Criador de conteúdo: nova lei acompanha a profissionalização das relações entre criadores, marcas e plataformas (Arte/Bússola)
Redação Exame
Publicado em 10 de agosto de 2026 às 08h00.
Por Bianca Boucault*
A sanção da Lei nº 15.325/2026, no começo deste ano, representa mais um passo na profissionalização da creator economy brasileira. Embora tenha sido amplamente interpretada como uma regulamentação dos influenciadores digitais, a legislação, na prática, reconhece e organiza atividades ligadas à criação de conteúdo em plataformas digitais, sem estabelecer uma profissão exclusiva para influenciadores.
Ainda assim, o avanço é simbólico, já que o mercado passa a tratar a criação de conteúdo como uma atividade econômica estruturada que exige responsabilidade, transparência e relações comerciais mais maduras.
Esse movimento reflete a maturidade da chamada creator economy no Brasil e no mundo. Projeta-se que o mercado global alcance US$ 1,3 bilhão até 2033, segundo o Creator Economy Market Report da Grand View Research. Ao mesmo tempo, o marketing de influência se consolida como um dos segmentos que mais crescem dentro da publicidade digital.
Em pesquisa divulgada pela HypeAuditor, o setor deve movimentar US$ 31,2 bilhões até 2027, impulsionado pela expansão do social commerce, da inteligência artificial e da entrada de pequenas e médias empresas nesse ecossistema.
Os números mostram que não é apenas o mercado que está crescendo, mas também a forma como as marcas e os criadores de conteúdo se relacionam. Agora, eles deixaram de ser vistos apenas como um canal para ampliar o alcance das campanhas e passaram a ocupar um espaço estratégico nas ações de comunicação. Isso acontece porque, além de produzir conteúdo, eles criam vínculos reais com suas comunidades e conquistam a confiança do público.
Para as empresas, trabalhar bem esse papel é essencial para a construção e fidelização das marcas, já que essa proximidade permite construir conexões muito mais autênticas e relevantes do que a simples divulgação de uma mensagem.O tamanho da audiência não é o principal indicador de influência, sendo que o que realmente faz diferença é a confiança que o criador constrói com sua comunidade ao longo do tempo. Não por acaso, 60% das publicações patrocinadas no Instagram identificadas com a hashtag #ad são feitas por criadores com menos de 50 mil seguidores, segundo dados da HypeAuditor. Com comunidades menores, porém mais engajadas, esses perfis costumam gerar resultados mais consistentes.
Essa mudança também transformou a forma como as campanhas são planejadas e, assim, em vez de concentrar investimentos em poucos grandes influenciadores, muitas empresas passaram a focar em redes de nano e microcriadores, que conversam com nichos específicos de forma mais autêntica.
Outro ponto é que a tecnologia também vem acelerando a profissionalização do setor. Atualmente, 83% dos influenciadores do Instagram utilizam ferramentas de inteligência artificial para apoiar a criação de conteúdo. A IA simplificou vários processos, mas não substituiu a importância do criador se conectar com o público através da sua própria criatividade e autenticidade.
Os consumidores ficaram mais exigentes, cobrando transparência nas parcerias e coerência no discurso. A regulamentação veio apenas para acompanhar essa mudança que o público já pedia, transformando a clareza em premissa de credibilidade. Em paralelo, redes como Instagram, TikTok e YouTube ajustaram suas entregas para priorizar conteúdos que realmente retêm a atenção, valorizando o engajamento real e o tempo de exibição.
A escolha de criadores exige um olhar muito mais criterioso das empresas, que precisam analisar o perfil do profissional, a conexão real com a audiência e a sintonia com o negócio. Em um cenário em que a atenção é cada vez mais dispersa e disputada, um bom criador é o que garante a construção de relações duradouras com o público.
É aí que as agências têm um papel de destaque, atuando no mapeamento dos nomes certos e no desenho de campanhas mais estratégicas e relevantes.*Bianca Boucault é diretora de marketing digital na Sherlock Communications.