*Por Thais Scharfenberg
A América Latina e o Caribe vivem um cenário de contrastes no avanço da Agenda 2030. Enquanto alguns indicadores apontam progressos consistentes, especialmente na área de energia limpa, outros revelam entraves estruturais que comprometem o desenvolvimento sustentável da região.
Esse foi o tom da 9ª edição do Fórum dos Países da América Latina e Caribe sobre o Desenvolvimento Sustentável, realizada na última semana em Santiago, no Chile, na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU).
O encontro reuniu representantes de governos, organismos internacionais, setor privado, academia e sociedade civil para avaliar os avanços e desafios no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Durante o evento, foi apresentado o relatório "A Agenda 2030 na América Latina e no Caribe: Acelerando a Implementação em uma Nova Era de Incerteza e Fragmentação Geopolítica", que evidencia o ritmo desigual de progresso entre os países.
Os dados são contundentes. Na América do Sul, apenas 19% das metas dos ODS estão avançadas. Na América Central, o índice é de 18%, enquanto o Caribe apresenta apenas 13%. De forma geral, apenas 40% das metas da Agenda 2030 têm potencial de serem alcançadas até 2030.
Em contrapartida, a porcentagem de indicadores estagnados ou em retrocesso é alarmante: 39% na América Central, 41% na América do Sul e 45% no Caribe, evidenciando desafios estruturais comuns à região.
Um dos pontos mais críticos apontados no relatório é o desempenho do ODS 9: Indústria, Inovação e Infraestrutura. Até o momento, nenhuma meta desse objetivo foi integralmente alcançada na região.
O cenário reflete um processo de desindustrialização, com baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento, lacunas logísticas significativas e perda de competitividade industrial e tecnológica.
O presidente do Instituto Selo Social, Fernando Assanti, que integrou a delegação brasileira no Fórum, destaca que esse cenário não é isolado e reflete desafios históricos. "Os dados do último Relatório Luz, que acompanha o progresso dos ODS no Brasil, já indicavam que o desenvolvimento industrial segue impactado por fatores estruturais como altas taxas de juros, restrição ao crédito, aumento das importações e a ausência de uma política industrial consistente e integrada", afirma.
Em contraste, o ODS 7 (Energia Limpa e Acessível) aparece como o principal destaque positivo da região. A América Latina avançou significativamente na quase universalização do acesso à eletricidade e na ampliação do uso de fontes renováveis, com o Brasil ocupando posição de liderança nesse cenário.
No entanto, especialistas alertam que ainda são necessários avanços em eficiência energética e na consolidação de uma transição energética completa para garantir o cumprimento das metas até 2030.
Para Assanti, o desafio central está na capacidade de equilibrar esses avanços com uma agenda econômica estruturada.
"O progresso em energia limpa é um ativo estratégico para a região, mas ele precisa estar acompanhado de uma política de desenvolvimento industrial sustentável. Sem isso, corremos o risco de ampliar desigualdades e limitar o potencial de crescimento econômico de longo prazo", avalia.
A edição deste ano do Fórum teve como foco central os ODS 6 (Água Potável e Saneamento), 7 (Energia Limpa e Acessível), 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura), 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e 17 (Parcerias e Meios de Implementação), reforçando a necessidade de integração entre políticas públicas, investimentos e cooperação internacional.
No documento acordado pelos governos, os países participantes apresentam recomendações sobre cerca de vinte questões de relevância global e regional, como financiamento para o desenvolvimento, a situação dos países de renda média, os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, o comércio internacional, a transformação digital, o desenvolvimento social, a migração, a igualdade e inclusão social e as mudanças climáticas, entre outras.
Ao final do encontro, ficou evidente que o avanço da Agenda 2030 na América Latina e Caribe dependerá de uma combinação entre inovação, articulação multissetorial e, sobretudo, decisões estruturais capazes de enfrentar desigualdades históricas.
Nesse contexto, o papel de iniciativas que conectam impacto social, desenvolvimento local e estratégias ESG tende a se tornar cada vez mais central para o futuro da região.
*Thais Scharfenberg é internacionalista e especialista de desenvolvimento sustentável
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