência de recusas não deve ser automaticamente interpretada como prova de falta de capacidade. Ela pode revelar pontos a melhorar na candidatura, mas também pode refletir uma lógica automatizada repetida entre empregadores.
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