Tecnologia e análise de crédito alternativa impulsionam a inclusão financeira no Brasil (PeopleImages/Shutterstock)
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Publicado em 23 de abril de 2026 às 15h00.
Por Rafa Cavalcanti*
O sistema de crédito brasileiro ainda opera olhando apenas para o passado.
Histórico bancário, comprovantes de renda formal, garantias: os critérios clássicos de análise de crédito que foram construídos para avaliar quem já tem uma trajetória financeira registrada.
O problema é que esse modelo estrutural deixa de fora milhões de pessoas — não porque representem alto risco, mas simplesmente porque não há dados para analisar.
Segundo a Serasa Experian, 35,3 milhões de brasileiros, o equivalente a 21,7% da população adulta, não possuem qualquer registro financeiro vinculado ao CPF.
São os chamados thin files: arquivos finos, históricos vazios". O dado que mais chama atenção, porém, é que 80,5% dessas pessoas sequer estão negativadas. Não se trata de inadimplentes. São invisíveis.
Esse grupo tem um perfil claro: trabalhadores informais, jovens em início de trajetória e pessoas que sempre operaram fora do sistema bancário.
Para o modelo tradicional, simplesmente não existem.
O paradoxo é que a informalidade no Brasil não é exceção, é estrutura.
Segundo o IBGE, mais da metade da força de trabalho no país está em ocupações informais ou vulneráveis.
Um sistema de crédito que ignora esse contingente não é apenas uma falha de inclusão financeira: é uma leitura equivocada da realidade econômica do país.
A lógica do score foi desenvolvida para reduzir a incerteza a partir de padrões históricos.
Por um lado, faz sentido, até o ponto em que a ausência de dados passa a ser tratada como dado negativo.
Quando não há histórico, os modelos convencionais recuam. A resposta padrão é a recusa ou a oferta de crédito com condições proibitivas.
O que esse mecanismo ignora é que comportamento financeiro responsável pode existir mesmo sem registro formal.
Pessoas que nunca atrasaram um aluguel ou que mantêm disciplina no orçamento doméstico demonstram capacidade de pagamento — ainda que isso não esteja registrado em bureaus de crédito.
Quando se decide conceder crédito a esse público, os aprendizados vêm rápido e desfazem muitos pressupostos.
O primeiro deles é que a ausência de histórico não equivale a risco elevado.
Em nossa experiência, 22% dos créditos concedidos foram para pessoas sem qualquer dado financeiro e sem anterior acesso ao crédito formal.
Grande parte desse grupo, quando perguntado sobre alternativas caso fosse reprovado, respondia que não teria como conseguir o dinheiro de outra forma, ou que recorreria a familiares e amigos.
O crédito formal era, literalmente, a única saída estruturada disponível.
O segundo aprendizado é sobre comprometimento.
Esse público costuma tratar o crédito com uma seriedade que surpreende quem está acostumado a trabalhar com clientes de histórico consolidado.
A lógica é compreensível: para quem nunca teve acesso e sabe que qualquer deslize pode fechar a porta de novo, honrar o compromisso é prioridade.
Não raramente, o pagamento acontece antes do prazo.
O terceiro aprendizado é sistêmico: o acesso ao mercado de crédito transforma a relação dessas pessoas com o sistema financeiro como um todo.
Ter uma parcela para pagar todo mês cria previsibilidade. Obriga a organização do orçamento. Gera histórico.
E esse histórico, por sua vez, abre novas possibilidades — conta bancária, seguro, financiamento habitacional.
O crédito inicial não é apenas um produto: é uma porta de entrada.
Seria desonesto apresentar esse cenário sem reconhecer suas dificuldades.
O risco percebido é mais alto, e parte disso se justifica, especialmente no início da relação, quando há menos dados disponíveis para calibrar a análise de crédito.
A inadimplência inicial tende a ser mais elevada, não necessariamente por má-fé, mas por falta de familiaridade com o funcionamento do crédito.
Educação financeira não é acessória nesse contexto: é parte embutida do produto.
Há também uma resistência do próprio mercado em reconhecer a robustez de metodologias alternativas de fintechs de crédito.
Modelos baseados em comportamento — que observam padrões de tomada de decisão, consistência de informações, atitude diante do risco e outros sinais não financeiros — ainda são vistos com ceticismo por boa parte do setor.
A lógica dominante segue sendo a do dado histórico e quantitativo, e questionar essa lógica exige não apenas tecnologia, mas disposição para rever premissas.
O mercado tende a confundir "diferente" com "menos confiável", quando na prática o que está em jogo é simplesmente uma outra forma de enxergar o mesmo problema: quem tem condições de honrar um compromisso financeiro.
Não podemos construir um sistema financeiro mais eficiente olhando apenas para quem já está dentro dele.
Aprender com quem nunca teve crédito é uma opção de entender o que o crédito pode — e deve — fazer.
Incluir novos perfis no sistema de crédito é ampliar o mercado. É criar consumidores mais organizados financeiramente. É aprender com comportamentos que os modelos convencionais nunca tiveram como analisar.
*Rafa Cavalcanti é cofundadora e CEO da CloQ, startup brasileira que oferece nano-crédito com transparência, rapidez, flexibilidade nos dias de pagamento, juros justos e atendimento humano.