Combater a desigualdade é condição para que avanços econômicos se convertam em desenvolvimento sustentável e prosperidade compartilhada. (C. Fernandes/Getty Images)
Diretor-geral da Beon - Colunista Bússola
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 10h00.
No debate contemporâneo sobre sustentabilidade corporativa, é muito comum que a atenção do público e das lideranças se volte quase exclusivamente para a emergência climática. No entanto, poucas coisas são tão essenciais e tão urgentes quanto o centro da agenda: as pessoas.
Afinal, a própria fundação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) se apoia no princípio de atender às necessidades das gerações atuais sem comprometer as gerações futuras.
Mas como falar em um futuro viável e em prosperidade compartilhada quando o presente ainda é marcado por abismos sociais tão violentos?
Os dados do mais recente relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades, divulgados agora em agosto de 2026, nos oferecem um retrato indigesto desse paradoxo.
À primeira vista, os indicadores macroeconômicos trazem motivos para celebrar, apontando redução no desemprego, melhora de 5,3% na renda média da população e queda na proporção de domicílios com insegurança alimentar.
Contudo, sob a superfície dessas aparentes vitórias, a concentração de riqueza resiste. O estudo revela que o 1% mais rico do Brasil concentra uma renda 31,5 vezes maior do que a metade mais pobre da população.
O crescimento é baixo e seus frutos continuam sendo distribuídos de forma brutalmente assimétrica.
Como temos argumentado, não há progresso real nem desenvolvimento sustentável quando marcadores históricos de desigualdade ditam quem tem direito a uma vida digna.
O relatório escancara que as mulheres negras amargam o patamar mais baixo no mercado de trabalho, recebendo um valor que é pouco mais da metade do rendimento de homens não negros.
Esse mesmo recorte perverso reflete-se na segurança alimentar: a fome e a insegurança moderada ou grave atingem 10% das mulheres negras, o dobro do percentual observado entre as mulheres não negras.
Fica claro, portanto, que a privação é o resultado direto do racismo estrutural crônico e de uma exclusão territorial severa.
A centralidade do problema da desigualdade para o avanço dos ODS reside no fato de que disparidades tão extremas funcionam como freios estruturais de toda a agenda.
Essas fraturas criam tensões sociais profundas que dificultam, e muitas vezes inviabilizam, a coordenação necessária para enfrentar desafios comuns.
Pautas globais, como a transição climática e a resiliência das cadeias produtivas, dependem de coesão social.
Quando a maior parte dos recursos e das garantias de bem-estar fica represada nas mãos de uma fração minúscula da sociedade, esgarçamos o tecido social a um ponto de ruptura, o que piora os impactos em cascata de qualquer crise, seja ela climática, econômica ou social.
É preciso reafirmar que as pessoas estão no começo, no meio e no fim de qualquer estratégia ESG autêntica.
A mitigação das emissões de carbono, o uso eficiente de recursos e a proteção da biodiversidade são inadiáveis, mas o objetivo último delas é garantir que a Terra seja um ambiente habitável e próspero para a humanidade.
Se nos esquecermos do componente humano e naturalizarmos a injustiça nas relações sociais e produtivas, corremos o risco de reduzir o conceito de sustentabilidade a um mero gerenciamento técnico de externalidades.
O mundo corporativo, juntamente com o Estado, tem um papel incontornável nesse cenário.
Iniciativas como a isenção de imposto de renda para faixas salariais menores – citada no próprio relatório como um passo que amplia a capacidade redistributiva – mostram a força das políticas públicas.
Do lado das empresas, entretanto, precisamos urgentemente avaliar como nossas práticas de contratação, desenvolvimento, remuneração e seleção de fornecedores reproduzem ou combatem a desigualdade.
Sustentabilidade não é acidente; ela se faz com intenção, realização e impacto medido.
Encarar a desigualdade como um risco material de primeira ordem para os negócios e para a nossa sobrevivência como civilização é o único caminho pragmático.
Tomando emprestada a lição de Tom Jobim, é impossível ser feliz sozinho.
Em um ecossistema econômico interligado, a privação prolongada de muitos nunca será capaz de sustentar o sucesso de poucos.
Para alcançar o destino que desenhamos para 2030, não podemos aceitar que a maior parte da sociedade fique para trás logo na linha de partida.