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Mineiros criam plataforma "all in one” para clínicas e miram 1000 clientes

Startup mineira mira 1.000 clínicas em um mercado endereçável de mais de 70 mil operações; saúde digital brasileira pode chegar a US$ 21,9 bilhões até 2030

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Publicado em 17 de setembro de 2026 às 09h49.

Última atualização em 17 de setembro de 2026 às 09h59.

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As clínicas médicas brasileiras aprenderam nos últimos anos a gerar demanda. Investiram em anúncios, redes sociais, marketing de conteúdo e outras formas de levar potenciais pacientes até seus canais de atendimento. O problema começa depois.

Em muitas clínicas, o paciente que chega pelo Instagram ou pelo Google termina no WhatsApp, onde ainda encontra uma operação essencialmente manual: alguém precisa responder, entender o que ele procura, apresentar os serviços, marcar uma consulta e, muitas vezes, voltar a falar com quem não tomou uma decisão imediatamente.

Quando isso não acontece, o lead simplesmente desaparece.

Foi nesse intervalo entre a geração da demanda e a conversão em paciente que Bruno Henrique e Lucas Assis encontraram uma oportunidade de negócio.

Os dois são os fundadores da Healo, startup mineira que desenvolveu uma plataforma para automatizar a operação comercial de clínicas usando agentes de inteligência artificial. A tese nasceu antes do software: por meio da Groohub, empresa dos sócios, eles participaram de 175 implementações em clínicas ao longo de três anos.

Segundo os empreendedores, nenhuma dessas operações tinha um CRM comercial estruturado no início do trabalho. Em boa parte delas, o WhatsApp concentrava o relacionamento com potenciais pacientes. Quando havia um CRM, geralmente era uma ferramenta genérica adaptada à realidade da clínica.

“Percebemos que as clínicas aprenderam a gerar demanda, mas ainda existe uma grande oportunidade de profissionalizar o que acontece depois que essa demanda chega”, diz Lucas Assis, cofundador da Healo.

A oportunidade é grande. O Brasil tem cerca de 340 mil clínicas médicas ambulatoriais ativas, segundo os dados utilizados pela companhia a partir da Receita Federal. Pouco mais de 70 mil possuem estrutura própria para procedimentos ou exames — grupo que está mais próximo do mercado que a Healo pretende atender.

Se alcançar a meta estabelecida pelos fundadores, de chegar a 1.000 clínicas nos próximos anos, a empresa terá conquistado cerca de 1,4% desse universo.

O mercado maior também está em expansão. Segundo dados utilizados pela Healo em seu planejamento, o mercado brasileiro de saúde digital foi estimado em US$ 6,34 bilhões em 2024 e pode alcançar US$ 21,9 bilhões até 2030.

Não é, portanto, uma aposta em um mercado que ainda precisa ser criado. A questão é qual camada da operação das clínicas ainda pode ser digitalizada.

O CRM que faz alguma coisa

É nesse ponto que a Healo tenta se diferenciar.

Os softwares tradicionais para clínicas nasceram principalmente para organizar a operação: agenda, prontuário, cadastro, faturamento e informações financeiras. A Healo começa em outro ponto da jornada — o momento em que uma pessoa demonstra interesse em se tornar paciente.

O produto tem como núcleo o chamado Sistema TRIA, uma arquitetura de múltiplos agentes de IA organizada em quatro funções: Triagem, Resposta, Inteligência e Análise.

Na prática, a plataforma pode atender e qualificar pacientes, realizar agendamentos, interpretar conversas e registrar automaticamente as informações no CRM. A proposta é reduzir o trabalho operacional da equipe e, ao mesmo tempo, transformar as conversas em dados para a gestão.

A diferença está menos em ter um chatbot e mais em transformar o atendimento em uma operação estruturada.

“Não queríamos construir apenas uma IA de atendimento para clínicas. A nossa visão é fazer o CRM deixar de ser um sistema passivo, que depende da equipe para tudo, e começar a participar efetivamente da operação”, afirma Bruno Henrique, CEO da empresa.

A tese acompanha uma mudança mais ampla no software empresarial: a inteligência artificial começa a sair do papel de ferramenta que apenas responde perguntas para assumir etapas de processos.

No caso da Healo, o processo é a conversão de um potencial paciente em paciente.

O WhatsApp virou o balcão da clínica

A escolha do canal ajuda a explicar o negócio.

O WhatsApp já é uma infraestrutura comercial no Brasil. Segundo o Sebrae, 82% dos pequenos negócios apontam o aplicativo como principal ferramenta de comunicação e vendas. Em outra pesquisa da entidade, realizada com mais de 1.300 empresas de serviços, mais de 80% disseram utilizar o WhatsApp como principal meio de comunicação com clientes. Ao mesmo tempo, a importância atribuída ao CRM não chega a 10% dos negócios pesquisados e fica em apenas 2% no Sudeste.

