O uso de IA na educação ajuda a combater o endividamento e acelerar carreiras (Inside Creative House/Shutterstock)
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Publicado em 4 de agosto de 2026 às 10h00.
Por Paula Drumond Guedes, empreendedora e fundadora da Jobzi.
Nos EUA, empréstimos estudantis financiados pelo pagador de impostos (equivalente ao FIES) precisam garantir expectativa de retorno financeiro positivo ao aluno que faz o curso já a partir do dia 1 de julho de 2026.
Após 70 anos, as regras que tornam os cursos elegíveis para financiamento público mudam pela primeira vez.
Isso é consequência de um movimento estruturante feito pelo governo atual, que passa a atribuir a responsabilidade da operacionalização das dívidas estudantis ao Departamento do Tesouro, e não mais ao Departamento de Educação.
Com aproximadamente 43 milhões de pessoas com dívida pública estudantil, essas mudanças terão impactos significativos - inclusive eleitorais.
A nova lei exige que a instituição de ensino comprove que o aluno terá resultados financeiros favoráveis para que cursos sejam elegíveis a financiamento público.
De acordo com artigo do Wall Street Journal "New Student Loan Rules Are Poised to Amp Up Pressure on Colleges", essa regra tem o potencial de desacreditar mais de 3.200 programas educacionais nos Estados Unidos.
O normativo vem de encontro à realidade brutal e inconveniente: a dívida estudantil tornou-se uma ameaça iminente às contas públicas.
Nos EUA, ela representa mais de 1.8 trilhões de dólares, atrás apenas do financiamento imobiliário e de automóveis.
Por lá, 10% das dívidas estudantis públicas estavam inadimplentes em dezembro de 2025 – um número 10x acima das dívidas do setor privado.
No Brasil, os números são um pouco diferentes, mas não menos expressivos.
A dívida acumulada do programa de financiamento estudantil pressiona o orçamento federal e coloca em xeque a viabilidade da política pública, já tendo passado de R$120 bi - correspondentes a aproximadamente 1.6 milhões de contratos ativos insolventes.
Assim, quase 2 em cada 3 estudantes beneficiários do programa não conseguem pagar o que devem.
Segundo a Pesquisa de Inadimplência no Ensino Superior Privado (2025), a inadimplência ainda durante o curso acontece em cerca de 60% dos casos, por perda de emprego ou redução da renda.
Após formados, o panorama não é melhor e a baixa empregabilidade é a principal razão.
Outro fator complicador é a transformação digital do mercado de trabalho impulsionada pela IA, que vem deixando muitos de fora dos novos ganhos de produtividade da economia como um todo - o chamado "jobless boom".
Seja pela automação, pelo potencial de demissões massivas ou pela diminuição de contratações, a IA mudou estruturalmente o mundo do trabalho.
No entanto, a mesma tecnologia é aliada para proteger e avançar a produtividade humana.
Por meio de ferramentas de IA, é possível compreender a escassez de habilidades no mercado em tempo real e de forma dinâmica, possibilitando um mapeamento preciso de gaps entre a formação de estudantes e as habilidades necessárias na carreira por meio de uma requalificação contínua - de forma análoga a uma plataforma de mobilidade que calcula, de forma preditiva, as melhores rotas para o destino almejado.
Ao conectar as necessidades de mercado e diretrizes curriculares, a IA deixa de ser um fator de risco e passa a atuar como um motor de empregabilidade e de competitividade econômica. Isso é muito relevante - e não somente no mercado brasileiro.
De forma semelhante ao espírito da lei americana recém-editada, acreditamos que o retorno do investimento educacional deve ser positivo ao aluno.
A educação é o mais importante veículo para ascensão social, sob a condição de que o aluno não se endivide além de sua capacidade futura de renda.
Também vemos as plataformas de gig-economy como uma oportunidade única de contribuir para o avanço de seus colaboradores, dada a confiança já conquistada por elas na casa de cada brasileiro, na dimensão de trabalho e renda.
Dado o alcance e dinamismo do Brasil, acreditamos ter as melhores práticas para trocar com outros países que tentam endereçar a mesma questão: a produtividade humana em escala.
Questão não somente econômica, mas da mais profunda reflexão, levantada inclusive pelo Papa Leão XIV: onde fica a dignidade humana na ausência de um propósito produtivo?