Lucas Perpetuo, arquiteto, urbanista e criador de conteúdo digital (Radis/Reprodução)
Repórter Bússola
Publicado em 29 de agosto de 2026 às 13h00.
Primeiro você começa, depois melhora. A trend que apareceu nas redes sociais este ano serve de conselho para os próprios aspirantes a criador de conteúdo digital. Lucas Perpétuo, criador de conteúdo e provocador urbano, é a prova do conceito.
“Eu gravei meu primeiro vídeo 64 vezes. Não estava satisfeito com a minha imagem e achava que as iam falar de tudo, menos do que é importante. Eu postei o vídeo, desliguei o celular e fui dormir. Quando acordei tinha 600 mil visualizações”, conta.
Logo após o impulso inicial, a publicação, de janeiro de 2025, deu início ao período de amadurecimento dele, processo que todo criador de conteúdo passa, mas que nem todo iniciante sabe que é necessário.
Lucas sequer consumia vídeos curtos antes disso, mas hoje tem três formatos de sucesso que garantiram mais de 200 mil seguidores no instagram em apenas um ano e meio.
“Criar conteúdo, trabalhar e ganhar dinheiro com isso… É um privilégio. É um tesouro não precisar acordar cedo, não precisar pegar transporte público”, ele conta.
Com 30 anos, arquiteto e urbanista formado pelo IBEMC e morador da Cidade de Deus no Rio de Janeiro, Lucas é um inconformista. Nas redes, ele denuncia pecados da arquitetura e produz um conteúdo focado no debate público e no impacto social, já tendo realizado parcerias com entidades como WWF, Greenpeace e a Prefeitura do Rio. Nós conversamos com ele para saber…
Lucas tem três deles: "Segunda da Alegria", "Quarta do Julgamento" e "Sexta-feira da Raiva", o último foi seu primeiro formato desenvolvido e consiste na avaliação de projetos arquitetônicos de “passar raiva”.
Periférico, o criador da Cidade de Deus concluiu a faculdade de arquitetura e seu primeiro emprego com uma indignação quanto à ausência do conhecimento sobre arquitetura no debate público. Ele começou a levar tudo que aprendeu para a internet, escrevendo posts com apuração profunda.
"Eu sempre me coloquei ali na internet como um tradutor. Eu sempre vi como esse conhecimento é denso e pesado. ‘Como eu faço para traduzir isso pra sociedade?’, me perguntei".
Seu primeiro trabalho a viralizar foi uma thread no Twitter sobre Cidades Esponja. “Eu tive que pegar livros em chinês, traduzir, fazer uma pesquisa super extensa e produzir um dos primeiros materiais completos assim sobre o assunto. O post viralizou para caramba”.
Ele começou seus vídeos utilizando o mesmo método sólido de pesquisa e composição do conteúdo, roteirizando-os com igual investimento. Mas como todo criador, ele encontrou alguns obstáculos.
Quanto mais credibilidade, menos necessária a citação das fontes de vídeos informativos ou de conteúdo denso como os que Lucas faz. No entanto, a trajetória exigiu que, para conservar a energia, ele utilizasse uma alternativa.
“Meu vídeo sobre o desmatamento no Egito e as árvores de plástico pegou cerca de 5 milhões. Foi um grande boom, mas o que vinha de gente perguntando das fontes. Eu passei então a colocar em todo vídeo, pra garantir”.
Com a base da reputação assegurada ele desenvolveu seus outros dois formatos. O dá segunda-feira, em especial, foi feito justamente para permitir que ele conseguisse monetizar seu conteúdo.
“O Instagram não paga e eu sempre pensei ‘nenhuma marca vai querer se associar alguém que fala mal das coisas’, sabe? O quadro da Segunda da Alegria foi desenvolvido pensando nisso”.
Para Lucas, apenas uma câmera e um investimento em tempo. O primeiro vídeo dele foi gravado com iluminação da janela de casa. Atualmente, o criador de conteúdo tem uma produção baseada em greenscreen e imagens de cobertura e leva de 6 a 12 horas para concluir um vídeo.
Mas outro lado importante para ele é a disciplina. “Eu posto vídeo às 9 horas da manhã, respondo todos os comentários relevantes até as 10 horas. De 10 a meio-dia eu respondo DMs, depois de meio-dia eu não vejo mais o celular. É um ciclo que criei”
Ele conta que separar bem sua persona das redes sociais de quem ele é na vida real é extremamente benéfico.
Em primeiro lugar, sim, é possível escolher os parceiros. É bom para qualquer aspirante a criador de conteúdo saber disso. Mas também é necessário certa preparação para chegar nesta etapa. Para Lucas foi e ainda é uma questão de seguir seus valores.
“Muitas coisas eu nego. Hoje posso escolher porque as pessoas criaram uma confiança muito grande em mim, porque eu não falo de nada que eu não tenho propriedade”.
Lucas começou a página para conseguir o caixa necessário para realizar suas metas de vida, solidificadas em projetos arquitetônicos voltados para sua comunidade na Cidade de Deus. O objetivo o orientou e permitiu uma postura que potencializou seu ganho de credibilidade e autoridade.
“Eu priorizo o debate e o que acontece nos comentários. São trocas incríveis. Eu já vi cientista político discutindo com estudante e ambos chegando num consenso. Quero que as pessoas troquem links e informação, troquem perfis e assim se desenvolva aquele tema. Nunca ‘é só um vídeo’”.
Atualmente, o creator tem contratos com a agência Índica, de marketing digital. Metade das propostas chegam por ela e a outra metade por mensagens diretas nas redes sociais.
Lucas admite que achou, no começo, que sua criatividade se esgotaria em algum ponto, mas isso nunca aconteceu. O arquiteto almeja projetos como salas de pânico em escolas na Cidade de Deus, para garantir segurança durante confrontos na região.
O conteúdo dele, como seu propósito pessoal, é acima de tudo voltado para sua comunidade. Foi pensando nisso que ele conseguiu desenvolver formatos que são ricos em informações, mas leves e divertidos ao mesmo tempo.
“As pessoas estão chegando do trabalho cansadas, elas não querem bomba de informação, elas querem um conteúdo que ao mesmo tempo divirta e possam informar. Meu termômetro é a minha avó. Eu mostro para ela e se ela entender é porque o vídeo está bom”
Enquanto opera a página e capta os recursos necessários, Lucas segue planejando seu futuro e o futuro da Cidade de Deus. Um dos seus sonhos é comprar uma das casas conservadas do projeto original da cidade e transformá-la em museu.
Esse propósito é o que orienta o criador de conteúdo e provocador urbano digital. Sem ela, teria sido mais difícil encontrar seu nicho, seus formatos e seu público.
“Não temo a morte, temo não acrescentar nada a este mundo. E minha história é o que classificam na literatura como ‘baixa-aventura’. Não é nada grandioso. O que importa para mim são as muitas mensagens ou conversas como a que tive com uma senhora de 56 anos. Ela disse que sempre teve vontade de fazer arquitetura e entrou depois de ver meu conteúdo. Se estou melhorando a vida das pessoas assim, já estou feliz”.