É justamente essa combinação que interessa à Healo: um canal amplamente adotado, mas ainda pouco estruturado como sistema de gestão comercial.

Na saúde, a conversa pode determinar se um potencial paciente agenda ou não. Perguntas sobre preço, disponibilidade, especialidade, localização, duração do procedimento e formas de pagamento fazem parte do processo de decisão.

A Healo pretende automatizar parte dessa jornada.

A plataforma prevê integração com a API oficial do WhatsApp, calendários e modelos de inteligência artificial, além de funis e dashboards desenvolvidos a partir da experiência acumulada pelos fundadores no setor.

A oportunidade aparece em um momento de aceleração das healthtechs brasileiras. Em janeiro de 2025, havia 602 healthtechs ativas monitoradas pela Liga Insights. Gestão de processos era a categoria de 48% delas, enquanto 21% já utilizavam inteligência artificial em suas soluções. Em 2024, as healthtechs receberam R$ 799 milhões em investimentos distribuídos em 40 deals.

A Healo, portanto, não está entrando em um mercado vazio. Está tentando ocupar uma lacuna específica dentro de uma indústria que já passou por uma primeira onda de digitalização.

A conta começa pela secretária

Os fundadores usam uma comparação direta para dimensionar a oportunidade.

Segundo a empresa, uma atendente contratada pelo regime CLT representa um custo mensal de R$ 3,1 mil a R$ 3,6 mil, incluindo encargos. O plano da Healo baseado em inteligência artificial custa aproximadamente um terço desse valor.

A comparação ajuda a explicar a proposta econômica, mas o produto não depende necessariamente de substituir uma secretária.

O argumento mais relevante é aumentar a capacidade da equipe. Uma IA pode responder perguntas recorrentes, organizar informações, fazer triagens, identificar oportunidades e acompanhar contatos que, de outra forma, poderiam ficar esquecidos.

Para uma clínica que investe para gerar cada novo lead, perder o paciente na etapa seguinte significa desperdiçar parte do investimento feito para conquistá-lo.

A tese da Healo é que o atendimento, antes tratado como função administrativa, começa a ser uma variável de crescimento.

De 175 implementações a 1.000 clínicas

A experiência anterior dos fundadores é um dos principais ativos da empresa.

Bruno Henrique é engenheiro formado pela UFMG, com passagem por consultoria empresarial e experiência como empreendedor. Lucas Assis é contador e atua há sete anos com marketing médico e vendas. A combinação dos dois colocou tecnologia, gestão, aquisição e conversão de pacientes no centro da tese da empresa.

As primeiras clínicas da Healo vieram da carteira da própria Groohub, que atualmente possui 63 clientes ativos. Agora começa uma etapa diferente: provar que o produto pode deixar de depender da relação anterior dos fundadores com as clínicas e ganhar escala como uma empresa de software.

A meta é chegar a 1.000 clínicas nos próximos anos.

O número parece ambicioso, mas representa uma pequena parcela do mercado endereçável estimado pela própria companhia. O desafio, portanto, não é apenas comercial. É transformar uma solução construída a partir de conhecimento operacional em um produto replicável.

Essa é uma diferença importante entre uma empresa de serviços e uma empresa de tecnologia.

A ambição vai além do atendimento

A Healo não pretende permanecer como uma ferramenta de atendimento.

A visão de longo prazo é transformar a plataforma em uma assinatura única capaz de cobrir atendimento, agenda, relacionamento com o paciente, prontuário e financeiro. O objetivo declarado pelos fundadores é fazer da Healo o “sistema de IA padrão das clínicas médicas no Brasil”.

É uma ambição significativamente maior do que o produto atual.

Começar pela operação comercial pode ser uma forma de entrar na clínica por uma dor facilmente mensurável: quantos leads chegaram, quantos foram atendidos, quantos agendaram e quantos foram perdidos.

A partir daí, a empresa pode tentar ampliar sua presença para outras partes da operação.

O movimento tem lógica econômica. Quanto mais processos críticos estiverem dentro de uma plataforma, maior tende a ser o valor gerado por cliente e maior o custo de substituição do sistema. Mas também aumenta a complexidade do produto, das integrações e dos requisitos de segurança e governança de dados — particularmente sensíveis no setor de saúde.

É esse o principal teste da tese.

A Healo precisa mostrar que consegue fazer mais do que automatizar conversas. Precisa provar que a inteligência artificial consegue participar de uma operação comercial de maneira confiável, gerar retorno mensurável para a clínica e, a partir daí, conquistar espaço em outras etapas da gestão.

“Durante muito tempo, o atendimento foi tratado como uma função administrativa. À medida que as clínicas se profissionalizam, ele passa a ser parte da estratégia de crescimento”, diz Lucas.

Para a Healo, essa mudança começa no WhatsApp.

A ambição é que termine transformando a maneira como uma clínica inteira opera.

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