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GEEKONOMY: O Superman é bissexual. Estragaram o personagem?

Expectativas escancaram crítica seletiva para produções da cultura pop que abraçam causas progressistas como representatividade, diversidade e inclusão

Por Cauê Madeira *

Quais foram os piores filmes que você já viu na vida? Por acaso nesse feriado esbarrei com uma lista das 100 piores produções cinematográficas no ranking do Rotten Tomatoes, um dos principais agregadores de opinião de críticos de cinema e da própria audiência em geral.

Senti falta de clássicos do cinema ruim como Batman & Robin, Dragon Ball: O Filme e vários do Shyamalan. Por isso acabei mergulhando um pouco em outros rankings. Li a lista de piores avaliados pela audiência, pelos críticos, vi curadorias de filmes ruins em sites especializados e até nas redes sociais. Mas o que realmente me surpreendeu, no fim das contas, é que nenhum dos filmes na lista de piores de todos os tempos se encaixava na categoria "filmes lacradores", "agenda LGBTQIA+" ou "destruidores da família tradicional".

Você deve estar se perguntando o porquê de eu estar procurando filmes com esse tipo de temática, não é mesmo? É que de tempos em tempos ainda tem uma galera que se apoia na falácia do "quem lacra não lucra" para avaliar filmes que trazem um pouco mais de representatividade e diversidade em suas produções.

O exemplo que vem à mente de cara é o reboot dos Ghostbusters, de 2016, em que escalaram apenas mulheres para o elenco principal. O filme é bem ruim, mesmo. Mas há quem diga que é ruim apenas porque a produção quis "lacrar" com uma suposta agenda feminista.

A esses grandes defensores da família tradicional não faltam argumentos de filmes que supostamente falharam por conta de alguma temática progressista. Capitã Marvel, Viúva Negra, Mulher Maravilha: 1984, isso pra citar alguns apenas do universo geek, o mais tóxico quando o assunto é diversidade e representatividade.

Ao mesmo tempo, parecem ignorar sucessos como Pantera Negra (2018), Homem-Aranha no Aranhaverso (2019), Moana (2016), a nova trilogia de Star Wars (que tem vários problemas de roteiro, mas inegavelmente é um sucesso), entre tantos outros. E todos com algum tipo de abordagem progressista.

Outro argumento favorito entre os salvadores da moral conservadora no entretenimento é quando "estragam" personagens consagrados em outras mídias (como HQ ou games), mudando sua etnia, gênero ou o que for na adaptação dos cinemas.

Tem gente de luto porque Lúcifer, na adaptação da HQ para a Netflix, terá uma mulher como representante nas telas. Ou mesmo Ariel, a pequena sereia, que será interpretada por uma mulher negra. Os dois últimos motivos de revolta foram a mulher negra que será a nova agente 007 e o tal do Superman bissexual.

O argumento é que não faz sentido mudar a cor, a orientação ou qualquer outra característica aparentemente imutável de um personagem em prol da diversidade. É tipo o Nick Fury do Universo Cinematográfico da Marvel. Nos quadrinhos, originalmente era um homem branco. No cinema, é ninguém menos que Samuel L. Jackson.

Mas em sua lógica preconceituosa disfarçada de ponderação inteligente, não é que os reclamões são racistas ou homofóbicos, claro que não. Eles apenas prezam pela pureza da criação original e, por isso, não veriam problema em criar boas histórias com novos personagens representativos sem que, para isso, estragassem seus ícones de infância.

Pois bem, meu querido nerd, é exatamente isso que aconteceu tanto com a nova 007 quanto com o Superman bissexual. No caso da agente secreta, 007 não é um personagem, mas sim um título, que agora será carregado pela agente mulher e negra.

E para o novo Superman, esse é o filho do Clark Kent, aquele hétero que você conhece, que já pegou a Mulher-Maravilha e casou com a Lois Lane. O legado tá preservado! É um personagem novo, portanto tá tudo bem ele ser bissexual né?

Então chega de choro.

Eita, mas por que estou lendo essa lacração toda no site da Exame? Aqui não é pra falar de negócios? Justamente. E é disso que estamos falando. Quem lacra, afinal, lucra. Ou você acha que as indústrias do cinema, da HQ e dos games estariam fazendo todo esse movimento de representatividade e inclusão se não fosse, de alguma forma, lucrativo?

O que acontece, no entanto, é que misteriosamente a barra de expectativa sobe muito quando é um filme que se dispõe a retratar diversidade e inclusão. Subitamente, ele só pode existir se for uma obra-prima. Mas ninguém usa os mesmos critérios de julgamento para a tonelada de produções ruins que foram feitas no universo heteronormativo de sempre, concorda?

Aliás, se fizermos um levantamento por amostragem da quantidade de filme ruim que NÃO se preocupa com inclusão e representatividade, usando a mesma lógica furada reversa aos sommeliers de diversidade que vemos por aí na internet, eu poderia afirmar sem pestanejar que quem não lacra, afinal, não lucra.

*Cauê Madeira é sócio-diretor de Growth na Loures Consultoria

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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